|
| ||||
|
| ||||
Correspondente do Brasil:Habemos Nigrus Papam Parte II Por Francisco G. Amorim Sol Português
Não sabe quanto tempo assim esteve. Quando voltou a abrir os olhos, tudo à sua volta era escuro. Respirou devagar e à medida que se ia habituando àquela penumbra percebeu que estava deitado numa esteira, dentro de uma cabana. Não tardou que alguém entrasse. Um rosto feminino aproximou-se e sorriu-lhe quando o viu de olhos abertos. Perguntou há quanto tempo ali estava. A moça sorriu. Não entendia a língua dele, o amárico. Fez-lhe a mesma pergunta em árabe e ela, continuando a sorrir, saiu e voltou um pouco depois com um homem vestido com uma túnica branca. Era o mualimo, o responsável pelo culto e orações dos muçulmanos, com quem se conseguiu entender. Tinha sido encontrado inconsciente na floresta e alguns homens o trouxeram. Explicou então quem era, de onde vinha, e quis saber onde estava. Entre os ajáuas, no norte de Moçambique! Nada tinha que temer. Era um hóspede que tinham muito gosto em receber. Aquela que o vira abrir os olhos, filha do Makata, o chefe do povo daquela área, continuou a servi-lo até que ele tivesse forças para se levantar. Cuidou dele durante todo o tempo em que esteve inconsciente, com carinho e a voz suave que o tinha trazido de volta à vida. Esse contacto aproximou-os de tal modo que acabou por acompanhá-los depois mais umas dezenas de anos, e deu-lhe os filhos que os iriam continuar. Isto com o consentimento do chefe Makata, que tardou em reconhecer naquele estrangeiro um homem culto, bom, e inteligente. Quando deste casal nasceu o primeiro filho, foi-lhe dado o nome de Cipinga, uma vez que assumira o nome do seu pai, Nansimu, e de seu avô, o cisango, como seria conhecido na sua terra, com a obrigação de, devagar, lhe ir transmitindo todo o conhecimento que trouxera da sua terra e ser um dia chamado a dirigir a cerimónia a clamar pelas chuvas tão necessárias. Nansimu partilhava também os seus conhecimentos com os feiticeiros ajáuas, a responsabilidade pelos grandes fenómenos do clã, as orações na modesta mesquita e na mal acabada igreja católica da missão, que muito se respeitavam entre si, enquanto, ao mesmo tempo, se esforçava para ir recebendo os conhecimentos do povo que o acolhera, suas culturas, religiões e filosofia. Chegou uma altura em que o chefe ajáua, já velho e doente, não conseguia trazer a chuva, o que estava a impedir que as sementeiras se fizessem, deixando antever um ano de fome. O sol, inclemente; no ar nem uma pequena nuvem; e o povo triste e apreensivo. Mesmo sabendo que talvez não o aceitassem Nansimu decidiu ir procurar o Makata e pedir a sua bênção para o substituir. Ao sair da cabana, abraçou o filho, menino de seis anos. "Vou chamar a chuva. Ajuda a reunir toda a gente." Tocaram-se os tambores, que ressoaram através dos vales, das matas e florestas, expandindo-se pelas savanas, e o povo que conhecia os toques preparou-se para ao amanhecer se dirigir para o local habitual. Ainda o dia não tinha rompido já Nansimu ali estava, sentado, pernas cruzadas, como que adormecido, em profunda meditação. A seu lado, dormindo tranquilo como um justo que era, o pequeno Cipinga. O clã reunido, Nansimu explicou o que todos sabiam já: a sua história e a de seus antepassados. O velho feiticeiro ajáua estava a agonizar e não podia mais requerer do Ntanga Lwembe, o Deus dos Céus e da Terra, que lhes mandasse a água que tanta falta fazia. Cabia-lhe a ele, de agora em diante, essa função e para se preparar estivera a noite toda a orar, meditar e a concentrar forças, pedindo ao espírito de seu pai a ajuda de que tanto necessitava. Em profundo silêncio a cerimónia começou. Alguns troncos secos para queimar, uns quantos molhos de folhas de diversas espécies rodeando esse fogo e outras tantas cabaças com sementes do que devia ser lançado à terra. À medida que o fogo vai ateando, Nansimu começa a movimentar-se, gesticula, sussurra para o alto e não pára nunca. A movimentação cresce, transforma-se em frenética dança, os braços e a cara sempre virados para cima, e cada vez mais alto a sua voz se faz ouvir em frases só a ele inteligíveis. De vez em quando deixa cair em cima das chamas algumas