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Covid-19:

Clubes e Associações luso-canadianas de boa saúde face à pandemia

Por João Vicente
Sol Português

O alarme foi dado a 31 de Dezembro de 2019 quando a China finalmente deu a conhecer à Organização Mundial de Saúde (OMS) que desde Novembro um vírus desconhecido estava a infectar a população de Wuhan, uma cidade na região leste do país com cerca de 11 milhões de habitantes.

Desde então muita tinta tem corrido e muito se tem falado acerca do assunto nos órgãos de comunicação e nas redes sociais enquanto o vírus, que veio a ser denominado oficialmente Covid-19, tem vindo a espalhar-se por todo o mundo.

A 25 de Janeiro chegaram ao Canadá aqueles que foram identificados como os primeiros casos da infecção no país – um casal que veio de Wuhan – e três dias depois foi identificado outro caso em Vancouver, Colúmbia Britânica, na costa Oeste do país.

A OMS declarou a situação um caso de emergência internacional a 30 de Janeiro e na passada quarta-feira, 11 de Março, decretou o surto de Covid-19 como uma pandemia.

A China já havia colocado a cidade de Wuhan em quarentena em finais de Fevereiro e encerrado os estabelecimentos de ensino, enquanto que em alguns dos países mais afectados, como o Irão e Itália, começaram a ser cancelados ou adiados eventos que atraem grande número de pessoas, como é o caso do famoso Carnaval de Veneza, entre outros.

Por cá, a declaração de pandemia foi a "última gota" que levou a maioria dos clubes e associações a ponderarem o cancelamento dos seus eventos, por forma a cumprirem com a recomendação de "isolamento social" voluntário que visa diminuir a possibilidade de contágio ou transmissão do vírus.

Contudo, eventos com menos de 250 pessoas estavam até há poucos dias excluídos dessa recomendação e como tal nem todos os clubes cancelaram as festas que tinham programadas para esse fim-de-semana.

Uma delas envolveu a celebração do 10.° aniversário do Rancho Folclórico Amigos do Minho, a propósito da qual conversámos como o responsável e porta-voz do grupo, Octávio Barros.

Como nos explicou, tinha acabado de percorrer 7.000 quilómetros, pois havia-se deslocado dias antes a Portugal para assistir a um funeral, e tanto lá como cá viu milhares de pessoas nos aeroportos "e ninguém estava protegido de nada", refere.

"Se o nosso governo canadiano quisesse impedir [a propagação do vírus], não tinha o aeroporto aberto", destaca.

"Infelizmente, a comunicação social a nível mundial, ou quer fazer disto muita coisa, ou então ninguém fala a verdade", prosseguiu, afirmando-se "triste de não dizerem a verdade porque já tivemos várias epidemias, há muitos anos atrás – e claro que no meio dessas epidemias morrem sempre [pessoas], sem dúvida – mas não é para fazer o que é isto, porque ninguém fala em Macau, ninguém fala da Coreia, portanto como é que é: só há na Europa?", interroga.

Octávio Barros está convencido de que tudo não passa de "uma vigarice", se não os "cafés, restaurantes, hospitais, lojas, empresas" e assim por diante, não continuariam abertos – como ainda estavam na altura.

Por outro lado, também acha que há falta de liderança, afirmando: "temos tanta gente que manda e afinal não manda nada", enquanto remata que "não é depois da casa roubada que a gente vai pôr as trancas à porta".

O dirigente dos Amigos do Minho explica que na altura falou com o inspector da Câmara de Toronto e que este lhe afiançou que, visto serem todas pessoas conhecidas ou familiares e não em grande número (a capacidade máxima do salão é de 220, enquanto que as contra-indicações eram na altura para agrupamentos com mais de 250 pessoas), o evento poderia prosseguir.

Face a tudo isto, Octávio Barros diz que considerando que vinha um artista de Portugal, não podia cancelar o evento "do pé para a mão", adiantando que as coisas mudaram muito em cima da hora.

Contudo, "se soubesse disto já no princípio da semana", tinha a firme certeza de que "não era nem mais nem menos do que os outros e cancelaria tudo", enquanto salienta que pediu à empresa de catering "todos os métodos de segurança e desinfecção" e às pessoas "para não se cumprimentarem" porque "o seguro morreu de velho".

Quanto à festa da Páscoa, marcada para dia 12 de Abril, "aí já vou trabalhar doutra maneira", acrescenta, indicando que se esta situação se mantiver, "já não faço nada".

Esta não foi, porém, a única realização na comunidade portuguesa que não foi cancelada e também na Casa da Madeira a Festa da Mulher prosseguiu como estava anunciada.

Contactado no sábado (14), Abílio Leça, vice-presidente da colectividade madeirense, esclareceu que "hoje vamos seguir para a frente porque está tudo pronto, estava tudo comprado e já fizemos algumas coisas ontem", mas "a próxima festa, daqui a quinze dias, essa estamos a pensar em cancelar".

