PENA & LÁPIS


Ensino da Língua Portuguesa e a Diáspora Açoriana nos EUA

As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem esquecidas noutras, morrem todos os dias na gaguez daqueles que as herdaram e são tão imortais que meia dúzia de anos as suprime da boca dissolvida ao peso de outra raça, outra cultura.

– Jorge Se Sena in Noções de Linguística

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Por Diniz Borges
Sol Português

Esta semana trazemos uma crónica em género de entrevista. Ou melhor: uma entrevista feita crónica. Na realidade, há umas semanas o jornalista Hélio Vieira, do jornal Diário Insular, matutino da cidade de Angra do Heroísmo, da minha terra natal, a ilha Terceira, solicitou-me uma breve entrevista sobre o ensino da língua portuguesa nos Estados Unidos.

Desde há três décadas que acompanho o ensino da língua e cultura portuguesas nos Estados Unidos, particularmente no estado da Califórnia, a minha casa desde os 10 anos de idade. Tenho acompanhado esta trajectória como membro da comunicação-social em língua portuguesa, como professor, como colaborador de Portugal, num protocolo único que existiu entre uma associação da nossa comunidade e o governo português, e durante quase uma década como membro e como director da antiga Associação de Professores de Português dos Estados Unidos e Canadá.

Mais, o meu acompanhamento, em questão do ensino da língua portuguesa, levou-me a criar muitas amizades e também alguns dissabores, particularmente com o terreiro do paço que continua a não englobar as especificidades de cada comunidade em cada estado norte-americano. Por o ensino da língua portuguesa, apesar dos atropelos que se leva nestas caminhadas, ainda ser uma paixão, e porque há verdades que precisam ser ditas, partilho esta entrevista que dei ao jornalista açoriano Hélio Vieira.

1 – Como educador tem acompanhado de perto a questão do ensino de português nos Estados Unidos, especialmente na Califórnia. Qual o ponto da situação em relação a essa matéria?

Prefiro cingir-me à Califórnia, que é a minha casa desde 1968, quando emigrei em criança, apesar de haver muitas semelhanças com outros estados da união americana. A situação é que há muito trabalho para se fazer.

Na Califórnia, existem 3162 escolas secundárias, todas com departamentos de línguas estrangeiras. A língua portuguesa é ensinada em apenas 11 escolas do ensino secundário americano. Existem outras 730 escolas secundárias privadas, uma boa percentagem ligada à igreja católica, algumas vivendo de donativos substanciais vindos da comunidade portuguesa, e nenhuma dessas escolas tem cursos de língua portuguesa.

No ensino primário existem mais de 500 programas de imersão (onde se ensinam as várias disciplinas em duas línguas) e apenas um em português. O estado da Califórnia tem por objectivo aumentar os programas de imersão para 1600 programas até 2030. Esta é uma oportunidade única para começar-se programas de português, particularmente em zonas onde temos alguma representatividade numérica, mas não existem esforços concretos e multifacetados, nesse sentido.

Penso que estamos, ainda mais uma vez, perdendo ensejos que não serão os mesmos daqui a meia dúzia de anos. Activistas comunitários ligados ao ensino criaram um plano estratégico para o ensino da língua portuguesa na Califórnia, mas infelizmente não tem havido interesse da parte de Portugal.

É um plano que exige muito trabalho de campo por todas as partes, mas é a única solução para se multiplicar as escolas que ensinam a língua portuguesa na Califórnia e deveria ser adaptado, com a especificidade de cada zona, em vários estados da união americana.

2 _ Portugal está a assumir as suas responsabilidades para que a "língua de Camões" possa continuar viva nos Estados Unidos?

Todos conhecemos o que está explicito na constituição sobre o ensino da língua portuguesa aos filhos dos emigrantes, mas daí à realidade é um longo caminho. O ensino da "língua de Camões" na Califórnia (e diria em todos o país), tem de se reinventar e temos de instituir novos paradigmas.

As actuais linhas que regem a política portuguesa para o ensino da língua portuguesa estão ultrapassadas. As novas comunidades estão totalmente integradas e não se pode olhar para o ensino da nossa língua com os mesmos olhos de há uma dúzia de anos. Existem no mundo académico americano, nos distritos escolares de vários estados, um número considerável de luso-americanos que podiam ser uma mais valia para se implementar medidas estratégicas robustas e coesas, em consonância com a realidade de cada estado, de cada zona. É a única forma de se levar a língua portuguesa aos patamares que ela merece e a comunidade precisa.

