PENA & LÁPIS


A Diáspora e a Pandemia:

A Califórnia açoriana escuta-se e reflecte-se

Por Diniz Borges
Sol Português

Não há machado que corte a raiz ao pensamento.

– Manuel Alegre

Há anos que tento reflectir a nossa comunidade nesta minha casa, que é o estado da Califórnia. O nosso mundo entre dois mundos, como o era quando cheguei com os meus pais no longínquo ano de 1968. Eram anos de emigração abundante para terras do estado plantado à beira do pacífico. As famílias, vindas de praticamente todas as ilhas dos Açores, refaziam as suas vidas em terras que Pedro Silveira outrora descrevera, num dos mais belos poemas da literatura açoriana, como: Califórnias perdidas de abundância.

Os últimos anos da década de 1960, seguidos pela totalidade da década de 1970, foram os anos do grande êxodo emigratório do século XX dos Açores para a Califórnia. Uma emigração proveniente de um arquipélago pobre e abandonado pelo poder ditatorial que governou o país durante meio século. Foi essa emigração que trouxe vida nova a uma comunidade que tinha tido alguns salpicos de recém-chegados, aqueles que haviam nascido nos Estados Unidos e tinham regressado com os pais aos Açores, muitos em criança, mas que na sua globalidade tinha estancado (salvo algumas excepções) em 1921.

A geração Capelinhos e Carta de Chamada das décadas de 1960 e 1970, veio criar na Califórnia a comunidade que hoje somos. Uma comunidade em metamorfose, que com a pandemia terá mudanças significativas – as mudanças que já há alguns anos deveríamos ter enfrentado. Ao sabor das novas tecnologias, com o mundo virtual que pode separar, mas também pode aproximar, a Fundação para a Educação Luso-Americana (LAEF) terá, no fim deste mês de Setembro, o seu 45.º congresso em que a comunidade, em tempos de pandemia, será discutida e reflectida. O futuro, em tempos incertos, exige-o. A comunidade não pode ficar parada. É que como escreveu C.S. Lewis: "o futuro é algo que todos nós atingimos à velocidade de sessenta minutos por hora".

Este é um congresso que há quatro décadas e meia reúne centenas de pessoas, numa escola secundária ou numa universidade, as quais têm tratado uma amálgama de temas. Este ano, e para que o congresso não ficasse adiado, a direcção da fundação, em colaboração com o Instituto Português Além-Fronteiras (PBBI) da universidade estadual da Califórnia em Fresno, decidiu realizar o mesmo virtual com uma série de sessões durante oito dias. O objectivo é simples: criar espaços que possam ter ampla participação comunitária. Daí que para além de uma sessão inaugural que terá como objectivo a globalidade da língua portuguesa, as restantes tratarão temáticas exclusivamente dedicadas à comunidade portuguesa, maioritariamente açoriana.

As sessões focarão o nosso movimento associativo e as mossas que o mesmo sofreu e sofre com a pandemia; as festas comunitárias, suspensas este ano – voltarão ou não, e como voltarão? As associações da nossa cultura popular – folclore, filarmónicas e grupos de carnaval; os salões das nossas irmandades – muitas delas centenárias mas com dilemas estruturais que se arrastam há anos; os media portugueses – rádio, jornais, podcasts e novas plataformas; a criatividade literária da nossa comunidade nas nossas duas línguas, e como sempre um painel da comunidade e para a comunidade sobre o ensino da língua e cultura portuguesas, o qual, como já o escrevi, sobrevive, na maioria dos casos graças à comunidade e nunca por decreto do governo central português, independentemente do partido político.

A comunidade de origem portuguesa na Califórnia, que como é sobejamente sabido é constituída maioritariamente por açorianos e açor-descendentes, preserva um espírito que está bem patente nas novas gerações. Ainda há pouco tempo, num evento público, o congressista Jim Costa, cujos avós emigraram da lha Terceira nos primeiros anos do século XX, afirmou: "em relação a Portugal eu sou muito açorcêntrico. Defendo muito as ilhas dos meus avós, que são as minhas ilhas". Este apego muito especial aos Açores é visível na comunidade, particularmente nas segundas e terceiras gerações. É esse cordão umbilical, bastante vivo no nosso mundo associativo, que o congresso da LAEF tratará ao longo de oito dias.

A Califórnia, segundo informação recente do editor do jornal Tribuna Portuguesa, José Ávila, promoveu, em 2019, 115 festas. São festas em demasia? Terão de mudar? Farão sentido no mundo pós-pandemia? Como se adaptarão à nova comunidade que desponta por toda a Califórnia? São perguntas, entre outras, que o congresso da LAEF examinará. Porque o futuro da comunidade, à comunidade pertence. Está nas mãos dos jovens, e menos jovens, que farão parte dos variadíssimos painéis desde 26 de Setembro a 3 de Outubro. O congresso será ainda um festejo inter-geracional. Nele teremos várias gerações de homens e mulheres que constituem as nossas vivências.

