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Eleições a 20 de Setembro:

Deputada Julie Dzerowicz pretende continuar a representar distrito mais português do Canadá

Por João Vicente

Sol Português

Na manhã de domingo (15), a governadora-geral do Canadá, Mary Simon, aprovou o pedido do Primeiro-ministro Justin Trudeau para dissolver o Parlamento, resultando na emissão oficial do mandato para a realização da 44.ª eleição federal da história do Canadá.

A campanha vai durar 36 dias, o mínimo exigido por lei, e no dia 20 de Setembro os canadianos vão decidir com os seus votos quem irá constituir o novo governo para os próximos quatro anos.

A deputada Julie Dzerowicz, que desde 2015 representa em Otava o distrito de Davenport, a circunscrição eleitoral com maior densidade populacional de portugueses e luso-descendentes no país, inaugurou de imediato o seu escritório de campanha e anunciou a recandidatura no mesmo dia.

À deputada do partido Liberal juntaram-se vários apoiantes e voluntários para a inauguração, muitos dos quais tinham acabado de auscultar a opinião pública, de porta em porta, já em modo de campanha.

O primeiro a pronunciar-se foi o presidente da Associação Liberal Federal de Davenport, John Hudecki, que começou por dar as boas-vindas a todos e agradecer o contributo dos voluntários, incentivando-os a "calçarem os ténis" – uma alusão ao conselho dado pelo filho de Justin Trudeau ao ouvir que o pai ia concorrer e, neste caso, um apelo a entrarem em acção com entusiasmo durante a campanha.

Entre os apoiantes da deputada, Oscar Vigil, presidente do congresso hispano-canadiano, disse-se satisfeito por ter Julie Dzerowicz a representar este distrito no Parlamento pois na sua avaliação "ela parece estar em todo o lado e querer trabalhar com todos".

Para Livio Nichilo, activista e voluntário da comunidade italiana, não será a primeira vez que vai ajudar a candidata Liberal e confessa-se "muito impressionado com o seu trabalho afincado" que leva os apoiantes a "ficarem motivados e quererem [ajudar na campanha], dia após dia".

Por sua vez, o candidato do partido a nível provincial, Jerry Levitan, destaca que. em política, "umas vezes ganha-se, outras perde-se, mas o que torna [o processo] interessante é trabalhar com alguém inteligente, por quem temos respeito e em quem acreditamos", palavras que disse descreverem Julie Dzerowicz na perfeição.

Por fim, foi a vez da candidata se dirigir ao público começando por agradecer aos oradores que a precederam, incluindo um agradecimento especial a Oscar Vigil por trazer consigo o apoio da comunidade hispânica.

"Embora tenha muita honra em representar a maior comunidade portuguesa do país, sou meio mexicana e meio ucraniana, por isso orgulho-me das minhas raízes hispânicas", referiu.

Segundo a deputada, o facto destas eleições terem sido convocadas precisamente nesse dia foi algo inesperado, que necessitou a realização duma festa de lançamento preliminar, contando no entanto organizar em breve um evento de maior envergadura para marcar a abertura oficial da campanha.

A propósito das eleições, convocadas decorridos apenas dois dos quatro anos do actual mandato como governo de minoria, Julie Dzerowicz considerou que irão "dar aos canadianos a oportunidade de votarem no governo e no partido em que confiam para os guiar no período pós-pandemia" e "estabelecer o rumo a seguir no futuro" uma vez que "as decisões que vamos tomar vão ter um impacto não só na nossa vida mas também na dos nossos filhos e netos",

Na sua avaliação, o facto do Primeiro-ministro ter anunciado nessa manhã que o governo vai procurar trazer 20.000 refugiados afegãos para o Canadá e exigir a vacinação obrigatória de funcionários federais ou que trabalham em sectores regulamentados por Otava são bons sinais que indicam que Justin Trudeau "vai continuar a fazer o seu trabalho e a olhar pelos interesses dos canadianos, mesmo durante as eleições" – algo que considera importante sobretudo com a entrada do país na quarta vaga da pandemia de Covid-19.

Embora reconhecesse que, após auscultações porta a porta, muita gente se queixe de que o governo Liberal não lhes concedeu os apoios financeiros necessários, a deputada lembra que vivemos "num dos dois países no mundo que mais apoios de emergência concederam" e que "o governo teve a sorte de entrar na pandemia com as finanças em bom estado, por isso foi bastante generoso".

Com respeito à decisão de se recandidatar, a política afirma ter tido várias motivações, primeira entre as quais concluir o trabalho iniciado e preservar o investimento de 63.000 milhões de dólares em medidas relacionadas com as alterações climáticas, nomeadamente a redução de emissões de dióxido de carbono com vista a atingir o objectivo de "emissões zero" até 2050.

"Vemos os incêndios no Oeste do país e no Norte do Ontário, vemos o que se passa na Alemanha e no Japão, por isso vemos que temos de acelerar o passo", refere a candidata, que considera ser necessário fazer o mesmo com o processo de reconciliação com os povos indígenas.

"Após 200 anos de abusos infligidos aos povos indígenas temos de andar mais depressa e com um governo de maioria vamos poder fazer isso", referiu.

Outra prioridade citada foi o "programa nacional de educação infantil" que indicou precisarem concluir uma vez que, apesar de haver já acordos firmados entre o governo federal e oito províncias e territórios, urge fazê-lo também com o Ontário e as restantes províncias.

