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Canadá/Covid-19: Hospitais declaram terceira vaga da pandemia no Ontário

Com o Canadá a registar na última semana um decréscimo no número de novas infecções enquanto que a nível internacional estas continuam a aumentar, a incidência de óbitos atingiu o nível mais baixo dos últimos cinco meses, tanto a nível nacional como na contabilização mundial.

Até ao início desta semana os casos de Covid-19 confirmados mundialmente atingiram 120,6 milhões com a adição de mais 2,9 milhões detectados nos sete dias anteriores.

Apesar disso, a taxa de recuperação registou um salto positivo de mais de um ponto percentual, para 80,6 por cento, sinal de que o rol dos que já superaram a doença (97,2 milhões) continua a melhorar, ao mesmo tempo que o número de mortes mantém uma tendência positiva ao descer para 57.900 numa semana, cifrando-se agora em 2,66 milhões.

No Canadá foram detectados cerca de 20.300 casos, menos 400 do que na semana transacta, o que elevou o total até à data para 909.100, mas a taxa de recuperação quase estagnou, registando um aumento de apenas um décimo de ponto percentual, para 94,05 por cento.

Enquanto isso, o número de óbitos (205) semanal caiu para os mesmos níveis que se registavam no final de Outubro, elevando o número de mortes atribuídas à Covid-19 desde o início da pandemia para 22.463.

A meio da última semana o Ontário assinalou o quinto dia consecutivo sem falecimentos por Covid-19 nos lares de idosos da província.

Entretanto, o Banco do Canadá anunciou que iria manter a sua taxa de juro base a 0,25 por cento, por considerar que a situação económica assim exige, embora a declarasse "melhor do que se esperava".

Por sua vez, o fiscal orçamentista do parlamento, Yves Giroux, indicou que a percentagem das despesas do governo federal dedicadas à Covid-19 está prevista diminuir cerca de 86 por cento no próximo ano fiscal, em comparação com o período 2020/21, à medida que o Canadá elimina as medidas de emergência decretadas em torno da pandemia.

No Parlamento, o ministro da segurança pública, Bill Blair, teve de responder a duras críticas acerca da segurança do programa federal de quarentena, após dois relatos de ataques sexuais.

Isto a par de queixas de extorsão e preços exorbitantes cobrados pelos hotéis escolhidos pelo governo para receber os viajantes, que são obrigados a ali aguardar os resultados dos seus testes de despistagem ao entrarem no país, mesmo que tragam consigo documentos comprovativos de testes recentes com resultados negativos.

No Ontário, o governo indicou que iria investir 255 milhões de dólares para ajudar os municípios e as comunidades indígenas a combaterem os surtos de Covid-19 em abrigos, 94,5 milhões dos quais se destinam a Toronto.

Segundo o ministro dos Assuntos Municipais, Steve Clark, esta verba tem a finalidade de ajudar os mais necessitados a obterem alojamento em hotéis e motéis, por forma a cumprirem com as regras de isolamento, assim como para a contratação de mais pessoal de apoio e a compra de equipamento de protecção, entre outras necessidades.

Foi ainda anunciado que das 194.500 vacinas da AstraZeneca destinadas ao Ontário, 29.500 serão administradas por médicos de clínica geral (também conhecidos por médicos de família) em Toronto, Hamilton, Guelph, Peterborough, Simcoe-Muskoka e Peel, sendo o balanço destinado a 327 farmácias nas regiões de Toronto, Kingston e Windsor.

Na capital do Ontário, a autarquia torontina anunciou que a partir da última sexta-feira (12) os residentes com mais de 80 anos iam poder começar a marcar as suas vacinas para o período de 17 de Março a 11 de Abril, num total de 133.000 que estão disponíveis e que serão administradas nos centros criados pela Câmara para esse efeito.

O município anunciou ainda que ia iniciar uma campanha de sensibilização, orçada em 5,5 milhões de dólares, para combater a relutância que algumas pessoas revelam ter em serem vacinadas contra a Covid-19.

A campanha envolve a contratação de figuras de relevo nos 140 distritos da cidade, que irão de porta em porta para incentivarem os residentes a receberem a inoculação ao mesmo tempo que prestam informações e procuram responder a eventuais perguntas.

