PENA & LÁPIS


Uma história luso-angolana - Conclusão:

De volta aos primeiros passos – 4

Por Francisco Amorim
Sol Português

(Continuação da edição anterior)

Chega a Portugal com 45 anos, de onde tinha saído 28 anos antes. Lá na terra, quem por lá estaria ainda? Enquanto em Angola trocou alguma correspondência com Maria Rita, que se formara: era professora no liceu em Lamego. O mais que conseguiu saber foi do falecimento da sua mãe, e ainda que ela tinha casado com um colega da faculdade que pouco depois fora chamado para cumprir o serviço militar na Guiné e onde, poucos dias antes do regresso, teve um acidente quando o jeep em que seguia pisou uma mina. Ficou todo estropiado e acabou por falecer no hospital em Bissau, porque o seu estado não permitiu que fosse transferido para a metrópole.

Não voltou a casar.

Assim que chegou foi directo para Lamego, instalou-se num pequeno hotel que ficava a pouco mais de 20 quilómetros da sua terra, da sua velha casa. No dia seguinte foi a um banco, abriu conta, alugou um cofre onde depositou a sua esperança, as garrafinhas, meteu-se num taxi e foi visitar a sua casa.

Muito abandonada, mas permitiria um bom restauro, o terreno na mesma invadido por mato, mas pela primeira vez na vida, Gabriel foi invadido pela beleza da vista que se alcançava lá do alto; coisa que em criança nunca dera importância.

Sentou-se num penhasco e chorou a saudade dos pais e da sua querida Catxi. Como ela deveria apreciar estar ali com ele.

Na descida foi a casa da Maria Rita. A mãe dela ainda estava viva e de muito boa saúde. De entrada não reconheceu o antigo vizinho, mas logo se lançou ao seu pescoço, beijou-o de saudades "daquele menino tão amigo da nossa Rita."

Uma boa hora ou mais de conversa, ela disse-lhe que Maria Rita estava em Lamego, professora no liceu, deu-lhe o telefone dela, e que ela sempre aparecia nos fins-de-semana. Como ele podia ver, a casa fora aumentada, deixara de ser uma casa pobre para ser uma casa modesta, mas muito acolhedora.

Outro abraço, uma ou outra lágrima de saudades, "qualquer dia volto aqui, até porque também vou fazer obras na minha casa", e logo regressou a Lamego.

A primeira coisa que fez foi telefonar a Maria Rita, que quase largou um grito quando percebeu com quem estava a falar, e mais, que ele estava ali, ao lado. Combinaram ir jantar juntos. Foi outro encontro emocionante.

– Gabriel, tantos anos! E eu, mesmo tendo casado, sempre pensava em ti.

– Também eu. E o mais engraçado, se é que tem alguma graça, é que tendo casado com uma mulher negra, que me surgiu quase como caída do céu, uma mulher simples do interior, apaixonei-me por ela, pela sua humildade, uma vida dedicada à casa, ao marido e aos dois filhos magníficos que nos deu, que como angolanos que são, ficaram por lá.

Contou-lhe a tragédia da sua vida, mas tinha que seguir em frente. E falaram, falaram, falaram, contando coisas da vida de cada um desde que se separaram, e relembrando passagens de quando estavam juntos.

Só saíram do restaurante quando o dono lhes veio dizer que tinha que fechar as luzes e a porta!

– Maria Rita, eu tenho que ir à Bélgica fazer lá um negócio. Só vou na próxima semana, porque preciso primeiro de tirar o passaporte, mas amanhã podemos voltar a nos encontrarmos. Que tal ao almoço?

– Para mim o almoço não dá por causa das aulas. Mas jantar sim.

– Combinado.

Gabriel deixa-a à porta de casa dão um forte abraço, um beijo.

Logo pela manhã começou por tratar do passaporte, procurar um mestre de obras e até um arquitecto para estudarem a recuperação da casa, que queria que começasse imediatamente, e alguém que lhe aconselhasse o que fazer em todo o terreno, que, mesmo no meio dos penedos ainda tinha um tamanho razoável.

Sugeriram-lhe até que naquele lugar uma pousada daria dinheiro. – "Não quero nada disso. Por enquanto quero descansar, o físico e a cabeça. Trabalhei muito durante quase 30 anos e um hotel é preocupação maior que não estou disposto a enfrentar. Para já vamos fazer dali uma casa, modesta mas com o conforto possível."

Novo jantar com Maria Rita. Escolheram o melhor restaurante, sobretudo o mais sossegado e discreto. Maria Rita vinha mais elegante, mais bonita, ou... seriam os olhos dele que começavam a ver melhor? Os dois praticamente da mesma idade, ambos bem conservados, sem jamais terem esquecido aquela primeira e única aventura amorosa, sentiam, ainda sentiam, atracção um pelo outro. Via-se nos olhos deles, e mesmo que estivessem ainda chocados com os seus desastres pessoais, a companhia da velha amiga e uma espécie de namorada da adolescência, ia-lhe anuviando a visão e a sentir o magnetismo que parecia adormecido.

