PENA & LÁPIS


Notas de Rodapé:

A Sobrinha do Trump

Por Nuno A. Vieira
Sol Português

O nome Trump, por várias razões, é sobejamente conhecido dentro e fora dos Estados Unidos. Aparece em sinais luminosos de casinos e hotéis. Ergue-se soberbamente na Trump Tower, em Nova Iorque. Identifica estradas, centros comerciais e campos de golfo. É um magnata de imobiliária. Há a Fundação Trump. A família tem avião pessoal - Trump Air Force One. Trump é ainda nome que aparece em literatura biográfica e política. Trump é o 45.º presidente dos Estados Unidos da América.

Mary Trump, a sobrinha do presidente, convidada para um jantar de família na Casa Branca, ao entrar na Union Station, em Washington DC., depara-se com um cavalete exibindo botões à venda: "Deport Trump", "Dump Trump", "Trump is a Witch". No seu quarto do hotel, vê o seu nome (que é o nome do tio) emplastrado em tudo, por todo o lado: "Trump shampoo, Trump cap, Trump conditioner, Trump slippers, Trump shower cap, Trump shoe polish, Trump sewing kit, Trump bathrobe e, ainda, no frigorífico, Trump white wine", (pg. 2 do seu livro).

Antes do jantar, Trump dá um tour da sua nova residência a toda a família. Tem palavras lisonjeiras para a Mary: eu pedi especificamente para que estivesses aqui. Ao entrar no quarto de cama de Lincoln, Trump comete uma gafe que, com cortesia, foi corrigida pelo guia. Disse o presidente: "Este quarto de cama nunca pareceu tão bem desde que George Washington o habitou". O guia: "A Casa Branca abriu anos depois da morte de Washington".

Será que tudo o que luz é ouro?

A sobrinha, Mary Trump, com doutoramento em Psicologia Clínica e com prática na administração e diagnóstico de testes psicológicos, na recente publicação do seu livro "Too Much Is Never Enough - How My Family Created The World Most Dangerous Man", explica que terá que se compreender que toda a família, mas de um modo muito especial Donald, foi afectada pelo comportamento sociopático do pai e pela doença da mãe.

Será mesmo um caso de: tal pai, tal filho, ou the apple doesn't fall far from the tree? Escute-se a sobrinha: "Mary, a mãe de Donald Trump, foi o tipo de mãe que usava os filhos para a confortarem, mas nunca tinha um mimo para dar a um filho. Para o marido, Fred Trump, o sucesso dos seus negócios estava acima de tudo. Me first!"

Mary, a sobrinha, avança com alguns dos sintomas de um sociopata: falta de empatia, facilidade em mentir, indiferença à verdade, comportamento abusivo e falta de interesse nos direitos dos outros.

Donald Trump é o produto de uma família dividida. (Um pormenor que escapou à Media foi o facto de durante a campanha eleitoral o candidato à presidência apenas ter recebido apoio da mulher, dos filhos e do genro).

A desumanização de pessoas era, frequentemente, tópico de conversa à mesa do pai. Falava-se de mulheres gordas, feias e estúpidas. Os homens caíam em duas categorias: os poderosos e bem-sucedidos, e os fracassados.

O jovem Donald Trump sofreu privações que o marcaram para uma vida inteira: o abandono da mãe, pelo menos, por um ano, e a falta de amor e apoio por parte do pai. Fred nunca brincou com um filho. A psicóloga clínica conclui que desse ambiente podem resultar traços de personalidade tais como narcisismo, bullying e sentimentos de grandiosidade. Na verdade, foi em face dessa situação que Donald começou a manifestar fortes e primitivos mecanismos de defesa: bullying, desrespeito, e agressividade.

Não obstante moderado na sua maneira de viver, Fred nunca foi modesto ou humilde. No princípio da sua carreira, para dar a ideia de ser precoce, mentia acerca da sua idade e tendia a ser teatral. Tudo era "great", "fantastic" e "perfect". Inundava a Media com comunicações enaltecendo a qualidade das suas propriedades.

Do pai, Donald herdou a arte de estabelecer relacionamentos com pessoas bem posicionadas na vida, quer política ou economicamente. Contudo, o filho ultrapassou o pai na arte de falar em frente de audiências.