Segundo as autoridades médicas, a chamada "imunidade de rebanho" – quando os níveis duma infecção caem vertiginosamente – ocorrem quando mais de 70 por cento duma população está imune a uma doença, sendo este o objectivo para a campanha de vacinação contra o coronavírus.

Por precaução, no exterior do pólo do hospital Sunnybrook, em Toronto, está actualmente a ser montado um hospital de campanha – que se espera esteja pronto em Abril – dado os especialistas recearem a chegada de uma terceira vaga da pandemia.

Para já acautelaram-se com 84 camas nestas instalações, mas poderão eventualmente instalar mais por forma a acomodar uma centena de pacientes.

Entretanto, na passada quinta-feira (11) o Canadá assinalou um ano desde a declaração da pandemia pela Organização Mundial de Saúde, com as bandeiras a meia-haste e múltiplas cerimónias por todo o país em memória dos mais de 22.000 canadianos cujas mortes são atribuídas à infecção.

No mesmo dia o Ontário ultrapassou um milhão de doses de vacina administradas, altura em que as autoridades canadianas indicaram que o país está a par da investigação europeia à vacina da Oxford-AstraZeneca – a terceira a ser aprovada para uso no país.

Vários países suspenderam a sua administração devido a relatos de coágulos sanguíneos em alguns pacientes após a inoculação, mas as autoridades canadianas consideram não haver provas de que estes incidentes tenham sido provocados pela vacina.

Com várias figuras públicas e de relevo a serem apanhadas recentemente a tentarem passar à frente do público em geral para serem vacinadas, o primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford, teve de retrair os comentários que fez a propósito do que inicialmente parecia ser mais um exemplo disso, quando um deputado do partido NDP, Sol Mamakwa, visitou uma comunidade indígena para ser inoculado.

O deputado, que é nativo, disse ter sido convidado pelos líderes comunitários de Kiiwetinoong, região que representa no Parlamento, para dar o exemplo aos residentes e ajudar a combater a relutância à vacinação.

No Parlamento, os três líderes da oposição exigiram a Doug Ford que fizesse um pedido de desculpa ao deputado, o que o primeiro-ministro fez, inicialmente em particular e repetido publicamente, dois dias depois, face à insistência dos seus adversários políticos.

Entretanto, e enquanto o governo anunciava que iria activar o "travão de emergência" e colocar Sudbury em fase cinza de confinamento – mais restritiva – devido ao crescimento no número de infecções naquela região da província e a "tendências preocupantes nos indicadores de saúde pública", os autarcas da região de Peel, sobretudo de Brampton e Mississauga, intercediam para que o governo provincial aliviasse o confinamento nestas jurisdições da fase cinza para vermelha.

Na recta final da semana, o departamento de Estatísticas do Canadá anunciou sexta-feira (12) que a economia tinha criado 259.000 novos postos de trabalho em Fevereiro, o que quase anulava as perdas que se registaram nos dois meses anteriores.

Face à escassez de vacinas, o Primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, fez questão de destacar que a farmacêutica Pfizer tinha garantido a entrega de pelo menos um milhão de doses por semana, entre 22 de Março e 10 de Maio, mais do que duplicando as 444.600 doses que eram esperadas para esta semana.

O chefe de estado pronunciou-se ainda acerca dos chamados "passaportes de vacina", ao sugerir que poderiam vir a ter um impacto injusto em algumas pessoas caso fossem usados para ir a concertos ou jantar nos restaurantes, mas admitiu que não deixam de ter cabimento no caso de viajantes internacionais, para os quais já existem requerimentos semelhantes em relação a outras vacinas.

Com os médicos de clínica geral a prepararem-se para começar a vacinar alguns dos seus pacientes durante o fim-de-semana, o presidente da Associação Médica do Ontário pedia paciência em nome dos seus associados, destacando que não valia a pena contactar os clínicos pois seriam eles a fazê-lo com os pacientes que se enquadram no critério de inoculação.

Entretanto o cardeal Thomas Collins, arcebispo de Toronto, elogiou o governo provincial por ter autorizado um pequeno aumento no número de pessoas que podem participar em casamentos, funerais e serviços religiosos.

Com início na segunda-feira (15), voltou a ser permitido às igrejas receberem paroquianos, até um máximo de 15 por cento da lotação do edifício, e 50 pessoas no exterior.

