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CCPM: Espectáculo musical marca regresso do clube à actividade

Por João Vicente

Sol Português

Dezoito meses após suspender as actividades devido à pandemia, o Centro Cultural Português de Mississauga (CCPM) voltou a acolher a comunidade no seu salão nobre onde no passado sábado (14) realizou uma noite musical com vários artistas locais embora ainda sem baile.

As regras que impedem o público de dançar restringiram também a sala a metade da sua capacidade, mas a energia que emanava do palco e o regozijo de quantos assistiram ao espectáculo fizeram com que o resultado dessa noite fosse muito além da soma das suas partes.

Apesar de todos os aspectos positivos, para o presidente da colectividade, Jorge Mouselo, assim como para muitos outros, esta foi uma noite agridoce pela falta não só do pretérito presidente, António "Tony" de Sousa, que faleceu há poucos meses, mas também do sócio Tibério Correia e do director José Medeiros, ambos igualmente falecidos desde que a casa teve de se render à inactividade em 2020.

Foi por isso com alguma comoção que Jorge Mouselo deu a conhecer o esforço desenvolvido pelo CCPM nos últimos 18 meses para procurar manter-se e voltar em forma à actividade.

Quando, terminado o jantar, acolheu formalmente os convivas e procedeu à apresentação dos artistas convidados para essa noite, referiu a grande honra que sentia em poderem voltar a abrir as portas para servir "sócios, amigos e família" e destacou especialmente o papel desempenhado pela Direcção.

O ex-vice presidente, que agora assume as rédeas do CCPM, acabou por enfatizar em tom resignado que continua a ser necessário usar máscara quando as pessoas se afastam das mesas, para irem ao bar ou à casa de banho, mas considerou as regras "pequenas inconveniências" que se têm de seguir "para o bem de todos" e que poderão eventualmente permitir um regresso mais rápido à normalidade.

Dito isto, chamou ao palco Hernâni Raposo e Valdemar Mejdoubi, músicos que, à guitarra portuguesa e viola, respectivamente, viriam a acompanhar os fadistas Manuel Silva, Clara Santos e Teresa Santos.

No caso de Teresa Santos, esta não foi a sua actuação inaugural depois do desconfinamento pois já há um mês tinha levado o fado até ao pátio de um restaurante.

No entanto, o ambiente da esplanada não terá sido o mais propício, por isso consolou-se com a plateia dessa noite, que considerou mais atenta e respeitadora, embora confessasse ter estado um pouco nervosa e emocionada.

"É uma grande emoção que isto tenha vindo a acontecer [e] devemos todos estar muito felizes por estarmos aqui, porque infelizmente muita gente não se pode gabar do mesmo", disse a fadista destacando que é "cuidadosa, mas não medrosa", por isso apreciadora das medidas postas em prática no CCPM para proteger todos quantos participaram e assistiram a este serão.

Caberia ao artista Henrik Cipriano apresentar a segunda ronda de cantores, desta feita um alinhamento que proporcionou música ligeira composta pelo próprio mestre de cerimónias, que foi também entremeando algumas anedotas pelo meio.

Escutaram-se Nelson "Nelz" Medeiros e sua banda, Carlos Janeiro, vocalista dos Sagres, e Carlos Borges e Nelson Câmara, que compõem o Duo Som Luso.

Para Nelz este foi mesmo o regresso à actividade em público, pois tem estado a preparar o seu próximo lançamento discográfico, por isso o espectáculo foi como algo de novo para ele e para a banda, confessando sentir-se um nadinha "ferrugento".

Por outro lado, o artista nota que actuar "sem o público não é o mesmo", por isso foi com alegria que voltou a pisar o palco, apesar de algum nervosismo e apreensão.

Aproveitou para apresentar dois novos temas, "I Want You" e "Feita para Mim", além de dedicar "Toca Guitarra do Meu País" à memória de Tony de Sousa e "Tu és Beautiful" a Luísa de Sousa, viúva do falecido presidente.

A noite veio a findar com todos os vocalistas e fadistas em palco para, em conjunto e acompanhados pela assistência, interpretaram o clássico popularizado por Amália, "Uma Casa Portuguesa", fechando com chave de ouro um evento que todos desejam seja o primeiro de muitos mais a voltarem-se a realizar no CCPM.

Misto de emoções

"É um sentimento muito esquisito", dizia Jorge Mouselo à nossa reportagem, procurando explicar o misto de alegria e tristeza que a reabertura do clube lhe suscitava sem a presença do antigo timoneiro.