Ciente de que o vírus já se encontrava entre nós, na região de Toronto, Abílio, esclareceu que "as pessoas que vêm hoje são as que estão aqui connosco; não viajaram, não foram para parte nenhuma, portanto não temos receio nenhum".

No entanto, adiantou, a Casa da Madeira sempre acautelou, tanto no seu portal na Internet como na sua página no facebook, para a forma apropriada de lavar as mãos, aconselhando as pessoas a ficarem em casa caso estivessem doentes, a cobrirem a boca e o nariz com um lenço quando tossem ou espirram, a lavarem as mãos com frequência, a evitarem o contacto com pessoas doentes e a evitarem também tocar na própria cara com as mãos.

Entretanto, outras colectividades que são igualmente pontos de referência da comunidade luso-canadiana na Área da Grande Toronto e arredores optaram por cancelar não só os eventos do passado fim-de-semana como os próximos, pelo menos até meados de Abril.

Assim, na Casa do Alentejo de Toronto (CAT) foi cancelado o colóquio que estava anunciado sobre Discriminação e Ética, dizendo o presidente do clube, Carlos de Sousa, que "na terça-feira [10] estava tudo programado para que isto acontecesse, mas realmente em 24 horas, de terça para quarta, isto – o coronavirus – transformou o mundo; não foi só o país, foi o mundo inteiro", enfatizou.

Carlos de Sousa cita o cancelamento de uma advogada da LIUNA Local 183, que era uma das convidadas a integrar o painel do colóquio, assim como o anúncio do cancelamento das reuniões e eventos daquele sindicato como um exemplo a seguir.

A CAT cancelou também a festa da matança do porco agendada para amanhã, sábado (21), mas entretanto já tinham sido notificados que um grupo de cerca de 60 pessoas que estava previsto vir de Bradford para participar nesse evento não estaria presente.

"Reflectimos um bocado e […] também por precaução, porque nunca se sabe quem tem o vírus ou não", foi decido cancelar o evento, explica Carlos de Sousa, que acrescenta que foram cancelados também os arrendamentos da sala agendados para os dias 27 de Março e 25 de Abril.

Também a Casa das Beiras de Toronto decidiu, "logo na terça [10] ou quarta-feira [11]", segundo o presidente-executivo, Bernardino Nascimento, cancelar o evento que tinha agendado para essa sexta-feira (20) pois chegaram à conclusão que poderia haver dificuldade dos artistas vindos de Portugal conseguirem regressar.

Entretanto, o evento marcado para domingo de Páscoa mantinha-se no calendário, pelo menos até ver, com a possibilidade de vir a ser cancelado, "se as coisas não melhorarem", referiu.

A sede da Associação Cultural do Minho de Toronto (ACMT) foi encerrada na sexta-feira (13) e todos os eventos cancelados por decisão unânime, "até à Páscoa, inclusivamente a festa da Páscoa", segundo o presidente, Alexandre da Silva, que realça que não haverá qualquer tipo de actividade nem ensaios do rancho na sede.

"Segundo dizem, isto pela saúde pública, deve haver pouca comunicação com as pessoas, pouco contacto uns com os outros – e se é isso que pedem, é isso que nós fazemos", refere o dirigente minhoto.

A seu ver, "não faz sentido nenhum o governo estar a mandar fechar certas coisas e nós a fazermos festas", já que, "se acontecesse alguma coisa na sede era pior" e assim, "para o bem do público, dos nossos sócios e amigos, cancelámos".

Segundo Alexandre da Silva, até quem já tinha bilhetes pagos disse estarem a agir bem e que "o público e os sócios estão do nosso lado" nesta decisão.

Também na Associação Migrante de Barcelos (AMB) foi tomada a decisão de cancelar os eventos e o presidente do Executivo, Victor Santos, explica que "o que nos levou a tomar esta medida foi o responsável pela saúde do Ontário" que terá "proibido e aconselhado também a não fazer festas com mais de 250 pessoas".

"Nunca na vida a Associação Migrante de Barcelos ia contra um regulamento ou uma coisa que foi dita pelo governo", refere o dirigente da AMB, que destaca que "a principal razão na verdade é que temos que tomar conta dos nossos amigos e dos nossos familiares, e nos dias que correm não vamos pôr ninguém em risco".

Victor Santos afirma que apesar de haver nesta situação algum humor que tem vindo a ser explorado por muita gente, há também um lado muito grave que tem de ser encarado com a seriedade necessária e que passa pela quarentena voluntária, "para ver se a gente consegue recomeçar os nossos eventos o mais rapidamente possível".

O Festival de Marisco da AMB, que se iria realizar amanhã, sábado (21), foi adiado para 6 de Maio e o presidente-executivo faz votos de que "nessa altura as coisas estejam já resolvidas e se possa já ter estas nossas actividades, que são necessárias para conseguirmos manter os nossos clubes vivos".

Com uma festa programada também para o fim-de-semana, o presidente do Centro Cultural Português de Mississauga (CCPM) explicou à nossa reportagem que ainda consideraram aprimorar a limpeza do clube e manter as mesas mais afastadas, mas por fim, na quinta-feira (12) à noite, decidiram fechar e cancelar o evento.