– Maria Rita. Nós já fomos uma espécie de namorados.

– Ah! Criancices.

– Eram, mas não podes negar que estávamos os dois a gostar cada vez mais um do outro. E essas coisas, importantes, da juventude, não se esquecem.

– Eu também não esqueci nada e a tua companhia, agora, parece que me faz andar anos para trás!

– Eu perdi a mulher há muito poucos dias ainda, o choque foi brutal, mas a tua presença ameniza a minha dor e, o que é mais importante, está a fazer despertar aquilo que nós calámos tantos anos. Eu vou querer casar contigo!

– Gabriel! Não falas sério!

– Nunca falei tão sério na minha vida. Não casamos já amanhã. Deixa-me arrumar a minha vida, ir à Bélgica, entretanto pensamos nisto – eu já pensei tudo – e decidimos.

– Estás a deixar-me confusa. Nem sei o que pensar.

– Pronto. Já disseste tudo. Se não sabes o que pensar é porque sabes o que não pensar!

Riram, continuaram a conversa que nunca tinha fim e marcaram novo encontro para o dia seguinte.

Maria Rita estava um pouco baralhada, já habituada à sua solidão. Não esperava aquele tão rápido desfecho, mas no fundo acolheu a proposta com entusiasmo que fazia o possível por não mostrar.

– Amanhã jantamos em minha casa. Eu preparo um jantarzinho.

Sabendo a que horas Rita chegava a casa, mandou-lhe um imenso e lindo ramo de flores e quando chegou para jantar levava várias garrafas de vinho. À escolha!

Um ambiente muito acolhedor, mais conversa que não acaba, o café na pequena sala, ambos sentados no sofá.

Enquanto ela serve o café ele está nervoso, pensa em abraçá-la, mas hesita.

Quando ela se vira, olhos nos olhos, o que antes lhes tinha parecido uma longa espera, ele avança para a abraçar e trocam um longo beijo há mais de 28 anos esperado!

– Como eu afinal continuo apaixonado por ti, Maria Rita!

– Mas não vamos dormir juntos. Esquece. Eu também te tenho no meu coração, mas agora somos suficientemente maduros para não fazer nada com precipitação.

– Também não era minha intenção dormir aqui! Vamos casar brevemente e, se Deus quiser, teremos muitos anos pela frente. Mas não vou deixar de te abraçar ainda muitas vezes antes da cerimónia!

Com o passaporte pronto foi à Bélgica, com a mala "especial". O comprador estava avisado da sua visita, que Carlos providenciara. A negociação demorou algumas horas porque tudo precisava ser muito bem analisado e por fim, quando o comprador lhe diz quanto pode pagar por tudo – era muito mais do que imaginava – quase teve uma síncope! Estava milionário e não sabia!

Fechou negócio, depositou o dinheiro numa conta que abriu em Anvers e regressou a casa rico, riquíssimo! A primeira coisa que fez, assim que chegou a Lamego foi mandar um telegrama aos filhos: "NEGÓCIO FECHADO MAGNIFICO STOP POR TELEFONE VOS CONTO STOP ABRAÇOS BEIJOS PAI."

As obras da casa estavam a andar bem, ia ficar muito bonita e confortável, sem esquecer as necessárias licenças. Pediu instalação eléctrica, e ainda telefone, para o que teve que pagar os postes serra acima. Calculava que tudo estaria pronto em menos de dois meses. Três trabalhadores rurais vieram limpar o mato e com a sua experiência aconselhar o que plantar ali; sobretudo cerejeiras.

Com Maria Rita estava acertado o casamento. Teve que ser nas primeiras férias para poderem ter uma lua de mel. Poucos convidados, só a família, alguns amigos dela e uns raros de quem Gabriel mal se lembrava da infância.

Entretanto já havia comprado um carro magnífico que naquela altura, com o desastre da política em Portugal, se vendiam por metade ou a quarta parte do preço normal.

E foi assim que saíram de Lamego para Espanha, para passarem a primeira noite na pequena e magnífica vila de Puebla de Sanabria.

Os dois estavam ansiosos para se encontrarem, para se amarem, para repetirem o que haviam deixado por tantos anos. Em vez de jantar, um pequeno lanche, correr para o quarto e se amarem.

Começaram sem vergonha, por se examinare bem quando acabaram de se despir. Eram um casal maduro, mas mantinham no corpo um belo vigor, e em poucos instantes caíam na cama já abraçados e sufocando-se com beijos.

Pareciam os mesmos adolescentes, porque se amavam com a mesma vontade, cada um pensando ter-se encontrado num céu novo, muito desejado.

As mãos não paravam de percorrer todo o espaço oferecido, procuravam não se precipitarem para poderem gozar o máximo que os anos não lhes haviam permitido.