A pandemia que está bem viva e as mazelas notam-se em todos os sectores da nossa comunidade, é ainda uma oportunidade de, através das novas tecnologias, unirmos a geografia deste colossal estado. Os portugueses estão espalhados um pouco por toda esta região e até ao momento são a maior comunidade de origem portuguesa nos Estados Unidos. A comunidade tem uma longa história e a sua existência no século XXI vai depender, em larga escala, da capacidade das várias gerações trabalharem mutuamente.

A construção da comunidade que todos queremos, e que Portugal deveria compreender (ainda bem que os Açores compreendem, basta dizer que sempre nos demos bem com os nossos primos da América), está basicamente nas mãos daqueles que a trabalham dia a dia, desinteressadamente, sem desejos de medalhas ou subidas em carreiras, para o nosso movimento associativo, para o ensino da língua portuguesa numa escola das nossas associações ou no ensino integrado, num centro de estudos com os olhos postos na comunidade, num centro histórico, numa colectividade fraternal, numa irmandade, num centro social, numa associação recreativa, num grupo de folclore, numa filarmónica, num clube desportivo, e outros, assim como aqueles que o fazem por amor à camisola fazem comunidade num órgão da comunicação social.

E temos homens e mulheres que no seu mundo americano, desde o sector empresarial à política; do ensino à agricultura; dos serviços sociais aos sindicatos; da igreja aos tribunais; das artes à engenharia; das humanidades à tecnologia, contribuem, indirectamente para que Portugal e a Região Autónoma dos Açores, aqui carinhosamente conhecida como "as ilhas", sejam mais conhecidas pela população em geral. Os emigrantes e os seus descendentes são os melhores embaixadores da portugalidade e da açorianidade. Já outros o disseram, e é verdade.

O 45.º congresso da Fundação Luso-Americana para a Educação (LAEF) é um evento marcante nas nossas comunidades e ao longo da sua existência tem tido várias etapas. Começado como um evento para educadores ligados ao movimento do ensino bilingue, quando este fazia parte de muitos currículos escolares californianos, o congresso tem-se adaptado às mudanças na comunidade. Frequento-o desde 1985, quando estava na comunicação social de língua portuguesa e antes de entrar no ensino. Tenho acompanhado este congresso, particularmente nos últimos 35 anos, com muita atenção. Tenho escrito sobre o mesmo e tenho-o criticado, quando achava que era útil.

Tenho visto o congresso fechar-se dentro de uma redoma quasi-académica e tenho-o visto abrir-se à comunidade. Tenho testemunhado o trabalho de muitos homens e mulheres, professores e activistas comunitários, e durante muitos anos atestei a dedicação de um dos seus maiores impulsionadores, o incansável: Eduardo Eusébio.

Na última semana do corrente mês de Setembro, a nossa diáspora em terras californianas, perante um clima que a nível nacional dos Estados Unidos é explosivo e divisionário; numa Califórnia que ainda luta, quotidianamente, com a pandemia e os crentes na nossa comunidade, extremamente verbais nas redes sociais, para os quais este vírus é uma embustice (ecoando as palavras do inquilino da Casa Branca); no meio de vozes dentro da comunidade que exigem melhores serviços consulares (vozes, como a da PALCUS com queixas e soluções, que felizmente encontraram eco no governo dos Açores); num ambiente em que todas as festas e acontecimentos sociais, que marcam a comunidade, foram cancelados desde Abril de 2020 sem se saber se voltarão na Primavera de 2021; na incerteza que se vive em algumas organizações com um historial comunitário – com a duvida se poderão resistir; num ambiente em que o ensino da língua e cultura portuguesas, passa, temporariamente, para sistema virtual e incerto em algumas unidades privadas; numa nova realidade em que há instituições importantes do Terreiro do Paço a emitirem comunicados que se podem classificar de Fake News, porque faltou o "resto da história" e com alguns elementos da nossa pequena praça pública comunitária, infelizmente, mais interessados na saudadinha do passado, nas acusações sem soluções, na defesa dos seus egos, na manutenção dos seus pequenos tronos de barro, na bajulação dos poderes nacionais. Com estas veracidades, que são as nossas realidades, com este pano de fundo, que é o mundo onde vivemos, a comunidade da Califórnia, sem intromissões e rodeios, escuta-se e reflecte-se.

Desta reflexão, destes debates, que após o painel inaugural sobre a globalidade da língua portuguesa (para a qual a Califórnia também contribui), serão totalmente comunitários, a nossa diáspora californiana, forçada, em várias frentes, pelas forças da pandemia a um compasso de espera, estará a pensar-se e simultaneamente a construir o seu futuro. O futuro que lhe pertence e que está por aí a ser erguido nos mais variantes quadrantes. A comunidade vive uma época sem precedentes e a pandemia forçou-nos a uma nova realidade. E porque como disse o célebre Napoleão Bonaparte: "o tempo é o único bem totalmente irrecuperável. Recupera-se uma posição, um exército e até um país, mas o tempo perdido, jamais." Não percamos nem mais um minuto – para bem da nossa comunidade.


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