Os Liberais pretendem ainda concentrar-se em reduzir a taxa de desemprego, pois "como nação não podemos ser generosos em termos da assistência social, nem ter bons sistemas de saúde, se não formos uma nação próspera e os trabalhos e a economia vão ser fundamentais para o nosso progresso", salientou.

Por fim, destacou a promessa da criação de um Rendimento Básico Garantido (RBG), que propôs no Parlamento e que na sua avaliação vai "servir dois fins".

"Um é o de informar a população que o sistema de assistência social – criado nos anos '40 – já não serve os canadianos no século XXI", daí a necessidade de o modernizar e transformar.

O outro tem a ver com a necessidade de efectuar "mudanças sistemáticas" na economia, "por forma a direccioná-la mais para a sustentabilidade e menos para o consumismo", destacou.

Outras considerações

A nossa reportagem teve oportunidade de falar com a candidata no decorrer da inauguração da sua sede de campanha, altura em que colhemos alguns depoimentos a respeito de assuntos específicos, alguns dos quais afectam particularmente a comunidade lusa.

"Visto que não sou portuguesa, esforço-me ainda mais para garantir que a comunidade está bem representada e que estamos a corresponder às suas necessidades", disse a candidata, lembrando que uma das primeiras coisas que fez quando primeiro foi eleita "foi garantir que o mês da cultura portuguesa fosse reconhecido a nível federal".

Quanto ao que é preciso fazer de futuro, diz ser extremamente importante apoiar os idosos, uma vez que a população lusa deste distrito tende a ter uma idade mais avançada.

Em termos de apoios financeiros, destaca que quem tiver mais de 75 anos vai receber, a partir desta semana, um subsídio adicional de 500 dólares e que no próximo ano este aumenta para 766 dólares.

Por outro lado, considera que a comunidade precisa de mais organizações como a Terra Nova – edifício residencial para idosos – e considera que essa vai ser uma das suas "prioridades principais se for reeleita".

Por outro lado, considera o sistema nacional de educação infantil como algo que também pode vir a beneficiar os portugueses e destaca ainda a habitação como mais um assunto premente para os portugueses que se lhe têm queixado de que os seus descendentes não vão conseguir comprar casa face ao actual mercado imobiliário e os preços altíssimos.

Promete por isso "procurar que a nossa equipa Liberal estabeleça um plano nacional de acção" para criar habitação acessível no futuro.

Outras áreas sobre as quais se debruçou incluem temas como a proliferação de moedas digitais, inteligência artificial (IA) e questões ligadas ao direito dos cidadãos protegerem a sua privacidade numa sociedade cada vez mais informatizada.

Aproveitando especificamente esta última questão, a deputada lembrou que o actual governo propôs legislação para proteger a privacidade dos cidadãos, mas que esta acabou por não ser aprovada no Parlamento.

"É uma das razões porque queremos obter outro mandato", referiu, manifestando esperança de que desta feita seja "um mandato maioritário", porque com um governo de minoria tudo progride "a uma velocidade muitíssimo mais lenta".

A respeito do crescimento do uso de IA, Julie Dzerowicz sublinhou que no orçamento de estado deste ano já foi destacada a importância de estudar a forma de o usar para bem da população, no entanto nota que a automatização dos empregos que dai resultará irá eliminar também muitos postos de trabalho, motivo que a levou a apresentar a proposta de lei do RBG por considerar que o sistema de assistência social não contempla situações como as que se vivem na actualidade.

Na sua avaliação o RBG "tem de ser devidamente concebido" porque ao garantir a todos recursos suficientes para viverem e incentivar a população a trabalhar ou a procurar formação profissional em sectores com maior procura "reduz-se a fraude [no sistema de assistência social] e diminui-se o custo total do programa", que é, a seu ver, "outra forma de lidar com os efeitos negativos da Inteligência Artificial, tanto na força laboral como na economia".

Esta vai ser uma campanha eleitoral muito curta, num ambiente de pandemia, o que vai tornar a situação "difícil e desafiadora pela sua imprevisibilidade", diz a candidata, que confessa estar algo preocupada com o impacto da quarta vaga de Covid-19 que já está em crescimento.

"Como é que as pessoas vão votar; como é que vamos tornar as coisas seguras; onde é que podem votar?", questões para as quais considera essencial ter respostas e para as quais "o Departamento de Eleições do Canadá já aprendeu algumas lições com as eleições intercalares realizadas durante a pandemia nos distritos de York-Centro e Toronto-Centro", embora considere que a possibilidade de votar por via postal venha a ser uma opção viável para muitos.

Segundo a candidata, Davenport é considerada a zona de Toronto onde a luta eleitoral vai ser mais renhida, mas mostra-se confiante.

"Acho que toda a gente na comunidade portuguesa sabe que trabalho com afinco, não venho de família rica nem privilegiada por isso vou lutar como se estivesse em desvantagem e esta fosse a minha primeira eleição, e não considero nada como garantido".

Promete por isso "bater a todas as portas", para auscultar a opinião dos residentes.

"Acho que este distrito beneficiou de diversas formas por me ter como deputada e parece-me que há muito mais a fazer, portanto gostaria de ter a honra e o privilégio de poder voltar a prestar os meus serviços", concluiu.


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