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Senhor Santo Cristo dos Milagres leva milhares a Brampton mesmo em tempo de pandemia

Por João Vicente
Sol Português

A devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres é fortíssima também deste lado do Atlântico, como mais uma vez o comprovou a afluência de milhares de fiéis à igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Brampton, no passado domingo (13) mesmo sem a realização da procissão e do arraial que habitualmente marcam estes festejos anuais.

Muitos dos fiéis chegaram mesmo a participar nos três dias de actividades religiosas organizadas em torno deste evento, que tiveram início na noite de sexta-feira (11) com uma vigília e a exposição do Santíssimo Sacramento, e continuaram na manhã seguinte com a chegada dos romeiros e a celebração da missa.

Já no décimo quarto ano desde que a força motriz por trás desta iniciativa, Guido Pacheco, lançou mãos à obra e fez implantar as festividades dedicadas ao Senhor Santo Cristo também na cidade de Brampton, esta foi a primeira vez que não decorreram como as havia idealizado, segundo revelou à nossa reportagem.

A pandemia de Covid-19 que grassa pelo mundo continua a impor alterações à forma como as pessoas interagem e Guido Pacheco, que continua a dirigir estas festividades e a equipa de voluntários que as levam a cabo, teve de adaptar também esta celebração de fé para que se pudesse realizar.

O evento atrai anualmente milhares de pessoas, não apenas de Brampton, Toronto e Mississauga, como de cidades mais distantes e até de fora da província, mas este ano foi necessário respeitar as normas de distanciamento em vigor no Ontário.

O domingo é sempre o dia que mais fiéis atrai a esta igreja de Brampton, onde normalmente se realiza a missa de porta aberta e com altifalantes no exterior, uma vez que a capacidade do edifício não comporta toda a gente que deseja assistir e a multidão enche o átrio, a escadaria e áreas circundantes.

Depois é a enorme procissão, sem dúvida o momento alto em que a paróquia e os devotos do Senhor Santo Cristo dos Milagres proclamam a sua fé de forma mais aparatosa, com toda a pompa e circunstância que retrata as características celebrações deste culto originário da cidade de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel - Açores.

Este ano. porém, a igreja apenas pôde acomodar cerca de um terço dos devotos, por forma a respeitar as normas de distanciamento decretadas pelas autoridades, e as multidões não acorreram à missa como é hábito, sendo a própria procissão cancelada.

Em seu lugar, a organização optou por expor a imagem do Santo Cristo nas traseiras da igreja, como já era costume acontecer em anos anteriores, após a procissão, mas desta feita, em vez de um altar elevado, foi colocada noutro mais baixo e mais próximo dos fiéis que a partir das 14h00 começaram a desfilar à sua frente, de carro.

Após um simples cortejo, com elementos da comissão de festas a acompanharem os párocos da igreja até ao local da cerimónia, ao som da música interpretada pela Banda Lira Portuguesa de Brampton, escutou-se ainda a trompete de Matthew Tavares antes de Guido Pacheco oferecer uma prece silenciosa e sinalizar aos voluntários para abrirem a porta.

O padre Andrzej Chilmon, acompanhado do padre-ajudante Manuel Quintal, que também assistiu à celebração da missa, acolheu a imagem expressando o seu desejo de que esta viesse a abençoar todas as pessoas ali reunidas, "para que todas as doenças e esta pandemia possam terminar e assim, livres de todos os males, possamos venerar a sua imagem e encontrá-Lo na nossa vida".

Por fim, após ter sido rezado um Pai Nosso, a imagem coberta por uma bela capa oferecida por João e Fátima Pacheco foi transferida para o altar perante o qual pouco depois começaram a desfilar centenas de carros.

À medida em que cada veículo se aproximava, um voluntário colocava-lhe uma flor antes deste parar frente à imagem para uma rápida prece, promessa ou agradecimento dos ocupantes, que deixavam depois a sua dádiva antes de prosseguirem, dando lugar ao próximo.

Para Maria Estrela, que nos diz nunca ter faltado a esta celebração pública de fé cristã desde que aqui se começou a realizar, era importante estar presente, mesmo neste momento e com as restrições impostas.

É algo que "vem do coração", como realça, acrescentando de imediato: "gosto muito do Senhor Santo Cristo, tenho muita fé com Ele".

Quanto à forma como o evento decorreu este ano, revelou-se contente, apesar das circunstâncias, dizendo que "pelo menos é uma lembrança para nós todos".

