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Direcção Escolar Católica de Toronto promete manter programa de Línguas Internacionais por mais um ano

Por João Vicente
Sol Português

Na sequência de uma reunião especial da Direcção Escolar Católica de Toronto (TCDSB, na sigla em inglês) convocada para a noite da pretérita quinta-feira (12) e que teve por objectivo debater o futuro do programa de Ensino de Línguas Internacionais, ficou determinado que este irá continuar durante pelo menos mais um ano, ainda que com redução de um dia por semana.

Ao longo de três horas, mais de 20 oradores apresentaram os seus argumentos a favor da preservação do programa, em depoimentos de três minutos cada, a par das intervenções dos delegados escolares da TCDSB e das expressões de apoio de pais, alunos, ex-alunos, professores no activo e reformados, directores de escolas e membros da comunidade – todos a pedirem encarecidamente para que que se faça o que for necessário para preservar o Programa de Línguas Internacionais (PLI).

O público – composto por cerca de duas centenas de pessoas espalhadas pelo primeiro piso e pelo balcão do recinto – assistiu aos procedimentos em silêncio e com atenção normalmente reservados para o fado, pelo menos até à conclusão de cada depoimento, até que por fim a directora da reunião, a delegada escolar Maria Rizzo, pronunciou a decisão final: "vamos dar continuidade ao programa de línguas internacionais, quatro dias por semana, durante 30 minutos", altura em que a multidão irrompeu numa estrondosa ovação.

Foram três horas de muito nervosismo e emoção, com os oradores – incluindo várias vozes portuguesas – a falarem de alma e coração sobre um assunto que, além de importante, lhes é obviamente muito querido.

Uma das intervenientes foi a professora Luciana Graça, que deu a conhecer o parecer da Associação de Professores de Português do Canadá e da Coordenação do Ensino Português no Canadá, mas o primeiro orador foi o cônsul da Itália, Giuseppe Pastorelli, que se manifestou "preocupado e perturbado" com este debate sobre a extinção do PLI.

O diplomata ressalvou especialmente a falta de consulta e de diálogo com as partes interessadas, bem como o facto deste processo estar a decorrer "nesta altura", quando muita gente se ausenta de férias.

"O apoio da Itália [ao PLI] tem estado, está e estará sempre presente", afirmou o cônsul italiano, que falou não só na sua condição oficial mas também como pai de um jovem que frequenta o programa, reforçando que o seu país tem apoiado financeiramente o PLI da TCDSB, tal como Portugal.

Uma das alunas que falou a propósito do ensino de línguas como o português, o italiano e outras nas escolas da Direcção Escolar Católica foi a jovem Alyssa Scocco, de 14 anos, que afirmou que, embora não seja perfeitamente fluente, as lições que recebeu até ao quinto ano de escolaridade lhe permitiram comunicar-se melhor tanto com os avós italianos como portugueses, concluindo que "aprender uma língua dá-nos mais uma janela de onde podemos olhar o mundo" por outra perspectiva, e pedindo por isso aos responsáveis para que deixem os alunos "encarar o mundo a partir de uma janela de compaixão, diversidade e apreço por todas as culturas".

Por seu turno, a professora Luciana Graça salientou, entre outros aspectos, os benefícios cognitivos da aprendizagem de outras línguas, podendo até o conhecimento de três ou mais idiomas prevenir ou atrasar o declínio mental causado pelo envelhecimento ou doenças degenerativas.

Presente esteve também a ex-deputada provincial Cristina Martins, mãe de dois jovens que frequentam o PLI – tal como ela própria, nos anos '70 – e que afirmou estar ali não só em seu nome, mas de todos os pais de Davenport que aprenderam outra língua através deste programa e que não puderam estar nessa noite na sede da Direcção Escolar para expressarem as suas ideias e preocupações.

A luso-canadiana aludiu ao trabalho que desenvolveu internacionalmente, incluindo em Portugal, graças à fluência que lhe foi proporcionada pelo PLI, e viria ainda a ressalvar que uma das queixas que escutou com mais frequência durante o seu mandato como deputada teve a ver, não com o novo currículo de educação sexual, que foi sobejamente polémico, mas com a necessidade de preservar o ensino de Línguas Internacionais através deste programa, que está há anos sobe ameaça constante.

