PENA & LÁPIS


Correspondente de Portugal:

Cinismo ocidental

Por Hélio Bernardo Lopes
Sol Português

Os mais atentos ao que vai pelo mundo quase terão esquecido o caso em que se viu envolvido Julian Assange, depois de se ter tornado o grande denunciante do WikiLeaks. Todavia, não assiste razão aos Estados ocidentais, uma vez que com Edward Snowden se passou o mesmo, tal como com Manning, mas aqui por via da denúncia de crimes praticados pela Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos. Crimes à luz da legislação norte-americana, mas por igual à luz da lei internacional.

Como teria de dar-se, a classe política ocidental, sempre brandindo os valores da designada democracia, mas norteada sempre pelos grandes interesses que realmente serve, virou-se contra Julian Assange, perseguindo-o quase por toda a parte. Até a Austrália, seu país de origem e de nacionalidade, lhe virou as costas, obedecendo, como sempre e do modo mais natural, às ordens dos Estados Unidos. De resto, a Austrália já deu provas ao mundo da violência que é capaz de praticar contra povos indefesos, não convindo esquecer tudo o que se passou ao redor da independência de Timor ou dos aborígenes.

A causa desta perseguição dos Estados Unidos a Julian Assange, bem como dos Estados que a estes obedecem incondicionalmente, deve-se ao facto de, através da WikiLeaks, ter dado a conhecer ao mundo as mil e uma trapaças que têm lugar nos bastidores da realidade publicamente conhecida ou proclamada. O que Assange acabou por mostrar ao mundo foram as provas de que a ideia sempre veiculada pela grande comunicação social ocidental, bem dominada pelos grandes interesses, a cuja luz os seus políticos são geralmente honestos e mantidos sob um controlo eficaz, não passa de uma mentira.

O que se passou no Reino Unido, sempre apregoadamente defensor dos Direitos Humanos, foi que Julian Assange se viu fortemente maltratado pela justiça, antes do julgamento, em Setembro, em Old Bailey, mas também durante o mesmo, recebendo uma sentença sem precedentes por violar as condições da sua liberdade provisória, sendo detido numa prisão de segurança máxima, na companhia de terroristas e de criminosos violentos, e impedido de comunicar com a sua equipa de advogados do modo consagrado nas leis. O Estado de Direito Democrático britânico, portanto...

Aguarda-se agora o próximo mês de Janeiro, a fim de ver se Julian Assange acabará por vir a ser extraditado para os Estados Unidos. Se tal vier a dar-se, irá passar o resto dos seus dias de vida em condições de uma desumanidade inimaginável, de molde a que, por esse mundo fora, se consiga pôr um fim na denúncia dos crimes praticados pela plutocracia norte-americana e pelos poderosos do nosso mundo.

Não deixa de ser interessante constatar como o Papa João XXIII chegou a interceder em favor de um perdão contra a condenação à morte do histórico Caryl Chessman, e como Francisco nem uma palavra ainda pronunciou em defesa do serviço prestado por Julian Assange a todo o mundo, mostrando a pouca vergonha dos poderosos do mundo.


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