1ª PÁGINA


Canadá/Covid-19:

Mais de 300.000 casos detectados desde o início da pandemia

Novo recorde de infecções diárias no Ontário sugere possibilidade de mais restrições

Até ao início desta semana o número de pessoas contagiadas pelo novo vírus corona totalizava 55,4 milhões, das quais 38,1 milhões são consideradas terem superado a doença, fixando assim a taxa de recuperação em 71,1 por cento – uma melhoria em relação aos 69,4 por cento que se registavam na semana anterior.

Neste mesmo período foram atribuídas mais de 65.100 mortes à Covid-19 em todo o mundo, o que elevou o número de óbitos até à data para 1,33 milhões.

Enquanto isso, no Canadá as infecções deram um salto de 36.700 numa semana, para mais de 305.000 desde o início da pandemia, e os cerca de 500 novos óbitos levaram o total a ultrapassar 11.000.

A taxa de recuperação, por seu turno, continuou a descida iniciada há pouco mais de um mês, com cerca de 244.000 pessoas consideradas curadas e um ajuste nesse índice de 81,2 por cento, registado na semana passada, para os actuais 80,1 por cento.

A inversão da tendência para o decréscimo no número de infecções, que ainda há poucos meses havia criado alguma esperança na reabertura de vários sectores de actividade, levou várias organizações a cancelarem os seus planos.

Assim, conforme noticiámos na última edição, na passada quarta-feira (11) o Supremo Tribunal do Ontário anunciou que o reinício dos julgamentos com júri iria voltaria a ser adiado devido ao aumento no número de casos de Covid-19.

Segundo a máxima instância jurídica da província, os julgamentos já em curso podem continuar, à discrição dos respectivos juízes que a eles presidem, mas a selecção de jurados e os julgamentos que estavam para se iniciar esta semana em Toronto e Brampton vão ser adiados pelo menos até 30 de Novembro.

Enquanto isso, os Serviços Correccionais do Canadá revelaram a detecção de Covid-19 em cinco prisioneiros em instituições penais no Quebeque, Manitoba e Alberta, adiantando estar a decorrer o rastreio dos seus contactos.

Face a isto, Emilie Coyle, directora da Associação Canadiana das Sociedades Elizabeth Fry, organizações que advogam a favor do presos, considerou o aumento no número de infecções um mau sinal para a restante população prisional.

Na sua avaliação, muitos dos presos continuam em confinamento parcial, sem acesso a cuidados de saúde adequados e à mercê de uma relação entre guardas e prisioneiros que considera "tóxica" e conflituosa durante a pandemia.

Na quinta-feira (12) a Dra. Eileen de Villa, directora dos serviços de saúde de Toronto, anunciou que a autarquia registou 2.432 novos casos de Covid-19 nos cinco dias prévios e advertiu que "a comunidade médica sabe que isto é apenas a ponta do icebergue".

Efectivamente, nesse mesmo dia a Associação Médica do Ontário apelou ao governo provincial para que reduza os patamares previstos para a imposição de medidas mais restritivas pois, segundo esta organização que representa os clínicos da província, o actual sistema de cores e de níveis que designam a situação em cada região e determinam se estas devem aliviar ou intensificar as medidas de confinamento é demasiado brando numa altura em que os casos de contágio estão a aumentar.

No dia seguinte, o governo provincial viria efectivamente a anunciar a redução desses patamares, face ao que o primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford, indicou serem novas projecções "alarmantes" para a pandemia.

A mudança significa que várias regiões passaram de imediato ao estado de alerta vermelho, incluindo Hamilton, Halton, Toronto, Peel e York, pedindo-se aos residentes que nelas vivem para que fiquem em casa, excepto para o que for essencial.

Ao fechar a semana, o Primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, anunciou uma injecção de 1.500 milhões de dólares no apoio aos esforços dos governos das províncias e territórios para darem nova formação profissional aos trabalhadores que perderam o emprego em sectores como a construção, os transportes e a restauração.

O Primeiro-ministro indicou ter advertido os seus homólogos provinciais e territoriais para o facto de que, embora possam sempre contar com o apoio do governo federal, os recursos não são infinitos, aconselhando-os por isso a tomarem agora as medidas que embora difíceis são necessárias, para evitarem ter de tomar "decisões impossíveis" mais tarde.

Um estudo levado a cabo pelo Departamento de Estatísticas do Canadá revela que quase um terço das empresas indicam não saber por quanto tempo vão conseguir continuar a funcionar se tiverem de cumprir com as restrições impostas na sequência da segunda vaga de Covid-19.

Cerca de 40 por cento já tiveram de despedir empregados desde Março e uma em cada cinco diz que terá de tomar acções drásticas, caso as coisas não melhorem nos próximos seis meses.

Não muito encorajadoras, as previsões anunciadas pela dDra. Theresa Tam, directora dos serviços de saúde do Canadá, indicam que o país poderá atingir 10.000 casos diários de Covid no início de Dezembro, caso a propagação da pandemia se mantenha ao ritmo actual.

Também a Associação Médica Canadiana deu o alerta para uma crise que considera iminente, à medida em que o surto de infecções leva alguns sectores do sistema de saúde ao limite da sua capacidade, ou perto dele.

Segundo aquela organização, as equipas médicas deparam-se com medidas que consideram insuficientes para conter a propagação do vírus e, na sua avaliação, a saúde da população tem de ter precedência sobre as preocupações económicas, embora estas possam, por sua vez, despoletar outras crises.