Em mais um surto de Covid-19 ligado a grande superfícies e armazéns, o Departamento de Saúde da Região de Peel mandou a empresa Amazon encerrar todos os turnos nas suas instalações em Brampton, com os 5.000 funcionários que ali trabalham a terem de permanecer de quarentena em casa.

Nas últimas semanas 240 funcionários acusaram resultado positivo nos testes de despistagem de Covid-19, tendo ali ocorrido 617 casos desde o início da pandemia.

No sábado (13) foi vacinada a pessoa mais idosa do país, Phyllis Ridgway, de 114 anos, residente em Toronto, altura em que a província do Ontário registou também, e pela primeira vez, mais de 50.000 inoculações diárias (53.586).

No início da semana, porém, novas revelações ensombravam um pouco as notícias positivas dos últimos dias.

Citando dados do Comité Consultivo de Covid-19, a Associação de Hospitais do Ontário emitiu o seu parecer de que a província tinha entrado na terceira vaga de infecções e o dr. Andrew Morris, especialista em doenças infecciosas no hospital Mount Sinai, corroborava a afirmação e alertava que nem mesmo o esforço de inoculação iria aliviar a situação se não forem tomadas medidas adicionais.

Na mesma altura, o primeiro-ministro do Ontário dava conta da decisão do general Rick Hillier, encarregado da logística e distribuição das vacinas contra à Covid-19 na província, de cessar funções quando terminar o seu contrato, a 31 de Março.

Apesar disso, na terça-feira (16) o governo federal anunciou que estavam a ser investidos milhões de dólares para estimular a capacidade de desenvolvimento de vacinas e medicamentos no país.

Segundo o ministro da Inovação, François-Philippe Champagne, o Canadá precisa de construir e expandir a sua capacidade de bio-fabricação e de equipamento para garantir a produção de mais vacinas e tratamentos contra a Covid-19.

Otava vai conceder 54,2 milhões de dólares aos Laboratórios KABS e 13,44 milhões à Immune Biosolutions para expandirem as suas operações no Quebeque, bem como 32,7 milhões à Novocol Pharmeceutical do Canadá para ampliar as unidades de bio-fabricação no Ontário, além de ter reservado 150 milhões para ajudar as empresas a avançarem com os estágios iniciais de pesquisa e desenvolvimento de várias vacinas-candidatas fabricadas no país.

Resultado de semelhantes esforços anteriores, uma vacina-candidata, de origem vegetal e a ser desenvolvida no Quebeque, vai entrar na última fase de ensaios clínicos em seres humanos, estando para isso a ser recrutados voluntários.

A Medicago anunciou ter recebido aprovação do Departamento de Saúde do Canadá para iniciar os ensaios de Fase 3, que é a última bateria de testes antes que as autoridades de saúde possam tomar uma decisão sobre a sua aprovação

Trata-se da única vacina desenvolvida no Canadá e que o governo federal se comprometeu a pré-adquirir quando, em Outubro, o Primeiro-ministro Justin Trudeau anunciou a concessão de 173 milhões de dólares à empresa fabricante para a ajudar a construir uma fábrica na cidade de Quebeque e garantir 76 milhões de doses do medicamento.

Enquanto isso, as autoridades federais estão empenhadas em tentar inspirar confiança na vacina da Oxford-AstraZeneca – que na Europa está a ser suspensa – mas vários observadores prevêem uma luta difícil.

Elementos do órgão encarregado de aconselhar o governo federal sobre as vacinas recorreram a uma conferência de imprensa – incomum para este organismo – para abordarem os receios do público.

Os participantes enfatizaram a segurança da vacina para as pessoas com mais de 65 anos, embora anteriormente esta houvesse sido indicada não ter sido testada neste escalão etário.

Entretanto, no Canadá e Estados Unidos foram inoculadas com a vacina da Moderna as primeiras crianças com menos de 12 anos, um estudo que pretende avaliar o seu efeito e eventualmente conseguir aprovação para uso no grupo etário mais jovem.

Por último, foi revelado que o governo federal levantou a obrigatoriedade de quarentena aos trabalhadores sazonais estrangeiros que entram no país, ficando isentos das estadias nos hotéis que são impostas a todos os outros viajantes designados "não essenciais".


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