PENA & LÁPIS


Os médicos de ontem e de hoje

Por Humberto Pinho da Silva
Sol Português

Quando nas derradeiras décadas do século passado escrevi num periódico portuense uma crónica sobre os médicos, comparei os actuais com os de outrora – do tempo da minha meninice.

Entre os vários pareceres que então recebi, um foi do Prof. Doutor José Ruiz Almeida Garrett (Médico), tecendo oportunas considerações, com as quais concordei quase na totalidade.

Asseverava então, nesse artigo, que o médico-sacerdote quase se perdeu na socialização da medicina.

Os médicos tornaram-se funcionários. Aquele a que chamamos "Médico da Família" não passa de técnico que atende, indiferente, milhares de doentes; doentes que o não escolheram, nem foram escolhidos.

Antigamente o médico não "dispensava" os doentes, como hoje muitos o fazem, para os hospitais, se podia realizar o tratamento no consultório ou em visita domiciliária.

Ainda conheci esses homens excepcionais, verdadeiros sacerdotes. Cuidavam do doente, da família e, quantas vezes, preocupavam-se ainda com os seus problemas financeiros, procurando obter-lhes emprego, se estavam desempregados.

Um desses era o velho Dr. Pedrosa (meu médico de criança) que morava em Gaia. Levantava-se, frequentemente, em plena noite, para acudir a doente gravemente enfermo que, aflito, o chamava pelo telefone.

Mas nem só o Dr. Pedrosa Júnior se preocupava com as dificuldades dos seus doentes. O mesmo fazia o pediatra Dr. Ferreira Leite. Extenuado por dia de
intenso e árduo trabalho, nunca recusava a sua presença na casa dos doentes, mesmo em plena noite, de madrugada.

E o bondoso Dr. Rocha Paris e, mais recentemente, o Dr. Salvador Ribeiro, ao realizarem visitas domiciliarias, muitas vezes deixavam debaixo da receita a quantia necessária para adquirirem os medicamentos prescritos.

Compreendo, como observou o Prof. Doutor José Garrett, que a medicina socializou-se; e ainda bem, como era desejo do Dr. Eugénio Fontes – personagem fictícia de: "Olhai os Lírios do Campo", do grande gaúcho Érico Veríssimo – homem bom e grande humanista.

Mas foi pena que esses antigos médicos, tão humanos, tenham desaparecido quase para sempre. Foi pena…

Não eram apenas médicos; eram amigos, companheiros presentes nas horas difíceis dos seus doentes, deixando sempre palavras tranquilas, animadoras e confortantes.

Verdadeiros e dedicados sacerdotes da medicina.


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