CANADÁ EM FOCO


Comissão de Acidentes de Trabalho avalia pedidos de compensação de consultores de guerra afegãos

Levou mais de um ano, mas os pedidos de compensação pelas lesões sofridas por um grupo de ex-consultores de idioma e cultura que serviram lado-a-lado com as tropas canadianas no Afeganistão estão agora perante a Comissão de Acidentes de Trabalho do Ontário para obter o seu parecer legal.

Os queixosos são todos cidadãos canadianos naturalizados, que tinham imigrado recentemente do Afeganistão e que foram recrutados directamente pelo Departamento de Defesa Nacional no início das operações de combate em Kandahar.

No decurso da sua actividade estiveram envolvidos em algumas das missões mais perigosas da guerra, incluindo a recolha de informações sobre os talibãs para alertar as tropas de potenciais ataques, mantendo-se atentos às comunicações dos rebeldes.

Muitos regressaram com Perturbações de Stress Pós-Traumático (PSPT) mas por serem civis não se qualificavam para receber os mesmos benefícios pagos aos combatentes, embora alguns tenham assistido a mais combates nas suas múltiplas rotações de serviço do que alguns soldados.

O Departamento de Defesa Nacional (DDN) disse-lhes para apresentarem as suas reivindicações ao Conselho de Segurança no Trabalho do Ontário (WSIB, na sigla em inglês), que não tem experiência na avaliação de situações ocorridas em zonas de combate, e muitos dos pedidos sofreram atrasos ou foram rejeitados.

Pelo menos um destes casos foi investigado pelo auditor das Forças Armadas Canadianas, Gregory Lick, que reconheceu que o departamento tinha "falhado" em ajudar os consultores.

Segundo o advogado Joshua Juneau, que ajudou cerca de duas dezenas deles a prepararem as suas queixas, foi necessário esboçar cuidadosamente um resumo narrativo das experiências pelas quais passaram para apresentar à Comissão, com o cuidado de não violar a proibição militar de divulgar os detalhes da missão.

Entre outros exemplos, o documento detalha como a certa altura os talibã conseguiram obter os números de telefone de alguns dos consultores e os ameaçaram directamente e às suas famílias.

Outros foram obrigados a ver e a traduzir vídeos de propaganda talibã, "horríveis, explícitos e perturbadores", relata a queixa, incluindo "imagens de decapitações em massa, assassinatos, tortura de civis afegãos inocentes, pornografia infantil, crueldade contra animais e outras formas de violência e maus tratos".

É ainda referido um período durante o qual os consultores, inseridos na missão canadiana para prestar treino militar em Kabul, entre 2011 e 2014, tiveram de enfrentar a ameaça que representava a infiltração de talibãs entre os recrutas das forças militares nacionais afegãs – altura em que vários soldados americanos foram alvejados e mortos por soldados afegãos recém-treinados e não havia qualquer certeza de quem era de confiança no exército afegão.

Segundo Joshua Juneau, o facto dos consultores terem corrido perigo quase diariamente é reconhecido pelo DDN, mas os detalhes têm de ser explicitados para que o WSIB possa avaliar correctamente as reivindicações.

Para Bashir Jamalzadah, um dos consultores em questão, este é um momento de algum alívio por ver o processo prosseguir, temperado pelo sentimento de que foram abandonados pelas forças militares canadianas.

"Após trabalhar dias, meses e anos numa zona de combate, é inacreditável voltar para o Canadá e [ser] abandonado. Principalmente porque nos últimos quatro anos tivemos um ministro da Defesa que passou pela mesma situação – esteve connosco naquela zona de combate durante duas [rotações]".

O advogado que representa os queixosos destaca que pode levar um ano até a WSIB avaliar e analisar as queixas.


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