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Uma tradição todas as sextas-feiras, dia 13:

Concentração de motards levou cerca de 200.000 pessoas a Port Dover

Por João Vicente
Sol Português

Sempre que o dia 13 calhar a uma sexta-feira, os adeptos das motorizadas dirigem-se em peso até Port Dover, uma pitoresca vila a norte de Toronto onde em véspera do fim-de-semana uma congregação de motards atraiu cerca de 200.000 pessoas, a maior dos últimos anos, segundo dados da Polícia Provincial do Ontário (OPP, na sigla em inglês).

Trata-se de uma tradição com quase quatro décadas, cuja origem remonta a 13 de Novembro de 1981, quando o mecânico de motorizadas Chris Simons reuniu pela primeira vez cerca de duas dezenas de amigos motociclistas.

Tão bem correu a celebração que decidiram reunir-se de novo a cada sexta-feira, dia 13, num convívio que tem atraído crescentes multidões e que – sobretudo quando ocorrem nos mais apetecíveis períodos de Verão – chegaram a ultrapassar os 100.000 visitantes.

O facto de em anos mais recentes estas datas terem incidido em meses mais frios e sujeitos a intempéries só serviu para abrir o apetite aos motards e aos milhares de entusiastas das motas e mirones que sexta-feira se deslocaram até Port Dover, num número recorde de pessoas que finalmente conseguiram "tirar a barriga da miséria", por assim dizer.

Para Isaura Santos, que apesar de morar em Tillsonburg, a escassos 50 quilómetros de Port Dover, se contava entre os novatos que decidiram ir espreitar esta concentração de motards pela primeira vez, a atracção foram as motorizadas.

"Sempre gostei [de motas], mas tenho medo de andar nelas", explica, justificando a viagem de cerca de uma hora para visitar este evento.

Quanto ao marido, nem hesita: "ele vem ver as mulheres", responde com um sorriso, acrescentando que "é uma cultura [...] sempre quis fazer isto e finalmente estávamos aqui na altura certa".

Vedado que estava o trânsito a automóveis, ao descer do autocarro escolar que servia de expresso entre os parques de estacionamento na periferia desta pequena vila de 6.000 habitantes e a zona central, era impossível não se ficar impressionado ao ver as ruas principais apinhadas com milhares de motas de um lado e doutro – a maioria da icónica marca americana Harley Davidson, mas também muitas de marcas japonesas e outras mais exóticas.

Tony Sousa deslocou-se de Cambridge até Port Dover com a esposa e as filhas e garantiu que todos estavam a adorar a experiência, acrescentando que até já estava a pensar em comprar uma moto.

"Gostamos da atmosfera e da multidão, há muito para ver e é um dia bem divertido", afirmou, acrescentando que tinham acabado de travar amizade com uma moradora da vila duas horas antes e estavam a caminho de casa dela com a família.

Embora as artérias principais fossem o ponto de concentração dos motards e dos muitos miro-nes pois eram também palco para os divertimentos, os quiosques e lojas que vendiam mercadoria relacionada, assim como os concertos de rua com música ao vivo, havia motas por todo o lado, inclusivamente nas ruas secundárias e até em cima dos relvados nos quintais fronteiriços das casas.

Mauro Batista, que ali se deslocou de Milton, ainda começou por nos responder que foi até Port Dover por causa das motas, porque é um apaixonado, mas a esposa logo interpôs que "ele fez um triciclo muito bonito" convidando-nos a "conferir".

Cerca de meia hora depois e quase a um quilómetro de distância, lá o fomos encontrar prestes a sair na sua motorizada de três rodas com a filha, para ir dar um giro pois era a forma mais fácil de poderem apreciar tudo o que havia para ver, especialmente num dia quente como foi esta sexta-feira 13.

E o "triciclo" realmente fazia uma bela vista.

Segundo nos contou, foi a sua terceira visita a Port Dover, mas esta edição do encontro de motards nesta, normalmente pacata, vila foi especial devido às excelentes condições climatéricas.

Pelo meio dos muitos pais e mães de família que por ali circulavam, havia também muita gente que mais pareciam personagens saídas de um filme americano, com tatuagens exóticas e vestes de couro, a falarem alto e a transmitirem um ar de irreverência anti-social que o trato cara-a-cara depois vinha a contradizer.

Mas havia também, no meio de tantos milhares de pessoas, membros de clubes por vezes considerados fora da lei, incluindo os Outlaws, Hell's Angels e o seu sub-grupo de raízes canadianas, os Red Devils, entre outros que, inclusive, têm um historial de se atacarem uns aos outros e são conhecidos por ligações ao crime e à violência.

Para que não houvessem incidentes que necessitassem da sua intervenção, a polícia esteve presente no terreno em força e de forma bem visível, alguns agentes munidos até de espingardas, além de patrulhar os céus num helicóptero que passou o tempo todo a contornar Port Dover.

José Faria, Pedro Santos, Carla Santos, Jason Pires, Rui Campos e Alberto Faria são um grupo de amigos portugueses de Toronto e Bradford que já têm por hábito ali encontrar-se nestas ocasiões.

Pedro Santos nem hesita em dizer-nos o que os leva até este evento: "o amor pelas duas rodas", acrescentado que "já nascemos de mota e já vimos aqui há vários anos seguidos – é uma tradição".

No fundo, gostam do ambiente e da convivência, mas aproveitam também para ver o que há de novo.

Como veteranos destas andanças, visto que já participam desde a década de '90, notam que há cada vez mais portugueses a visitarem o evento e só naquele dia já se tinham cruzado com três grupos, o que atribuem ao facto deste continuar a crescer e a gozar de cada vez mais projecção mediática e nas redes sociais.

Situada à beira do lago Erie, a vila de Port Dover conta com o turismo de Verão e tem uma boa base de motéis, residenciais e casas de aluguer.

Nestas ocasiões, há muita gente que ali se desloca com antecedência, pernoitando depois mais dois ou três dias, como o indicavam as motas com matrícula dos Estados Unidos da América, que eram mais que muitas.

A próxima sexta-feira, dia 13, será daqui a pouco mais de um ano, em Setembro de 2019, pelo que tanto os motards como os apreciadores têm bastante tempo para marcarem a data no calendário e prepararem-se para a próxima visita.


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