PENA & LÁPIS


Parece andar tudo aluado

Por Inácio Natividade
Sol Português

Apesar do receio de contágio da Covid-19, no sábado passado eu mais a mulher decidimos actualizar o equipamento desportivo com uma ida à loja Adidas localizada entre a Yonge e Dundas. Ao sairmos do estabelecimento, assistimos ao que mais parecia uma produção de vídeo pornográfico de quinta categoria, por um amador drogado, postado nas redes sociais...

Já passava das 12h00 e uma mulher jovem, nua da cintura para baixo, andava a pedinchar dinheiro de mão estendida para comprar roupa. Nua mesmo... Não usava cuecas e andava com tudo à mostra.

Eu até aprecio o nu, mas em locais apropriados e não a miserabilista visão servida contra a vontade em plena rua de Toronto. Fiquei agoniado e de semblante carregado.

Não podíamos acreditar, mas ninguém parecia espantado. Em Toronto, ao cidadão comum nada mais espanta.

Era uma jovem ai de uns vinte e tal anos. O espectro de uma decadência humana precoce fluía-lhe dos poros da mendicância. Veio ao nosso encontro de mão estendida e com uma vozinha tremelicante: "I need money to buy clothes!" (Preciso de dinheiro para comprar roupa!)

A minha companheira olhou para mim e ainda fez o gesto de meter a mão na bolsa para tirar a carteira, mas num gesto de cabeça reprovei.

Continuámos a caminhada em direcção à Bay Street e o espectáculo seguinte foi ainda mais deprimente: uma mulher, na casa dos 30, estava a urinar de cócoras no meio da rua e, pelos gestos, usava a urina para lavar as partes íntimas.

Surrealista ou não, facto é que estas cenas aconteceram num espaço de cinco minutos uma da outra e no mesmo dia.

Pensei para comigo se seria mau presságio ou se o manicómio havia-se mudado lá para aqueles lados da cidade, mas o caso parece coincidir com o relato de alguns vizinhos que me afiançaram ter visto uma mulher semi-nua a lavar as partes intimas num repuxo do prédio da vizinhança.

Parece andar tudo aluado. Até o meu Melampo de estimação anda esquisito e deixou de ladrar…

A pobreza e a loucura podem ter várias leituras, que podem não ser reveladas de forma tão cruel e fatalista como as observadas ao vivo. Há coisas que não podem ser expostas em público, incluindo o sexo, e eu tenho vergonha na cara.

Se a Covid-19 fosse um espírito maligno e tivéssemos de andar todos nus durante 24 horas para o exorcizar, talvez não me importasse e entrasse na rifa. Só que a Covid-19 é uma infecção pulmonar respiratória aguda, contagiosa e que mata – e muito.

Será que a CAMH libertou duas ou mais pessoas cuja patologia de desatino desafia a moral pública, como o fizera com dois ou mais psicopatas algum tempo antes?

Parece andar tudo aluado.

O facto é que o número de problemas de saúde mental e de violência doméstica tem vindo a aumentar na cidade de Toronto, e um pouco por todo o lado, devido à pandemia provocada pelo vírus corona.

As causas podem estar relacionadas com algumas das seguintes preocupações e perturbações apontadas pelos peritos: medo de perder a fonte de renda por não poder trabalhar ou ser demitido; alterações do sono e da concentração nas tarefas diárias ou o aparecimento de pensamentos intrusivos; sentimentos de desespero, tédio, solidão e depressão devido ao isolamento; raiva, frustração ou irritabilidade pela perda de autonomia e da liberdade pessoal; medo de ser socialmente excluído ou estigmatizado por ter ficado doente; sentir-se impotente para proteger as pessoas próximas ou medo de ser separado de familiares por motivo de quarentena; isolamento; preocupação com a possibilidade do indivíduo ou de membros da família contraírem a Covid-19 ou transmitirem a doença a outros.


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