"Primeiro estão as pessoas que vêm apoiar o clube e as que estão com a gente toda a semana", diz-nos Tony de Sousa, que refere a importância de "apoiá-las também e deixá-las em casa para nada lhes acontecer – a nossa preocupação foi essa", enfatiza.

Para o presidente da colectividade, o importante é que ninguém adoeça no clube e a seu ver não importa o número de pessoas que ali se iriam deslocar.

As autoridades "começaram por dizer que se tivéssemos menos de 250 pessoas talvez não [houvesse problema], mas para mim isso não funciona porque tanto faz ficar doente [numa festa] com 500 como com 100 ou 150 pessoas".

Segundo Tony de Sousa, irão analisar a situação "semana a semana" e para já as cantorias que estavam marcadas para 4 de Abril, e para as quais tinham a lotação quase esgotada, foram adiadas – possivelmente para Setembro.

Entretanto, a Noite do Marisco – que é um dos mais populares eventos realizados por esta colectividade lusa de Mississauga – terá também de ser adiada, para data ainda por determinar.

Também na Casa dos Açores do Ontário (CAO) a decisão de cancelar as próximas realizações foi tomada na quinta-feira (12), segundo refere a presidente do Executivo, Suzanne da Cunha, "mais por precaução" quando se soube que as escolas iam fechar duas semanas para além das férias de Março.

"Parecia a atitude correcta a tomar para apoiar o que outros estão a fazer na comunidade", disse a dirigente que refere terem muitos idosos no programa de seniores, dai ser essencial tomarem precauções.

Segundo Suzanne da Cunha, a Noite do Fado marcada para amanhã, sábado (21), foi cancelada pois "seria egoísta da nossa parte avançar com o evento e pôr [os músicos] numa posição desconfortável".

Entretanto, refere que a CAO não têm mais eventos marcados até 4 de Abril", altura em que tencionam avançar com as suas realizações, "dependendo do que estiver a ocorrer na nossa comunidade nessa altura", destaca.

No Arsenal do Minho de Toronto, todas as actividades foram canceladas assim que a OMS declarou o surto de Covid-19 uma pandemia.

Como nos explica o dirigente da colectividade, Joel Bastos, "a primeira coisa que fizemos" na reunião do conselho directivo nessa quarta-feira foi tomar a decisão de que "era melhor fechar, visto que temos muitas crianças e algumas pessoas com mais de 50 anos de idade".

Como explica: "primeiro, é um local fechado, nós não sabemos onde é que as pessoas andam, as crianças vêm da escola – e as crianças são as que têm maior contacto com os adultos e outras crianças e que têm menos precauções, digamos assim – por isso decidimos fechar o clube".

Em princípio pretendiam cancelar apenas os ensaios e as actividades que envolvessem as crianças, mas após dialogarem mais um pouco decidiram cancelar todas as realizações, incluindo a festa da Páscoa, "porque não sabemos como é que isto anda", explica.

"Foi tudo a favor, não houve vozes contra, porque isto não é uma situação em que se esteja a brincar", refere Joel Bastos.

"Tenho algumas pessoas que trabalham no sistema de saúde em Portugal e tenho estado em contacto com alguns deles, até pela preocupação que tenho com família que lá tenho, e alguns deles dizem: `Joel, isto não é bem aquilo que a televisão passa, isto é outra coisa pior', por isso o melhor é fazermos o que a Organização Mundial de Saúde pede", refere o dirigente minhoto, que considera que "quanto mais depressa uma pessoa se precaver, mais depressa isto foge ou sai, por isso é melhor matar o mal pela raiz".

Com vários eventos marcados para Abril, incluindo uma angariação de fundos para a deslocação do rancho a Ludlow em Setembro, o Arsenal foi bastante afectado pelo cancelamento das suas actividades, para as quais, segundo Joel Bastos, por enquanto não têm "uma data definida para voltarem ao calendário".

No decurso desta auscultação aos clubes e associações citados, achámos igualmente oportuno indagar acerca do potencial impacto de uma suspensão prolongada das suas actividades, já que todas vivem sobretudo das receitas provenientes destes encontros.

Todas as colectividades contactadas afirmaram estarem em situação para poderem enfrentar e sobreviver a este revés por um período de alguns meses, com vários dos dirigentes a elogiarem o trabalho não só das actuais Direcções como das que as precederam e que, a pouco e pouco, souberam ir amealhando e pondo de parte algum dinheiro para enfrentarem eventuais contratempos como o que agora se vive.

Algumas poderão ser mais afectadas do que outras, consoante o prolongamento da suspensão de actividades e a sua capacidade financeira, mas todas dizem estar em boa forma e capazes de emergir desta quarentena aptas a continuarem as suas realizações.

Para muitas, o risco quanto ao futuro continua a ser a falta de jovens a quem os actuais dirigentes possam passar o testemunho.


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