Muitas das questões debatidas ao longo desta reunião pública foram levadas por elementos das comunidades ucraniana, italiana e portuguesa, entre outras, não só a título pessoal mas também em nome de organizações e associações comunitárias.

"Mais do que o resultado, foi muito emocionante ver todo o processo", afirmou Luciana Graça em declarações ao jornal Sol Português, salientando que "as intervenções foram de facto excelentes".

Na recta final da reunião, o delegado escolar Michael Del Grande revelou que o novo primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford, que cerca de duas semanas antes assumiu funções, lhe tinha enviado uma mensagem asseguradora: "Não se preocupem, vamos tentar ajudar-vos", ao que a assistência respondeu com fortes aplausos.

Ainda que os próprios delegados escolares revelassem não estar bem informados dos trâmites burocráticos por trás da mais recente ameaça ao PLI – dado envolverem negociações entre o Executivo da direcção escolar e o sindicato dos professores, das quais não participam – segundo apurámos, tudo partiu de uma queixa feita através da organização que representa os professores do ensino elementar (TECT, na sigla inglesa).

Tecnicamente, os alunos devem ter 300 minutos diários leccionados por professores, regra que a inserção de 30 minutos diários de ensino de línguas internacionais, leccionadas por instrutores, contravem.

A questão foi levada a arbitragem, dado o impasse nas negociações, e a entidade arbitral concordou com o sindicato, ainda que em 1986, numa situação semelhante, a decisão tivesse sido a oposta.

Para tentar manter o programa como ele está, integrado nos dias e horários normais de escola – evitando assim o estigma e a inconveniência que adviriam de uma mudança para os sábados ou para um horário depois da escola – a solução foi delineada numa moção do delegado escolar por North York, Sal Piccininni, que propôs a criação de um projecto piloto de ensino de línguas internacionais durante 30 minutos por dia, quatro vezes por semana, enquanto se exploram alternativas e uma solução permanente.

Faz ainda parte desta moção uma cláusula no sentido de que "o director de Educação seja instruído a sondar os pais e as comunidades escolares para confirmar se desejam que as línguas internacionais sejam ensinadas [nestes moldes] ou num modelo alternativo de PLI".

Os funcionários da Direcção Escolar têm de comunicar os resultados desta sondagem até à reunião de Outubro da TCDSB e a cláusula instrue ainda o director de educação a "trabalhar com os parceiros sindicais e outras partes interessadas para identificar as opções disponíveis para manter o PLI nos anos vindouros em todas as escolas onde já existe ou quaisquer outras comunidades escolares interessadas".

Esta é uma situação que directamente iria afectar 44 escolas e quase 20 mil alunos, mas indirectamente poderia deixar a Direcção Escolar Católica em má situação pois muitos pais escolhem estas escolas com base na disponibilidade do ensino de línguas.

Esta situação foi exemplificada por uma mãe que referiu ter comprado casa com base no acesso a este programa, enquanto outra explicava o sacrifício que representa ter a filha a deslocar-se de autocarro para estudar numa escola com o PLI, quando tem uma escola pública quase ao lado e onde mais facilmente a poderia ter a estudar.

Tal como indicou o delegado Michael Del Grande, se o PLI deixasse de existir e uma quantidade significativa de alunos passassem para o sistema escolar público, isso poderia afectar a Direcção Escolar Católica que teria de reduzir o número de escolas, de professores e de funcionários, uma situação "claramente indesejável para todas as partes", incluindo os sindicatos.

Michael Del Grande indicou que a moção agora proposta é apenas "um primeiro passo", solicitando que se continuem a enviar mensagens de apoio ao PLI endereçadas à ministra da Educação, Lisa Thompson (e-mail information.met@ontario.ca), que terá agora de a aprovar, e à qual foi decidido enviar a gravação da reunião com todos os depoimentos, bem como ao primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford.


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