sementes e folhas, como a dizer a Deus que a comida estava a acabar, queimada pelo sol. A cena prolonga-se, parece eternizar-se e o céu não dá mostras de querer colaborar. Uma ou outra escassa e passageira nuvem não acredita no ritual do novo cisango. O astro rei há muito que passou pelo zénite, mas Nansimu não dá mostras de cansaço, apesar da violência do sol e do intenso calor que a fogueira ajuda a aumentar. O seu corpo está todo molhado de suor e o rosto transfigurado, mas sereno. O povo, em silêncio, continua a observar, querendo sempre acreditar que Ntanga Lwembe não os vai abandonar. De repente ouve-se um violento estrondo, inesperado, que ecoa entre os morros e logo por detrás da montanha coberta de floresta surge uma nuvem escura que corre com rapidez em direcção ao mago, que não dá mostras de se ter apercebido de coisa alguma. Os trovões repetem-se, secos, e o sol começa a encobrir-se. O povo olha para cima, mas não se atreve a sorrir com medo de afugentar o que ele tanto anseia. De súbito sentem na cara as primeiras gotas que lhes alteram o semblante e sem que tivessem tempo para começar a sorrir, a chuva cai, suave para não estragar os campos, mas segura e suficiente, e assim se demora durante algumas horas. O cisango não pára nem abranda. O povo canta e dança já também, alguns correm atrás de galinhas, outros embrenham-se pelo mato com seus arcos e espingardas à procura de alguma caça. Vai haver festa. Já noite, a chuva abranda e só então Nansimu se imobiliza. Esgotado. Senta-se sobre os calcanhares e ali fica outro longo tempo, não se percebe se a recuperar as energias despendidas se em agradecimento ao seu Ntanga Lwembe por ter atendido as preces de todos que ele representava. Cipinga correu a abraçar carinhosamente o pai que via ali imóvel, com respiração ofegante. Finalmente, Nansimu levantou-se, Cipinga ao colo, e dirigiu-se à cabana do velho ajáua. Ele sabia o que ia encontrar. Enquanto a chuva caía o velho e sábio mago, depois de ter percorrido na sua memória a história da sua vida, tinha-se ido encontrar no Além com os antepassados. Na sua cara não havia sinal de sofrimento, mas de paz. Nansimu ficou velando em silêncio o corpo do amigo, já sem vida. Durante o resto da noite os tambores não se calaram nem o povo parou de dançar. Era a chuva que saudavam e o encontro do bom homem que partira para o Além, a juntar-se com aqueles que sempre venerara. As fogueiras iluminavam o recinto e nelas preparava-se comida. Ao outro dia, enquanto as mulheres do velho mago preparavam o seu corpo para ser enterrado, Cipinga, em vez de se dedicar às brincadeiras próprias da sua idade, corre à missão a contar o sucedido ao padre José Maria: que o velho ajáua tinha adormecido muito quietinho, mas sobretudo que seu pai havia feito descer a chuva. Esperto, Cipinga, descreveu ao padre, com o colorido próprio da idade e a admiração de quem presenciara algo quase sobrenatural, tudo o que se passara, demonstrando uma profunda admiração pelo trabalho do pai. O padre e uma das irmãs acorreram à aldeia, unicamente para se certificarem de que nada podiam já fazer pela vida do simpático velho, respeitado e estimado em toda a região. Ambos de fronte caída, rezaram pela sua alma e o padre abençoou o que restava daquele que, afinal, teria sido uma espécie de colega gentílico. Do mesmo modo o mualimo, com quem o ancião nunca deixara esquecer os seus conhecimentos da língua árabe. Corridas as cerimónias do funeral, aparece o padre novamente para falar com Nansimu, pedir-lhe que deixasse o seu filho Cipinga frequentar a escola da missão. Foi Cipinga quem respondeu: "Padre, o meu pai sempre me disse que eu poderia escolher qualquer religião. Ele veio duma terra onde havia diferentes crenças, que sempre respeitou, mas nunca quis abandonar a que considerava a mais antiga de todas, que era a sua. Como sabe, ele tem por si muito respeito, bem como ao mualimo." "E nós também sempre o respeitámos muito. É um bom homem, com um profundo conhecimento da vida e muita seriedade." Nansimu disse então: "Se Cipinga for para a missão, a quem vou eu transmitir os ensinamentos que recebi do meu pai, e ele do dele, e daí para trás, sempre? Quem vai fazer