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Em memória dos que morreram pela pátria

Núcleo de ex-combatentes portugueses recorda os que tombaram ao serviço de Portugal e do Canadá

Por João Vicente
Sol Português

Não fora uma pequena cerimónia anual organizada pelo núcleo de Toronto da Liga dos Combatentes portugueses e o Dia dos Ex-combatentes já se teria tornado numa efeméride que passava despercebida da maioria do público luso-canadiano.

Contudo, e desde que em 2012 foi inaugurado por este grupo de ex-militares um monumento aos ex-combatentes de Portugal e do Canadá no cemitério Glen Oaks, em Oakville, ali se têm reunido fielmente todos os anos com vista a homenagear não só aqueles que perderam a vida em combate, como todos os outros que, tal como eles, cumpriram serviço militar e se bateram pelos seus países em conflitos armados – fosse nas ex-colónias, nas grandes Guerras Mundiais ou, mais recentemente, na Bósnia, Afeganistão e outros.

Este ano a efeméride foi assinalada no passado domingo (14), frente ao Mausoléu da Última Ceia, no jardim de Nossa Senhora de Fátima, numa cerimónia que atraiu cerca de três dezenas de pessoas, entre ex-combatentes, familiares e amigos.

De forma resumida, o novo presidente do núcleo de Toronto da Liga dos Combatentes, Armando Branco, em funções há apenas duas semanas, cumprimentou o público e depois de agradecer a sua presença passou a palavra ao monsenhor Eduardo Resendes, que conduziu a cerimónia.

"Vós, por experiência, tivestes no Ultramar momentos muito difíceis, mas também muitos momentos alegres, de união entre vós", recordou o sacerdote, que foi capelão da Força Aérea portuguesa, destacando que "a amizade que se criou é uma grande força para a vida se tornar mais suave".

Ao relatar algumas das suas experiências, monsenhor Eduardo Resendes confessou recordar bastantes momentos alegres, "pois para o capelão não havia momentos de luta", como esclareceu, mas também de muita tristeza pois competia-lhe ir buscar os feridos e os mortos de helicóptero e "participar a mães, pais e esposas o falecimento dos seus entes queridos", uma missão que lhe era "difícil" pela sua natureza e que só se tornava suportável porque "a fé dá força".

Monsenhor Resendes destacou ainda a memória de um "grande amigo natural da Madeira", referindo-se ao radialista, produtor, poeta, autor e jornalista José Mário Coelho, também ele ex-combatente e figura notória na comunidade luso-canadiana, falecido em 2014, culminando a sua intervenção com o pedido de que "o Senhor lhe dê o eterno descanso a ele e a todas as famílias dos ex-combatentes".

Armando Branco voltaria a usar da palavra para descrever o significado e a importância deste dia, deixando um apelo para que se continue a observar e a comemorar.

Momentos depois, escutavam-se os hinos de Portugal e do Canadá enquanto se hasteavam as respectivas bandeiras, bem como a da Liga dos Combatentes, terminando a cerimónia com a colocação de duas coroas de flores junto ao monumento.

Entre os que assistiam a esta cerimónia, encontrámos um ex-militar que nos confessou ter-se ali deslocado depois de na véspera ter visto uma informação sobre o que se iria realizar e, como nos diz, "por algum motivo", após todos estes anos sentiu que deveria comparecer.

Para António Almeida, apesar de simples e resumida, a cerimónia emocionou-o de tal forma que lhe vieram as lágrimas aos olhos quando descrevia ao jornal Sol Português a forma como se tinha sentido durante o hastear da bandeira e as recordações de colegas que faleceram ou ficaram desmembrados em Moçambique – imagens que o atormentam até hoje.

"Emocionei-me muito agora com o içar da bandeira porque para mim continua a ser um orgulho daquilo que nós fizemos", disse António, que tinha 22 anos quando fez a sua campanha em Moçambique.

"Eu fui em rendição individual e estive na frente de combate sempre a render mortos lá no norte de Moçambique, em Mueda, Cabo Delgado, Niassa – sempre que havia qualquer coisa, mandavam-me – vi muitos colegas meus que podiam estar hoje aqui e não estão", explicou.

António Almeida confessa que ainda tem pesadelos e há sensivelmente um ano teve de procurar ajuda pois ao espernear durante o sono, acabou por magoar a esposa – sonhava que tinha ficado sem a arma e estava indefeso, no meio da guerra.

"Continuo com traumas mas tenho orgulho de defender a pátria", diz-nos, entre lágrimas e soluços.

A angústia que ainda hoje sente contrasta, de certa forma, com a sua experiência pessoal, onde os momentos de medo e as cenas de devastação, mortes e amputações de colegas por minas aconteceram lado-a-lado com momentos de alegria e elos de camaradagem forjados a ferro e fogo.

António diz nunca ter morto ninguém, mas nem por isso saiu da guerra incólume: aquilo por que passou e as cenas que testemunhou marcaram-no para sempre.

Para Armando Branco, a cerimónia que nesse dia se realizou naquele cemitério é algo que não pode deixar de ter continuidade e que deve envolver também as autoridades portuguesas, sobretudo face ao avançar da idade dos ex-combatentes.

"As embaixadas, nos vários países onde hajam comunidades portuguesas e monumentos deste género, vão ter que se envolver nestas actividades, porque isto faz parte integrante" do legado da pátria portuguesa, destacou o presidente do núcleo torontino da Liga dos Combatentes, que indicou ser um dos assuntos sobre os quais pretende falar com novo cônsul-geral em Toronto.

Dado o reduzido número de membros que compõem este núcleo – cerca de 150 elementos, embora se calcule que existam aproximadamente 2.000 ex-combatentes portugueses nesta zona do país – Armando Branco tenciona realizar um esforço pro-activo de pesquisa e aproximação de cada um deles, para os incentivar a juntarem-se à organização e participarem.

"Nos nossos tempos de militares a camaradagem era muito importante; era um por todos e todos por um, e é assim que nos queremos manter até partirmos", salientou, lembrando ainda a propósito do monumento junto ao qual se reuniram nesse dia que ele "é simbólico, mas para nós tem muito valor".

Após a cerimónia no cemitério, o público e participantes foram convidados a juntar-se à organização para um almoço convívio, que teve lugar na Casa do Alentejo de Toronto e onde se reforçou o espírito de camaradagem que continua a unir estes ex-militares.


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