Entretanto, e apesar das autoridades de Peel terem pedido para que se evitassem grandes convívios e encontros durante as celebrações de Diwali – festival anual característico do sub-continente indiano – que decorreram no fim-de-semana, a polícia local recebeu várias queixas e chegou a ter de mandar dispersar alguns grupos de convivas.

Com a chegada do fim-de-semana veio também um novo recorde de infecções no Ontário, com o registo de 1.581 novos casos de Covid-19 no espaço de 24 horas, segundo foi anunciado no sábado (14).

Dias depois, na segunda-feira (16), o número total de infecções detectadas no Canadá desde o início da pandemia ultrapassava pela primeira vez os 300.000, menos de um mês após terem sido contabilizados 200.000 casos e indicativo do acelerar da propagação do vírus em grande parte do país.

Pela sua parte, o Primeiro-ministro do Ontário, Doug Ford prometeu aumentar o número de testes de despistagem que se realizam nos lares de idosos e disse que esse aumento tinha de ser acompanhado da avaliação mais rápida dos resultados.

Segundo o governo provincial, 107 dos 626 lares da terceira-idade no Ontário estavam a debater-se com surtos de Covid-19, com 716 residentes infectados.

Apesar disso, a semana começou com um módico de esperança quando a farmacêutica Moderna anunciou os resultados preliminares da vacina que está a testar e que apontam para uma eficácia na prevenção de Covid-19 na ordem dos 94,5 por cento.

Dias depois, a farmacêutica Pfizer, que uma semana antes tinha revelado um estudo semelhante que indicava pelo menos 90 por cento de eficácia da sua vacina, apresentou novos dados que colocam o índice de sucesso em 95 por cento.

Ambas as vacinas requerem a administração de duas doses, com um intervalo de três semanas entre a primeira e a segunda inoculação, e não estarão disponíveis tão depressa uma vez que têm ainda de ser avaliadas pelas autoridades canadianas com respeito à sua eficácia e segurança.

Mesmo que uma eventual aprovação seja rápida, uma vez que ambas as companhias têm vindo a fornecer os dados que vão recolhendo às autoridades canadianas para acelerar o processo, estima-se que não cheguem ao país antes do final do primeiro trimestre de 2021.

No entretanto, as autoridades de saúde destacam a importância de continuar a seguir as regras de higiene e de distanciamento como formas de evitar o contágio.

Apesar disso, três adolescentes em London foram autuados pela polícia ao abrigo da Lei de Desconfinamento do Ontário por terem organizado uma festa que juntou quase uma centena de pessoas, poucas das quais usaram máscara.

Por seu turno, a Polícia de Toronto teve de interromper uma festa de anos que decorria numa unidade situada num armazém que aluga arrecadações para guardar bens pessoais e outros materiais, e aplicou uma coima de 750 dólares a uma jovem de 27 anos.

Face a estes e outros casos, continuam a multiplicar-se os avisos de especialistas para que sejam aplicadas restrições mais pesadas ou se arrisque o prolongamento e o agravamento da situação.

Tanto o Dr. Andrew Morris, especialista em doenças infecciosas do hospital Mount Sinai, e criador da iniciativa "estratégia #COVIDzero" – que defende como objectivo eliminar totalmente os casos de transmissão comunitária – como o epidemiologista Raywat Deonandan, da Universidade de Otava, propõem um período de confinamento mais longo e a implementação de medidas mais severas como forma de conter o vírus e evitar sobrecarregar o sistema de saúde.

Contudo, recorde-se, os peritos dividem-se sobre a eficácia da aplicação de multas e penalidades uma vez que num estudo revelado na semana anterior e a que Sol Português fez referência, os pesquisadores indicaram não haver indícios de que estas funcionem como factor dissuasor.

Entretanto, na terça-feira (17), num discurso apresentado pelo Empire Club of Canada, o Director da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, elogiou o Canadá pelos esforços envidados no combate ao vírus corona, tanto a nível interno como internacional, assim como pela sua dedicação às campanhas de saúde pública.

Contudo, nem a própria OMS está imune à Covid-19, apesar de todas as medidas que tem vindo a recomendar, pois já regista 65 casos de infecção entre os funcionários que trabalham na sua sede em Genebra, na Suíça.

John Tory, Presidente da Câmara de Toronto, uma das cidades canadianas mais afectadas pela pandemia, indicou no decorrer de uma entrevista que dentro de dias poderão vir a ser decretadas novas restrições ao funcionamento das empresas, incluindo limites de lotação em lojas e centros comerciais.

Por seu turno, Justin Trudeau aconselhou os canadianos a não viajarem além-fronteiras, uma vez que muitos continuam decididos a passar o Inverno nas latitudes mais a sul, onde o tempo é mais quente, mas para os que não lhe quiserem dar ouvidos aconselhou-os a fazerem seguros de saúde abrangentes.

Entretanto, Doug Ford revelou que o governo do Ontário vai dedicar 37 milhões de dólares para aumentar as equipas que dão resposta a crises de saúde mental em 33 localidades, uma necessidade crescente à medida em que o confinamento se prolonga e a ansiedade aumenta.

Embora o governo chegasse a ponderar decretar umas férias de Natal prolongadas para os alunos do Ontário, como forma de travar a propagação da pandemia, o ministro da Educação, Stephen Lecce, indicou que tendo em conta que os casos de infecção são relativamente poucos nas escolas e estão em vigor medidas de contenção, "neste momento, não é necessário", decisão que foi apoiada pelo chefe dos serviços de saúde do Ontário, dr. David Williams.


Voltar a Sol Português