PENA & LÁPIS


Correspondente do Brasil:

O jantar do ajudante

Por Francisco G de Amorim
Sol Português

Naquele tempo, aí 1954… quando em Angola saíamos de carro para o interior, sempre levávamos um ajudante, que servia principalmente para trocar pneus ou ajudar a tirar o carro dum atoleiro, o que na época das chuvas era frequente, enfim, era um colaborador indispensável.

Normalmente dormia dentro do carro quando pernoitávamos em algum lugar, ficando por vezes melhor acomodado do que o "patrão" que mais de uma vez se "encontrou" em camas com colchão de palha de milho com carolo que se enfiava nas costas, roupas já usadas, etc.

Para comer dávamos-lhes uns quantos escudos e ele ia comer na cozinha do "restaurante". Passar fome, jamais os que andaram comigo passaram, até porque eu sempre perguntava se tinham comido bem.

Outras vezes, sabendo que para onde íamos era difícil encontrar um lugar decente para comer, levávamos um conveniente farnel de casa, sentávamo-nos na beira da estrada e vá de refazer energias já dispendidas.

Muito mais do que uma vez fui eu quem comeu em humildes casas de angolanos, lá pelos recônditos do país, e não me lembro de ter comido mal, muito pelo contrário, ainda hoje choro com saudades das galinhas, e até perdizes ou "angolas," que num repente se preparavam à última hora, churrasco que daquela qualidade nunca mais comi, mesmo tendo percorrido inúmeros países e comido em restaurantes de 1ª classe.

Num dia lá por uma área meia a sudeste, a fome apertava e nada aparecia para nos saciarmos, quando se avista uma casa de comércio, daquelas que vendiam de tudo e até tinha no canto da loja, mais ou menos separadas por uma surrada cortina, umas quatro mesas e cadeiras para quem passasse e quisesse beber umas Cucas ou comer qualquer coisa que a mulher do comerciante rapidamente providenciava.

Era aquele canto mais ou menos reservado aos "brancos".

Era noite, a loja/restaurante iluminada com dois "Petromax", aquele ambiente que de feérico nada tinha, apesar dos Petromax darem uma luz excelente.

Saí do carro, ajudante atrás, perguntei se nos podiam dar de comer, resposta positiva até com os detalhes do "petisco", e avancei para o "salão". O ajudante ficou parado; eu chamei-o para que viesse sentar-se comigo. Nessa altura o comerciante diz que ali não era para pretos!!!

Voltei ao carro, peguei na minha caçadeira calibre 12 o que deixou o homem aterrado.

- Façamos o seguinte: eu atiro nos dois Petromax, fica tudo escuro e já ninguém vai ver se ali estão brancos ou pretos. Você nunca se deitou com uma mulher preta? (a esposa era uma bimba portuguesa, e estava a ouvir a conversa). Com certeza que sim. Então quer dizer que pode ter uma preta na cama mas não quer ter um preto a comer à mesa?

- Por favor não atire!

- Não, eu não fazia tenções de atirar; só queria dar um recado. Aquele homem que está ali comigo, além meu ajudante é meu amigo. E eu não mando os amigos comerem na rua. Mas se acha que ele não pode entrar... então diga adeus a dois clientes e a dois candeeiros.

O Zé Mané engoliu em seco, nós sentámo-nos e veio a comidinha para os dois. O ajudante não se sentia muito à vontade mas eu sosseguei-o. Quando a madame trouxe a comida, fez um ar de espanto ao olhar o segundo comensal, mas não abriu o bico.

Perguntei se tinha vinho, bom e, pressuroso, trouxe uma garrafa de vinho mesmo bom, cuja marca não lembro, creio era Romeira, alentejano, que tinha em casa há anos e estava uma delícia, e um copo só conforme pedi. O ajudante tem que ir atento e possivelmente vai a conduzir quando daqui sairmos, por isso ele não bebe.

Depois chamei o comerciante e disse-lhe para trazer outro copo para beber comigo. O homem já obedecia a tudo o que eu dissesse.

Sentou-se na nossa mesa, estava bem encabulado mas bebeu um copo, e depois que terminámos e paguei a despesa, ainda lhe perguntei se tinha feito muita diferença o comensal angolano.

Meio gaguejando, pediu desculpa.

Muitos meses depois passei novamente no mesmo lugar e quis rever o ambiente. O sujeito fez-me uma grande manifestação e quando olhei para o lado do "restaurante" estavam lá quatro africanos a beber cerveja!

Acabou por me dizer: Maldito hábito que nos fazia ver os angolanos com olhos de superioridade. Hoje tenho, todos os dias, clientes novos, e mesmo os brancos que aqui entram nem reparam nisso. E como fui o primeiro a abrir-lhes as portas, num instante isso correu por todo o lado e hoje os meus melhores clientes são os africanos.

Que bom.

África era assim. Os matarruanos que chegavam à África de pé descalço, a maioria ignorante, de repente achavam que a cor da pele era um sinónimo de hierarquia, e a humildade, forçada dos africanos, no colonialismo, os ajudava a assim pensarem.

Talvez pensamento atávico do tempo dos visigodos quando se criou o mito do "sangue azul" como sinónimo de nobreza!

Poucos se deram a pensar que o azul vinha da circunstância da cor da pele dos germânicos. Muito branca, em comparação com a dos portugueses, tisnados pelo sol e pela mistura de milhares de anos com berberes e com mouros, as veias viam-se bem e davam a impressão que o sangue era azul. Os visigodos foram os que mandaram na Península quase meio milénio.

E os babacas que se arvoram a grandes árvores ginecológicas gabam-se do seu sangue azul!

Lembro de uma piada, um pouco (?) digamos, porca, mas só com termos técnicos:

- A senhora condessa, menstruada, vai lavar-se e ouve o bidé: Com que então sangue azul, hein!"

É assim a vida.

Falta cultura, educação, humildade e o tão apregoado e desprezado "Amor ao Próximo!"

Nota. Este meu ajudante ficou tão ligado a mim, que depois de eu sair da empresa e ter voltado a Portugal, um dia recebi uma carta dele e começava assim: "Meu amado mestre!" Era um simples, e deles é o Reino dos Céus, mas eu... "Mestre"... A finalidade da carta não era endeusar-me, como se pode imaginar, mas pedir se eu lhe mandava 20 escudos. Com muita pena, não mandei. As cartas com dinheiro eram todas roubadas!


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