"Não sei como vou continuar, mas tenho de arranjar maneira de continuar e de manter este barco", afirmou, dizendo-se contente não só pelas duas centenas de pessoas que mantêm laços com a casa e decidiram ali estar nessa noite, mas também pelas muitas outras que, por um motivo ou outro, não puderam comparecer mas tiveram a atenção de o comunicar ao clube.

"Só a questão de abrirmos as portas e servirmos outra vez a comunidade, acho que veio trazer muita alegria que nos faltava nos últimos 18 meses", afirmou.

Segundo o dirigente do clube, este era um espectáculo há muito idealizado mas que devido ao calendário muito preenchido do CCPM no período pré-pandemia ainda não tinha sido levado a cabo.

Proporcionou-se agora a oportunidade, depois de na reunião da Direcção, há dois meses, terem decidido que não valia a pena "dar o passo maior do que a perna" e que este género de evento encaixava perfeitamente nos planos face à actual realidade e restrições em curso.

Entretanto os preparativos, especialmente nas últimas semanas, mobilizaram os voluntários da casa que desde a lavagem e desinfecção das casas de banho, das carpetes e das cadeiras, até à louça e talheres, esmeraram-se, indo além até do que era exigido para que o evento corresse da melhor forma possível.

"Uma coisa posso garantir à comunidade", afirmou Jorge Mouselo, "nós seguros estamos [e a] fazer tudo como a lei manda; sim, às vezes até demais", dando como exemplo a interacção com o Departamento de Saúde da Região de Peel, cujo inspector chegou a comentar que não era preciso fazerem tanto.

Contudo, como explica, "o que faço em casa faço aqui e não é nesta casa que vamos `cut corners(*)', como se diz em inglês", por isso afiança que a comunidade pode estar à vontade e que no próximo evento, e todos os que se seguirem, vão continuar a manter o mesmo nível de cuidado e de atenção aos pormenores que protegem a saúde de todos.

Grata por isso decerto estava Madalena Sobrinho, uma das muitas pessoas que ali se deslocaram e que nos disse sentir-se "muito feliz pelo convívio" e por ver "esta casa abrir novamente", sobretudo por ser "um lugar que eu amo".

Para além da alegria que sentiu ao ver as portas abertas e a casa encher-se a pouco e pouco com as 200 pessoas que foi permitida acolher, após tanto tempo fechada, confessou-nos que a emoção foi ainda maior "por ver toda a gente com respeito a esta pandemia", ciente do que foi preciso passar para se chegar a este ponto e do que ainda falta.

Segundo Jorge Mouselo, a Direcção gostaria de reatar a actividade regular, talvez não semanalmente ainda, mas de duas em duas semanas e, se possível, eventualmente com menos restrições, que permitam ao público dançar.

Quanto à noite de fados que anualmente é dedicada a Amália e se costuma realizar em Outubro, o novo presidente do CCPM explica que ainda nada fizerem em termos de preparação, uma vez que tudo irá depender da progressão da pandemia e dos regulamentos em vigor na altura.

Por esse motivo pretendem aguardar mais algumas semanas antes de anunciarem o que quer que seja, embora, caso venha a realizar-se, será provavelmente um pouco diferente do habitual e contará apenas com a participação de artistas locais.

As restrições impostas para travar a pandemia provocaram um grande rombo nas finanças do CCPM, que estava preparado para realizar vários eventos quando teve de fechar as portas, perdendo por isso muito dinheiro que estava já investido em comida e outros artigos, refere Jorge Mouselo.

Por isso mesmo, considera que daqui para a frente os passos têm de ser mais cuidadosos e firmes, para não serem dados em falso.

Felizmente, destaca que as inscrições para o torneio anual de golfe – a realizar a 24 de Agosto (terça-feira) – e que este ano é dedicado à memória de Tony de Sousa, estão totalmente preenchidas, agradecendo o apoio "fantástico" da comunidade.

Há ainda a intenção de realizar uma homenagem especial ao falecido presidente – mas não este ano e não há ainda uma data fixa para o evento – além de pretenderem dedicar-lhe o mastro onde, durante as cerimónias do Dia de Portugal, é hasteada a bandeira portuguesa.

Com respeito à Escola de Português Fernando Pessoa, sedeada nesta colectividade, vai continuar a funcionar e a receber o apoio da Coordenação do Ensino de Português no Canadá.

Existem também planos para a criação de uma eventual parceria desta instituição de ensino com as Direcções Escolares de Peel e Peel-Dufferin, mas por enquanto não têm ainda nada de concreto a anunciar.

Nota (*) - "Cut corners": Expressão que significa fazer menos do que seria ideal ou necessário, poupar esforços ou economizar nos gastos necessários.


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