Enquanto Portugal não perceber a dinâmica das suas comunidades e que a liderança do ensino da língua portuguesa terá de vir das mesmas, continuaremos a tapar o sol com a peneira.

3 – As recentes gerações de lusodescendentes estão a afastar-se da língua portuguesa?

Não diria a afastarem-se, porque nunca estiveram ligadas à língua portuguesa. Quando se fala no tal milhão e meio de luso-americanos, devemos estar conscientes que estamos a falar maioritariamente em segundas, terceiras, quartas e sucessivas gerações, as quais nunca falaram português, ou tiveram uma passagem muito breve pela mesma, com frases feitas pelos avós ou bisavós. Há um renascimento que os leva a quererem aprender algum português, mas a vida acontece e a prioridade da aprendizagem desvanece.

Vejamos o exemplo da Califórnia. Segundo os dados oficiais, temos cerca de 350 mil luso-descendentes, diz-se que 90% são açor-descendentes. Desses 350 mil, apenas 33 mil afirma que ainda fala algum português. Houve um fenómeno na nossa diáspora: muitos emigrantes do fim do século XIX e princípios do século XX abdicaram da sua língua para se integrarem no mundo americano, que viveu um período nativista – actualmente ressurecto.

Com a geração pós-Capelinhos, e as denominadas "cartas de chamada" de 1960-70, houve uma percentagem de imigrantes que "usavam" o inglês que os filhos aprendiam nas escolas para eles próprios se exprimirem nessa língua e melhorarem as suas condições laborais – abdicando a comunicação diária em português com os seus rebentos. Daí que em pleno 2020, quatro décadas após o último êxodo emigratório dos Açores, não deve espantar ninguém que numa Califórnia com mais de 350 mil luso-americanos, praticamente 90% não fale português. E diria o mesmo a nível nacional.

O afastamento aconteceu pela necessidade da integração e é tempo que Portugal compreenda esse fenómeno. Aliás, se houvessem escolas primárias e secundárias com cursos de língua portuguesa onde esses luso-americanos vivem, tal como está delineado no plano estratégico comunitário para a Califórnia, acredito que matriculariam os seus filhos.

4 _ Quais são as estratégias que devem ser implementadas para cativar os luso-descendentes que não falam a língua materna dos seus pais ou avós pela cultura portuguesa em geral e em especial para a açoriana?

Tenho repetido ad nauseam: na Diáspora a falta de conhecimento da língua portuguesa não poder ser uma barreira aos conhecimentos da cultura portuguesa e especificamente da cultura açoriana.

Os Açores, felizmente, estão muito mais perto das suas comunidades do que o poder central. Há um maior achegamento. Nos Açores gosta-se dos primos da América.

É imperativo estarmos presentes no mundo dos açor-descendentes com a nossa música, a nossa literatura, as nossas artes plásticas, o nosso teatro, a nossa gastronomia. Há que criar mais espaços, em inglês, dedicados aos Açores. Já se têm dado alguns passos importantes e significativos nesse sentido, mas há ainda muito a fazer.

É essencial a tradução e distribuição de obras da literatura açoriana, há que criar-se uma rede de promoção artística açoriana no mundo americano e há que incentivar o nosso movimento associativo a sair do seu actual gueto e incutir-se na sociedade que o rodeia. Há que criar-se mais centros de estudo dedicados aos Açores nas universidades americanas, à semelhança do instituto criado em Fresno, na Califórnia, e inaugurado há quase dois anos por Vasco Cordeiro. Há que realizar mais intercâmbios, nas escolas, na universidade, no mundo artístico. Há que utilizar-se as novas tecnologias e plataformas comunicativas para se levar, na língua das novas gerações de açor-descendentes, a cultura açoriana, a qual não pode ficar reduzida à saudade e às imagens que os avós (com muito carinho, entenda-se) lhes transmitiram.

É imperativo que a cultura açoriana faça parte das vivências quotidianas das novas gerações.


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