Já para o casal Hermano e Maria Pereira, que costumam estar nos Açores, em São Miguel, por esta altura do ano, onde Hermano cumpre com a sua devoção a Nossa Senhora da Luz, esta foi uma oportunidade para verem esta grande festa dedicada a Jesus e que aqui se realiza.

Como explica a esposa, parece que "Nossa Senhora disse assim: `até agora vieste-me ver, agora vais ver o meu filho, o Senhor Santo Cristo dos Milagres'", acrescentando que "até parece que foi bom o coronavírus para ficarmos para trás e assistir às festas".

Os limites e as regras impostas pelas medidas de contenção da pandemia aparentemente não os apoquentaram e o marido considera que os responsáveis "fizeram tudo pelo melhor" e que "ficou tudo muito bem feito e bem organizado", acrescentado estarem a gostar de tudo a que assistiam.

Um casal terceirense, Maria e Luís Gaspar adoptaram esta tradição de São Miguel há alguns anos e para eles a devoção fala mais alto, por isso também nesse dia se dirigiram à igreja de Nossa Senhora de Fátima, como é habitual, apesar das restrições.

Como nos contam, embora gostassem, sentiam-se um pouco tristes por as celebrações não poderem decorrer como é habitual e Maria adiantou mesmo uma prece: "que o Senhor Santo Cristo permita que isto fique bom daqui a um ano, para virmos todos, quem puder vir".

Ligados por laços familiares ao organizador deste evento, Marlina e Jason Hildebrandt são, respectivamente, filha e genro de Guido Pacheco e também eles não faltaram, fazendo-se acompanhar pelos filhos, Dylan e Olivia.

Para Marlina, é uma tradição com a qual tem vivido desde que se lembra e apesar das diferenças, que são palpáveis face ao que era habitual, ainda assim considera que "tendo em conta o que está a acontecer com a pandemia […] é uma excelente forma de manter a ligação à nossa fé e ao Senhor Santo Cristo".

Para o pároco desta igreja, Andrzej Chilmon conhecido pelos paroquianos simplesmente como "padre André" "esta manifestação de fé é importante hoje em dia, quando estamos a viver este tempo de pandemia, em que todo o mundo tem medo", e dá como exemplo os muitos crentes que lhe telefonam a perguntar se a igreja está aberta, mas lamentam que os filhos ou netos tenham medo de os acompanhar por causa do vírus.

Por isso considera "importante mostrar esta coragem coragem que o Nosso Senhor nos possa dar neste tempo difícil".

Como destaca, "Ele é dono do mundo, Ele sabe porque entrou esta pandemia e esta provação que todos estamos a viver este fechamento", acrescentando estar convicto de que apesar de tudo, "vai gerar bons frutos", nomeadamente, "mais fé no Nosso Senhor, porque Ele é que na verdade governa este mundo e nós somos seus filhos, por isso confiamos Nele".

Guido Pacheco, por sua vez, declarou-se muito feliz pela forte adesão registada e pela forma como tudo decorreu, apesar das restrições dizendo que, pelo menos deu "oportunidade às pessoas de verem o Senhor Santo Cristo cá fora, fazendo[Lhe] uma homenagem".

Quanto ao projecto que apresentou o ano passado para a construção de uma réplica, em escala menor, das famosas portas da cidade de Ponta Delgada, esclarece que a pandemia obrigou ao encerramento temporário da empresa açoriana que produz a pedra necessária para o realizar, mas continua vivo e "para o ano, se Deus quiser" há-de ser construído.

"É o sonho da nossa igreja, do nosso padre André, da nossa paróquia e vamos fazer", garantiu Guido Pacheco, concluindo: "quando eu digo uma coisa, gosto de completar o que digo, por isso isto é uma ideia que vai ser realizada um dia".

Entretanto, gostaria de ver passada a mensagem de que é preciso acreditar mais e seguir os mandamentos de Deus já que, como explica, "tenho toda a certeza que o Senhor Santo Cristo está pedindo à gente para termos mais fé neste mundo".

"É isso que peço a todos nós, para cada um de nós ter mais fé neste mundo e nos nossos corações para o Senhor Santo Cristo dos Milagres", concluiu.

A julgar pela afluência de público, que da segurança dos seus carros fez questão de estar presente, o interesse neste evento de cariz religioso não decresceu e a fé dos seus devotos permanece inalterada pela pandemia.

O desfile de veículos continuou até para lá das 17h00, quando a paróquia, para cumprir com as licenças obtidas do município e da polícia, teve de dar por terminado o evento e vedar o acesso ao estacionamento, embora continuasse ainda muita gente à espera, na fila de carros.


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