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Brampton: Fé e devoção ao Santo Cristo dos Milagres continuam fortes em tempos de pandemia

Por Luís Aparício

Sol Português

Após a interrupção temporária no ano passado, em virtude das restrições impostas pelas autoridades locais para darem resposta à pandemia da Covid-19, as festas religiosas de homenagem ao Senhor Santo Cristo dos Milagres voltaram a celebrar-se em Brampton, onde no último fim-de-semana se juntaram fiéis e devotos ao longo de quatro dias de actividades.

Ainda que sem o habitual arraial e em cumprimento das leis municipais, a celebração decorreu de sexta (10) a segunda-feira (13) e juntou algumas centenas de pessoas no espaço da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Para Guido Pacheco, que preside à organização que leva a cabo as festividades, o resultado pode ser assinalado como "um grande sucesso", tendo em conta as actuais circunstâncias.

Em declarações ao jornal Sol Português no passado sábado (12), o responsável destacou o "entusiasmo e a fé muito fortes" que eram notáveis entre os devotos, acrescentando que "o povo de Brampton e arredores tem apoiado estas festas com grande devoção ao Senhor Santo Cristo" ao longo dos anos.

"A gente não sabe o futuro", como reconheceu, mas garante que a Irmandade a que preside – actualmente composta por 28 elementos, de várias faixas etárias – continua forte e unida, como "uma família que sente o calor" de estar envolvida na organização deste importante evento religioso que representa uma das maiores manifestações de fé no Ontário.

Estas festas religiosas contam também com o empenho da Associação Feminina do Senhor Santo Cristo dos Milagres, organismo fundado em 2011 e composto por mais de três dezenas de senhoras que tratam das flores e da limpeza da Capela, e que participam na procissão que se realiza em torno da Igreja Paroquial.

Força e esperança para dias melhores

O cónego Adriano Borges, reitor do Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada, nos Açores – onde as festas religiosas originaram – foi novamente convidado a participar nesta realização em Brampton, agora num contexto de pandemia que limitou significativamente a presença do público comparativamente, às multidões a que assistiu há quatro anos, quando aqui se deslocou.

Em declarações ao jornal Sol Português, o sacerdote lembrou que o culto e a tradição do Santo Cristo têm muito a ver com o espírito da vivência açoriana, marcada pelas romarias na Quaresma e Paixão de Jesus Cristo, e com o espírito de sacrifício e a consciencialização de que a vida não é fácil.

Embora tenham surgido no contexto dos sismos que frequentemente abalam as ilhas, a pandemia "veio fazer-nos repensar a nossa vida" e dessa forma dá um novo alento à devoção.

O cónego sublinhou ainda que é preciso rever e aprofundar a relação com Cristo, perguntando: "Quem é Jesus Cristo para nós?" e enfatizou que quem quiser ser discípulo de Jesus deve tomar a sua cruz e segui-lo.

"A vida tem o bom e o mau, o fácil e o difícil", destacou, lembrando que se optarmos "sempre pelo fácil, nunca vamos crescer e amadurecer; o difícil é o que nos torna mais homens e mulheres, e nos prepara para a vida".

Na tarde de sábado, e após a mudança da imagem e da procissão em torno da igreja – cortejo que foi acompanhado pela Banda Lira Portuguesa de Brampton (fundada em 1976) – procedeu-se à celebração de missa ao ar livre.

Na qualidade de pregador das festividades, Adriano Borges invocou ao Senhor Santo Cristo para que a todos conceda "força e esperança para um tempo melhor" e, face ao forte vento que na altura se fazia sentir, fez uma analogia com o dia de Pentecostes.

"O ar que circula entre nós faz lembrar o domingo de Pentecostes, em que os Apóstolos e Maria Santíssima [estiveram] fechados no Cenáculo, como nós estivemos durante tanto tempo fechados e escondidos, com o medo e com os medos que, infelizmente, ainda temos de ter e de respeitar", relatou, prosseguindo:

"De repente, veio o Espírito Santo e desceu sobre eles como uma grande lufada de ar fresco na sua igreja e uma lufada de ar fresco que mudou e transformou a vida da Igreja e daqueles homens mulheres daquele tempo, como também esperamos nós que este vento que agora se faz sentir possa mudar as nossas vidas", concluiu.

O sacerdote reconheceu ainda a oferta de "uma lindíssima capa" para adornar o Senhor Santo Cristo dos Milagres nos Açores, feita pela comissão responsável pelas festas de Brampton e entregue pelas mãos do seu presidente, Guido Pacheco, e do tesoureiro, durante as festas deste ano em Ponta Delgada.

Feita por ocasião do 15.º aniversário desta comissão que no Canadá recria as tradições do culto do Santo Cristo, foi, como descreveu o cónego, "um momento muito intimista, muito de proximidade com o Senhor".

O culto pelo mundo

A emigração de muitos açorianos para os Estados Unidos da América e para o Canadá, particularmente oriundos da ilha de São Miguel, levou o culto e a devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres a ganhar expressão através da realização de festas e procissões em várias cidades do continente norte-americano.

Exemplos disso surgem em cidades tão diversas como Montreal, na província de Quebeque, e Brampton, Cambridge, Toronto, London, Kingston e Leamington, no Ontário, a nível do Canadá, mas também nos Estados Unidos, sobretudo em Fall River e Cambridge, no estado de Massachusetts, mas também em algumas outras no estado de Rhode Island.

Em Fall River foi mesmo edificada uma igreja paroquial dedicada ao Senhor Santo Cristo.

Até na cidade de Hamilton, nas ilhas Bermudas, onde se radicaram muitos milhares de emigrantes açorianos, se realiza anualmente uma procissão solene em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres.

Esta realidade vai ao encontro das palavras de fiéis como José Manuel Lima, residente em Toronto, que nos diz que "nós, como emigrantes, temos aquela saudade" de assistir a uma festa muito linda de homenagem ao Santo Cristo.

Como conclui: "a Covid-19 atrasou muita coisa, mas a fé continua".

Margarida Medeiros, por seu lado, disse à nossa reportagem que vem todos os anos para participar nestas festas e "pedir ao Senhor Santo Cristo pela paz no mundo, pelas nossas famílias e pelos jovens".

Na sexta-feira o programa das festas incluiu a celebração de Missa (19h00) pelo cónego Adriano Borges, vindo de S. Miguel, abertura da iluminação, vigília e exposição do Santíssimo Sacramento, que ficou patente ao público durante toda a noite e teve a participação de grupos ministeriais da Paróquia.

A vigília terminou no sábado, pelas 7h00 da manhã, com a chegada dos Romeiros.

Na manhã de domingo, pelas 11h30, realizou-se a procissão com a imagem do Santo Cristo, em torno da igreja, acompanhada pela Banda Lira Portuguesa de Brampton.

Ao cortejo religioso seguiu-se missa campal, que foi celebrada nas traseiras do templo, ao lado da Capela do Senhor Santo Cristo, registando-se a pregação do bispo Ivan Camilleri, que desempenha as funções de bispo-auxiliar da Arquidiocese de Toronto.

Das 15h00 às 17h00 a venerável imagem do Senhor Santo Cristo esteve exposta no andor, para visitação pelos fiéis que passavam de carro em cortejo, sendo de seguida transladada para a igreja, onde ficou exposta aos visitantes durante o resto desta semana.

Ainda integradas no programa das festas, de 1 a 9 de Setembro foram celebradas as novenas dedicadas ao Senhor Santo Cristo.


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