1ª PÁGINA


Canadá/Covid-19: Em plena 4.ª vaga, Otava pretende implementar "passaportes de vacinação"

O Canadá está a braços com a quarta vaga da pandemia e o número de infecções continua a demonstrá-lo também no Ontário onde, depois de descer para cerca de duas centenas por dia, voltou a aumentar e na última semana esteve superior a meio milhar durante cinco dos sete dias – chegando num deles a rondar as seis centenas.

Enquanto que os 4,6 milhões de casos que na última semana se contabilizaram a nível mundial representam um aumento de 2,5 por cento em relação à semana anterior, no Canadá os 14.700 casos que foram detectados em igual período denotam um aumento de 78,3 por cento – cinco vezes mais infecções do que em igual período há apenas um mês.

Apesar disso, o aumento no número de infecções não se tem traduzido, até ao momento, num aumento no número de óbitos e o Canadá acabou mesmo por registar uma redução de 52 por cento nas mortes (33) em relação à semana anterior (70), enquanto que a nível mundial os mais de 68.400 óbitos registados no mesmo período representam um aumento de mortalidade de 1,1 por cento.

Enquanto isso, as taxas de recuperação têm vindo a diminuir sensivelmente, cifrando-se a mundial actualmente em 88,8 por cento e a canadiana em 96,9 por cento.

Na passada quarta-feira (11) o governo federal anunciou que até ao Outono o Canadá vai implementar um "passaporte de vacinação" que comprova a imunização dos seus portadores quando viajam fora do país.

Prevê-se que o documento, que será disponibilizado aos cidadãos e residentes permanentes e temporários, contenha o historial de vacinação do portador, incluindo o tipo de vacina administrada e quando e onde foram dadas as inoculações.

Entretanto, e apesar da crescente pressão por parte de vários sectores, entre eles representantes de algumas das principais autarquias do Ontário, o primeiro-ministro provincial, Doug Ford, continuou a digladiar-se pela preservação dos direitos dos cidadãos e pela sua liberdade de escolha a respeito da inoculação.

Rejeitou por isso o uso de passaportes de vacinação, assim como pedidos para se reunir com os partidos da oposição que os defendem, bem como a inoculação obrigatória dos funcionários que trabalham nos sectores da saúde e da educação.

Enquanto isso, vários empresários, receosos de novo confinamento geral, e especialistas dos serviços de saúde alertaram para a possibilidade de Toronto vir a confrontar-se com um dilema à medida em que a quarta vaga da pandemia se intensifica: fechar as portas a todos ou só a quem não estiver vacinado.

No meio deste cenário, o Canadá concluiu ter passado duma situação em que necessitava desesperadamente de todas e quaisquer doses de vacinas que conseguisse obter, para uma em que tem actualmente milhões de doses armazenadas em congeladores.

Segundo a ministra responsável pelas aquisições, Anita Anand, o número de doses que podem ser consideradas excedentes ou passíveis de ser doadas a outros países está ainda por determinar uma vez que está a ser debatida a eventual necessidade de administrar doses de reforço (terceiras doses), e a quantidade de imunizante necessário para inocular as crianças com menos de 12 anos quando tal for aprovado.

Dias depois, porém, a ministra anunciou que o Canadá tinha recebido imunizante suficiente – 66 milhões de doses – para vacinar todos os canadianos com mais de 12 anos, pelo que numa comunicação conjunta com a ministra do Desenvolvimento, Karina Gould, foi revelado que o Canadá irá doar 10 milhões de vacinas da Johnson & Johnson a países em vias de desenvolvimento.

Apesar disso, no sábado (14) o Primeiro-ministro Justin Trudeau anunciou que o país pretende adquirir mais 40 milhões de doses de imunizante da Moderna ao longo dos próximos dois anos, com a possibilidade desse número aumentar para 65 milhões caso seja considerado necessário, sobretudo se forem recomendadas doses de reforço.

Até à data quase 23,6 milhões de canadianos – 71,3 por cento da população com mais de 12 anos – já completou o processo de vacinação (duas doses).

Ainda assim, o director do quadro consultivo que aconselha o governo do Ontário acerca da pandemia, dr. Peter Juni, diz que após mais de três semanas com aumentos significativos no número de infecções diárias – especialmente entre as pessoas não vacinadas – a província está "inquestionavelmente" na quarta vaga da pandemia.

O clínico alertou ainda para o facto do número de casos estar a duplicar a cada 10 dias, apontando a possibilidade de em menos de um mês, quando os alunos regressarem às aulas, se estarem a registar 1.200 infecções diárias.

Para os que optam por continuar sem se vacinar, o dr. Juni emite um alerta: "se continuarmos no roteiro actual de reabertura, a probabilidade das pessoas não vacinadas em todas as faixas etárias virem a ficar infectadas nos próximos seis a 12 meses é de 80 a 90 por cento e o risco de complicações da variante Delta neste grupo não vacinado é duas a três vezes maior do que com as variantes anteriores".

Na quinta-feira (12) a dra. Theresa Tam, directora dos serviços de saúde do Canadá, viria alertar também para o surgimento da quarta vaga da pandemia, impelida pela variante Delta.

