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Igreja de Santa Maria dos Anjos:

Aos 102 anos tradição já não é o que era, mas persiste

Por António Perinú e Fátima Martins
Sol Português

Todos os anos – e já são muitos, uma vez que a tradição já conta com mais de um século de existência – a comissão de festas da Igreja de Santa Maria dos Anjos organiza a festa da sua padroeira, uma das mais significativas realizações religiosas actualmente centrada na comunidade portuguesa de Toronto.

E dizemos actualmente porque nem sempre assim foi, uma vez que desde o princípio do século XX até metade do mesmo a devoção a este culto naquela igreja foi da cúria de fiéis italianos, passando então para o foro da comunidade lusa que despontava na paróquia – particularmente de origem açoriana, naturais da ilha de São Miguel onde todos os anos se realiza uma grande festa em honra de Nossa Senhora dos Anjos.

Segundo apurámos junto do presidente da comissão de festas, Eric Goulart, que há 12 anos está integrado na organização – cinco dos quais como presidente – as festividades chegaram a não se realizar durante alguns anos, mas foram retomadas por haver ainda muitos fiéis.

Apesar de reconhecer que actualmente "já não são o que eram", estes voluntários continuam empenhados em dar-lhes continuidade e a verdade é que as festas chegaram até a crescer um pouco, "mas não muito", admite.

Assim, o culto foi retomado segundo as tradições portuguesas e no passado fim-de-semana os dias de sábado e domingo (12 e 13) foram mais uma vez dedicados às majestosas festas que pelo 102.º ano se realizaram em torno deste templo, localizado na intersecção das ruas Dufferin e Davenport.

O religioso e o profano de mãos dadas num evento inspirado pela fé, as celebrações começaram no dia de sábado com Missa, seguindo-se um arraial e espectáculo de variedades no recreio da escola junto à igreja que contou com as actuações de Henrik Cipriano, VP Musik Connection e Joey Medeiros, este último vindo da Califórnia, EUA

O ponto alto surgiria no domingo, porém, quando se realizou a famosa procissão que levou o andor da Senhora dos Anjos em cortejo pelas ruas circundantes, momento grande em honra da padroeira e que junta maior número de devotos.

Antecedida por uma Missa Solene, a procissão saiu à rua cerca das 13h30, logo após uma interpretação da Banda Lira Nossa Senhora de Fátima, altura em que começaram a surgir as bandeiras do Canadá, de Portugal, do Vaticano e da Região Autónoma dos Açores, assim como o Guião.

Vários figurantes interpretavam o papel de personagens bíblicas, dos três pastorinhos de Fátima, de anjos e outras personagens, intercaladas entre as imagens e andores de São José e Nossa Senhora dos Anjos, e o séquito de sacerdotes.

A acompanhar o cortejo surgia a Banda Lira Nossa Senhora de Fátima, seguida dos fiéis da paróquia.

No fim deste acto religioso deu-se lugar mais uma vez ao arraial e espectáculo, que decorreu no mesmo local da noite anterior.

Desta feita, a primeira actuação coube a Lídia Sousa, seguindo-se depois um concerto pela banda acompanhante da procissão.

Presidida por António Franco e tendo como maestro Mário Jorge Vieira, a filarmónica apresentou-se com alguns elementos a tocarem e a cantarem em marcha até ao improvisado coreto onde os restantes elementos os aguardavam, dando início ao concerto com um brilhante passodoble intitulado "Rosas de Outono".

Pelo palco viria a passar também Tony Câmara, seguido de VP Musik Connetion e, a encerrar, Joey Medeiros.

Matthew Correia foi o apresentador dos espectáculos durante estes dois dias, tendo o som e luzes ficado a cargo de 5 Star Productions.

O futuro é sempre uma incerteza, mormente para realizações desta índole, pautadas pelas tradições religiosas de um povo imigrado num mundo em transformação.

Por esse motivo Eric Goulart se apresenta algo pessimista ao confrontar-se com a possibilidade desta realização centenária poder vir a acabar, uma vez que "os mais novos não estão interessados em participar e os mais velhos já não são muitos".

Mas como "enquanto há vida há esperança", como acrescenta logo a seguir, "vamos ver o que o futuro nos reserva", conclui.


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