The Power of Positive Thinking, um best seller, da autoria do controverso pastor Norman Vincent Peale, de Marbele Collegiate Church, em Manhatan, foi obra que influenciou Fred e o seu filho Donald. O livro, com uma mensagem de auto-suficiência, despertou o interesse do Fred que, já nos seus genes, era portador de uma atitude marcadamente positiva. Fred, que nunca se importou com a leitura, atirou-se a ler o livro. Aí, encontrou princípios do seu interesse: 1. A confiança pessoal está na base da prosperidade. 2. Não se podem permitir obstáculos, já que estes destroem a felicidade e o bem-estar do indivíduo. 3. Uma pessoa só é derrotada se se o deixar ser. 4. Um complexo de inferioridade apenas complica o progresso individual.

Esses princípios, estabelecidos pelo pastor, vêm ao encontro do pensar de Fred: 1. Confia em ti mesmo. 2. Acredita nos teus talentos. 3. Um complexo de inferioridade interfere com a realização dos desejos do indivíduo.

O evangelho do pastor, adoptado por Fred e passado ao filho Donald , não foi "the more you have, the more you give", mas sim "the more you have, the more you have". O dar aos outros seria uma diminuição do valor pessoal.

Donald Trump levou consigo, para a presidência, a pessoa que ele foi na sua vida particular: sempre teve quem tomasse conta das suas necessidades e nunca teve que fazer nada porque teve quem o fizesse por ele; por essas razões, sempre esteve protegido de falhas pessoais, o que o levou a acreditar no seu sucesso pessoal.

Mary, a sobrinha, escreveu: "Donald, hoje, não é muito diferente daquilo que foi aos três anos – incapaz de crescer, aprender, desenvolver-se, controlar as suas emoções, moderar as suas respostas, ou absorver e sintetizar informação", (pg. 197). A necessidade que Donald tem de afirmação pessoal é tão grande que não se apercebe de estar a ser apoiado pelo tipo de gente com quem ele não se associaria fora dos comícios. Nada o satisfaz. O seu frágil ego pessoal precisa de afirmação constante: Isn't this place great? O seu comportamento aberrante tem sido consistentemente normalizado por aqueles com quem trabalha. A sua verdadeira perícia consiste em elogiar-se, mentir e fazer truques com as mãos. Contratar imigrantes indocumentados e negar-se a pagar aos seus empregados estão na lista de tácticas de negócio consideradas legítimas e éticas por pai e filho.

Como presidente, na Casa Branca, a sua ocupação principal, além de ver televisão e enviar tweeets, tem sido desviar a atenção das pessoas do facto de não saber nada-de-nada acerca de política, direitos humanos ou de simples decência humana. A acumulação de problemas legais tem resultado em tarefa complicada devido à constante necessidade de encobrir as suas actividades ilegais.

Depois das eleições, Donald Trump tornou-se vulnerável à manipulação de líderes mais astutos e poderosos – Valdimir Putin, Kim Jong-Um e Mitch McConnell. Donald, em suma, é um produto das suas próprias afirmações: he's the smartest, the greatest, the best, (pg. 200).

Donald Trump nunca teve um plano para coisa alguma. "O governo do país, presentemente constituído pelo ramo executivo, metade do Congresso, e a maioria dos membros do Supremo Tribunal, está ao serviço da protecção de Donald", (pg. 201).

"A economia do país, a democracia e o sistema de saúde estão à beira do colapso. O meu tio-presidente sabe mentir, ser ordinário e semear a divisão. Na sua mente, as mentiras ganham a postura de verdade no momento que são proferidas. E, até este ponto, he gets away with everything".

Crueldade e humilhação dos outros foram parte do modus vivendi de Fred Trump e perpetuam-se no filho, o presidente dos Estados Unidos. "Enquanto milhares de americanos morrem sozinhos, vítimas da Covid-19, Donald fala nos lucros do stock market. Enquanto o meu pai dava o último suspiro no leito da morte, Donald foi ao cinema", (pg. 209).

Mary Trump, em citação de Vítor Hugo em Les Misérables, escreve em epígrafe no seu livro: "Se a alma for deixada na escuridão, pecados serão cometidos. O culpado não é aquele que comete o pecado, mas sim de quem produziu a escuridão."

O conteúdo deste artigo é basicamente um resumo do livro de Mary Trump. Algumas passagens, devidamente identificadas, foram apenas traduzidas.


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