chover, evitar as pragas, manter sempre vivo o culto e o respeito pelos nossos antepassados, as nossas tradições?" "Dejaz (o Nansimu), você é um homem inteligente e bom. O seu filho também. A vida evolui e ele tem o direito de aprender a ler e escrever e mais tudo o que ensinamos na escola. Não deixará de viver na casa de seu pai, que continuará a educá-lo e ensiná-lo segundo as vossas tradições. A escola vai até facilitar-lhe todo esse aprendizado." "Padre, eu tenho medo que ele um dia abandone o seu povo, que não seja capaz de manter as nossas tradições vivas, e com isso o que nos resta? Sermos absorvidos pelo colonizador?" "Muito pelo contrário. Com aquilo que ele aprender connosco vai poder mais facilmente saber distinguir o que é melhor para o povo. De ambos os lados há coisas boas, que devem ser aproveitadas, e Cipinga, vivo e inteligente como ele é, não irá, nunca, desiludir os seus. Além disso, o colonizador saberá respeitar os que têm conhecimentos e educação." "Eu sei que a missão tem sido muito boa para todos nós e estamos muito agradecidos. Mas com a maioria do povo islamizada ele acaba por ser afastado dos chefes e de todos os muçulmanos." "Isso não vai acontecer porque como você sabe, Nansimu, já estão a estudar lá na missão dois rapazes filhos de chefes muçulmanos. Eles só nos pediram para que não lhe ensinássemos a religião cristã. Mas estão na escola, que para todos os efeitos acaba sendo uma escola oficial. E como lhe digo, o seu filho depois das aulas virá todos os dias para casa, e você, melhor do que ninguém, é que lhe vai dar a educação. Nós procuramos dar conhecimentos que, como disse, o vão ajudar mais tarde a melhor compreender toda a vossa cultura." Nansimu cofiou os poucos pêlos que formavam no queixo uma rala barba e acenou a cabeça em sinal afirmativo: "Ele vai estudar, sim, padre. Eu sei que o senhor não o vai afastar de nós." "Muito pelo contrário. Creio até que ele vai compreendê-lo melhor." Poucos dias depois, ao nascer do dia, lá estava Cipinga à entrada da missão; admitido na classe única, com 12 rapazes e sete mocinhas, alguns começando com as primeiras letras, outros já a escrever e a fazer contas. As aulas eram ministradas por todos: padre, irmão e irmãs, separando-se as meninas quando se tratava de aulas específicas femininas. Nesse momento os garotos iam aprender a arte da carpintaria, de pedreiro e outros ofícios que mais tarde lhes poderiam vir a ser úteis. A partir do terceiro ano, Cipinga, que já lia e escrevia com toda a facilidade, começa a demorar-se mais tempo na missão. Quer acompanhar o padre na sua faina, quer humana quer religiosa. "Padre! A quem o senhor reza?" Padre José Maria, tranquilo mas seguro, de mansinho, ia ministrando os pontos básicos da sua religião e fé, explicando-lhe que, se ele estava ali, no coração de África, longe de tudo o que lhe tinha sido querido durante a sua juventude e do seu país, era porque queria mostrar como Deus amava a todos igualmente e queria que todos se amassem como irmãos. As orações eram sobretudo para pedir a Jesus, o Filho de Deus, que o ajudasse a levar em frente a Sua obra. "Mas o meu pai também faz orações e ofertas a Ntanga Lwembe, e o mualimo a Alá." "Fazem, e muito bem. Ntanga Lwembe e Alá são para todos os efeitos o mesmo Deus Único, conhecido por outros nomes. O Deus que criou tudo, o Céu e a Terra, os homens e animais e plantas." "Mas então qual é a diferença?" Padre José coçava a cabeça, olhava com ternura para Cipinga e tinha dificuldade em encontrar as palavras certas para explicar àquele jovem que a diferença só existe se não seguirmos os ensinamentos que o Filho nos trouxe: sejam como irmãos. De resto, é como cada povo falar uma língua própria, mas todas as línguas só servem para as pessoas se entenderem. "Quem ora sinceramente a Jesus, a Alá ou a Ntanga Lwembe, está a pedir Paz." Cipinga voltava para casa a pensar em tudo isto que estava longe de se tornar claro na sua mente ainda juvenil e, além de se abrir com seu pai e ouvi-lo com toda a atenção, decidiu que era tempo de conversar também com o mualimo e aprender um pouco mais de árabe, que ele se lembrava de ouvir o seu avô falar.
(continua na próxima edição) | ||||
|
| ||||