Aconselhou por isso todos os que irão participar no processo eleitoral – que embora na altura ainda não tivesse sido confirmado já se antevia – a seguirem as medidas delineadas pelas autoridades de saúde pública, nomeadamente a vacinarem-se, usarem máscara, lavarem as mãos frequentemente e reunirem-se, de preferência, ao ar livre.

Entretanto o governo do Ontário emitiu novas directivas em relação à obrigatoriedade de isolamento, para especificar que os indivíduos totalmente imunizados que tenham estado em contacto com casos positivos deixam de ter de se isolar, a menos que apresentem sintomas da doença ou assim lhes seja indicado pelas autoridades de saúde pública, o mesmo se aplicando a quem tiver tido um resultado positivo nos últimos 90 dias.

Nas guias de orientação dirigidas especificamente às escolas, o governo esclarece que funcionários ou alunos imunizados que tenham tido contacto próximo com casos prováveis ou mesmo positivos não precisam de ser dispensados das aulas, a menos que apresentem sintomas.

Caso tenham sintomas de Covid-19, serão orientados a isolar-se e a fazer o teste de despistagem, mas a data de regresso às aulas dependerá do seu estado de vacinação.

A nível autárquico, o rápido alastramento das infecções levou a Câmara Municipal de Toronto a reconsiderar os seus planos para encerrar a clínica de vacinação do Centro Comunitário Mitchell Field, em North York, optando em vez disso por reduzir a sua envergadura.

Enquanto o debate em torno da obrigatoriedade da vacina continuava aceso, a Ordem dos Médicos do Ontário anunciou ter pedido que esta seja exigida a professores e demais funcionários escolares, notando o seu presidente, dr. Adam Kassam, que "as crianças actualmente não se qualificam para receber as vacinas da Covid-19 e, portanto, a sua segurança depende doutras pessoas".

Ao mesmo tempo, dois delegados da Direcção Escolar de Toronto apresentaram uma moção urgente a exigir a inoculação ou a administração de testes a todos os funcionários daquele organismo, citando também eles a necessidade de proteger as crianças mais novas, que ainda não podem ser vacinadas.

Na mesma veia, várias instituições de ensino superior indicaram que irão exigir um comprovativo de imunização aos alunos, funcionários e professores que optarem pelo ensino presencial no novo ano lectivo, enquanto outras indicaram que irão confiar na honestidade dos alunos quando questionados sobre o seu estado de imunização.

Dados relativos à matriculação dos alunos da Direcção Escolar de Toronto (ensino primário e secundário), cujo prazo limite terminou a 12 de Agosto, revelam que 86 por cento optaram por voltar ao ensino presencial.

Na sexta-feira (13) o ministro dos Assuntos Intergovernamentais, Dominic LeBlanc, viria a confirmar que o governo federal iria em breve a exigir a vacinação dos funcionários que trabalham em sectores sob jurisdição nacional, e o ministro dos Transportes, Omar Alghabra, anunciou que os passageiros que viajarem em aviões comerciais, comboios e embarcações inter-provinciais a partir do Outono vão ter de estar vacinados.

Embora Doug Ford continuasse a resistir ter de obrigar fosse quem fosse a vacinar-se ou a emitir "passaportes de vacinação", o edil de Toronto, John Tory, aplaudiu a iniciativa do governo federal em criar este tipo de documento para as viagens internacionais e instou o primeiro-ministro provincial a implementar também um sistema de certificação de imunização a nível do Ontário.

O governo viria a ceder parcialmente na terça-feira (17), altura em que o director dos serviços de saúde do Ontário, dr. Kieran Moore, anunciou que a vacina vai passar a ser obrigatória para os professores, médicos, enfermeiros e outros funcionários públicos face à propagação da variante Delta do coronavírus e ao surgimento da quarta vaga da pandemia.

Na véspera de anunciar a obrigatoriedade da vacinação dos funcionários dos hospitais, Doug Ford alertou durante a conferência anual da Associação dos Municípios do Ontário que "a Covid ainda não acabou", implorando a todos para que se façam vacinar.

A província mandatou as unidades regionais de saúde pública e as direcções escolares a organizarem clínicas de vacinação em, ou perto das, escolas, com vista a facultar a inoculação de alunos, professores e funcionários, mas também dos familiares – uma tentativa de combater o alastramento da variante Delta.

A taxa de hospitalização por Covid-19 no Ontário entre a população não vacinada é 20 vezes superior à que se regista entre os que estão vacinados e têm uma probabilidade 70 por cento maior de acabar nos cuidados intensivos, o que para os peritos comprova a eficácia das vacinas.

Na terça-feira (17) a empresa Maple Leaf Sports & Entertainment, proprietária de várias equipas desportivas, incluindo os Maple Leafs, Raptors e Toronto FC, equipas de hóquei, basquetebol e futebol, respectivamente, assim como do estádio Scotiabank e gestora doutras propriedades, anunciou que a partir de meados de Setembro tanto os funcionários da organização como os utentes das suas propriedades vão ter de apresentar comprovativo de imunização.


Voltar a Sol Português