PENA & LÁPIS


Os Filhos – Capítulos II e III

Por Jorge Moreira Leonardo
Sol Português

Nesse mesmo ano lectivo – 1948/49 – ingressou também no Liceu um moço natural da Praia da Vitória, José Nunes Ávila, de seu nome, filho dum abastado comerciante daquela, ao tempo, Vila. As suas dificuldades de relacionamento não foram consequência do nome e, ainda menos, de indumentária, pois sua mãe, oriunda duma família da cidade, soubera apresentar o filho de maneira a que este não tivesse de recear confrontos. Pelo contrário, chegou sim a suscitar alguma inveja – involuntária, embora – face à excelência e variedade do vestuário que exibia. Ademais, as frequentes visitas que efectuava a seus avós maternos (onde, aliás, passava o período escolar, mas sem qualquer benefício em matéria de liberdade) pessoas de posses e de bom relacionamento no meio angrense, haviam-lhe transmitido os modos citadinos de menino bem. Os seus problemas eram de outra ordem. José era filho único. Sua mãe, senhora demasiado possessiva, criara-o agarrado às saias. Antes da idade escolar o Zézinho – diminutivo

utilizado pelos familiares – nunca saiu à rua sozinho. Uma vez por outra, e, caso o tempo permitisse, era-lhe concedida a liberdade de, debruçado numa meia-porta da loja de casa, observar os outros miúdos jogando o pião, o futebol, brincando aos toiros e demais traquinices próprias da idade, de que ele adoraria participar, mas que lhe eram severamente proibidas. A sua única rebelião contra a ditadura materna (o pai, demasiado ocupado com a sua actividade comercial, entregara à esposa o encargo de educar o filho) era ir ao quintal roubar groselha que oferecia às crianças da sua rua para que estas, sentadas no degrau de acesso à loja, conversassem um pouco com ele. Depois, ao ingressar na Escola Primária, a escassa centena de metros de casa, era sempre acompanhado pela mãe ou então por uma criada, quer nas idas, quer nas vindas e exageradamente agasalhado, não fosse apanhar alguma.

Já então no Liceu, recusava todos os convites para jogar ao futebol ou qualquer outra brincadeira, e, sempre que havia algum furo, que os colegas aproveitavam para ir passear, ele ficava no claustro estudando. Cedo, deixaram de o procurar, pois não estavam para perder tempo com aquele menino da mamã.

Foi esse isolamento comum, tendo embora causas diferentes, que propiciou a aproximação ao Francisco das Fontinhas e iniciar uma amizade que, com o decorrer do tempo, se foi consolidando e os tornou confidentes um do outro. Porém, enquanto o Francisco se foi libertando dos seus problemas e até granjeando o apreço e admiração dos colegas, mercê do seu extraordinário sucesso escolar, o José manteve sempre os seus e até passou a acobertar-se, de boa vontade, a um certo proteccionismo do colega. É que o José nunca foi um aluno brilhante e o seu razoável aproveitamento – que lhe permitiu passar ano após ano – deveu-se mais às longas horas agarrado aos livros do que à sua modesta inteligência.

III

Em pleno 5.º ano o Chico (diminutivo atribuído pelos colegas), que mantinha e até reforçara o estatuto de melhor aluno da turma – ganho, aliás, desde o primeiro ano – já não denotava quaisquer vestígios do moço do campo. Os colegas que outrora o haviam escarnecido e rejeitado já aceitavam, sem discussão, a sua supremacia, até porque, não raro, recorriam a ele para que lhes explicasse aquilo que não ficara bem entendido nas aulas. Dotado fisicamente de forma a aparentar mais idade, era temido pelos colegas que, um dia, assistiram boquiabertos a uma tareia que ele deu num aluno do 7.º ano por este, sem qualquer motivo, ter esbofeteado o seu protegido José. Bonitão e possuindo aquele ar sadio do moço do campo, era requestado por todas as colegas com a maioria das quais já tinha mantido namoros. Depressa aprendera os piropos que sabia serem do agrado delas. Possuidor de grande habilidade para o futebol, as suas actuações a avançado de centro foram sempre decisivas nas vitórias obtidas nos despiques com a equipe da Escola Técnica. Chegou a actuar nos juvenis do Lusitânia mas acabou por desistir, pois não queria nada que interferisse com o seu principal objectivo: concluir o Curso do Liceu. À madrinha, orgulhosa do sucesso do afilhado, de que se encarregava de divulgar pela freguesia, não lhe foi difícil fazer abrir os cordões à bolsa, o que lhe permitia vestir o que de mais moderno havia. Hospedado desde a sua entrada no Liceu numa casa nas redondezas – devido à falta de transportes na época – os fins-de-semana nas Fontinhas – religiosamente cumpridos e até desejados nos primeiros tempos – foram rareando para o que inventava toda a espécie de justificações. É que, por ironia, as suas dificuldades de relacionamento transferiram-se para os moços com quem brincara na infância e de quem fora condiscípulo na Escola Primária, que dificilmente reconheciam naquele rapaz cheio de maneiras e vestido à moda da cidade o antigo companheiro. Detestava acompanhar a madrinha à missa que o obrigava a confessar-se e comungar e, não satisfeita com isso, aproveitava a ocasião para o exibir no adro da Igreja e assim poder partilhar um pouco do seu sucesso, o que para ele constituía um verdadeiro pesadelo, embora reconhecendo a legitimidade da atitude, pois os estudos sem o contributo dela não teriam sido possíveis. Mas o que mais constrangimentos lhe causava era o relacionamento com o irmão. Vê-lo já de mãos calejadas, rude e inculto, sem esperança dum futuro que tampouco se aproximasse do seu, incutira-lhe um remorso, injustificado embora, mas de que não conseguia libertar-se. Além disso, era ficando na cidade que podia ir ao futebol com os amigos e aplaudir o seu Lusitânia de que, entretanto, se tornara adepto ferrenho. Ou então passear com as namoradas e, uma vez por outra, levá-las à matinée, onde, na penumbra das salas, trocavam os primeiros beijos.

Esta sua radical transformação não deixou de arrastar consigo algumas coisas menos boas ao seu carácter. Tornou-o um pouco frio e até calculista. Foi o seu amigo e protegido José quem primeiro o notou. A propósito da facilidade com que ele iniciava e interrompia os seus namoros, indiferente aos sentimentos das moças, não resistiu à tentação de lhe perguntar, um dia: – Mas gostas mesmo dessas moças todas que namoras? A que respondeu rindo e dando-lhe uma amigável palmada nas costas. – E é mesmo preciso? O José não retorquiu, mas a primeira sombra naquela amizade acabava de surgir. É que o José mantinha, ao contrário dele, quase intactos, os mesmos problemas de convívio, isto apesar das suas sacudidelas e esforços para o incentivar. Riu, ao recordar o embaraço do amigo quando o apresentou a uma moça. Não conseguiu balbuciar mais do que alguns monossílabos e ficou vermelho que nem um pimentão.

(Continua na próxima edição)


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