Já não tinham 20 anos, mas a noite foi passada quase sem descanso, a imagem de Catxi aparecendo a sorrir, como a dizer-lhe que continuasse, até que por fim, sempre abraçados, adormeceram.

Levantaram-se tarde, passearam pela rica povoação de mãos dadas e à tarde seguiram para norte, até um hotel em frente às praias do mar das Astúrias onde ficaram alguns dias.

Passeavam de dia e amavam-se, muito, à noite.

Apesar de ambos terem sofrido desaires, graves, na vida, pareciam agora felizes, seguros, sensatos.

– Rita, logo que a minha casa fique pronta mudamo-nos para lá. Entretanto ficamos no teu apartamento.

– Mas não é cómodo percorrer todos os dias aquela estrada. Com os meus horários no liceu parece-me melhor manter, por enquanto, o apartamento.

Gabriel estava com dinheiro e não tinha idade para ficar em casa. Procurou informar-se onde aplicar algum capital e decidiu-se por comprar uma parte, maioritária, numa exploração vinícola. Precisava da experiência dos primeiros donos, por isso não comprou tudo. Com a sua capacidade financeira e experiência de trabalho, em breve a produção aumentava e o mercado, apesar da economia em Portugal estar em decadência, alargava-se para a exportação.

Como seria de imaginar, o primeiro mercado extra foi para Angola!

Rita conservava o seu professorado e ele, diariamente, se dirigia um pouco para norte da Régua, desenvolver o seu negócio com os vinhos do Porto e do Douro.

Dos filhos tinham regularmente boas notícias pessoais: António já era professor da faculdade e Carlos chefe do gabinete do ministro da Indústria. Angola é que estava mal com a guerra, e os filhos queixavam-se, dissimuladamente, da corrupção que grassava.

Ao fim do dia quando se voltavam a encontrar parecia que não se viam há muito tempo e corriam para se amarem.

Catxi e Angola já estavam muito longe, mas... durante a noite, no sono mais profundo, Catxi continuava a sorrir para ele.

A vida continuou, um quarto de século passado, com algumas idas a Angola, sempre que podiam.

Uma noite Maria Rita sentiu-se mal. De urgência para o hospital, um ataque de coração levou-a em poucos dias.

Gabriel, com pouco mais de 70 anos, sentiu-se perdido.

A paz chegara a Angola, onde já cresciam quatro netos, e quase bisnetos a caminho.

Para lá foi. Os filhos que tomassem conta do que ele tinha deixado em Portugal. Não queria para lá voltar sozinho.

Avisou-os que queria ir a Xá Muteba. Que não se preocupassem; iria sozinho, de comboio até Malange e lá arranjaria um táxi. Queria ver se ainda encontrava algum dos sobas que tinha conhecido. Sobretudo deixar algumas flores na campa da sua Catxi.

Se ao chegar a Malange o seu espanto foi grande, Xá Muteba então parecia um sonho. Como tudo estava diferente, sobretudo a escola e a sede do novo município! Continuava a ser um município modesto, mas tudo estava arrumado. Mas praticamente não aumentara de população. Pouco trabalho, os que atingiam idade iam embora para a capital.

A primeira parada foi junto à igreja, à procura do túmulo de Catxi. Sabia exactamente onde o tinha feito. Cansado e emocionado acabou por encontrar uma pequena área, com um resíduo do que talvez tenha sido uma cruz em madeira. Ajoelhou-se e chorou!

Depois foi falar com o administrador do município. Contou-lhe que ali tinha vivido quase 28 anos, que lá tinha deixado alguns amigos, sobretudo entre os sobas cujos nomes ainda lembrava. O administrador não conhecia ninguém desse tempo; chamou um velho funcionário que, para seu grande espanto, se lança nos braços do Sr. Gabriel e deixa correr duas lágrimas. Tinha sido um dos seus trabalhadores!

Gabriel mal podia falar. Pergunta-lhe pelos outros colegas, pelas famílias e sobretudo queria notícias dos sobas seus amigos. Um só parecia estar ainda vivo, mas muito velhinho.

– Podemos encontrá-lo?

– Creio que sim.

O administrador dispensou o velho funcionário e, no mesmo taxi foram à procura do velho soba, o kota mais respeitado na região.

O encontro foi emocionante. Reconheceram-se e ficaram abraçados um longo tempo. Não conseguiam dizer nada.

Por fim Gabriel disse-lhe que tinha um pedido a fazer. Queria acabar os seus dias em Xá-Muteba e proporcionar um túmulo decente para Catxi, no cemitério. Sabia que isso era complicado e caro, mas dinheiro continuava a sobrar-lhe e se houvesse impedimentos burocráticos pediria ajuda aos filhos.

Propôs ao seu amigo construir-lhe uma casa maior, com um cómodo para ele.

Foi complicada a papelada para não só procurar os restos mortais de Catxi, como transferi-los para o cemitério. Nada que o dinheiro não pudesse comprar. E logo mandou fazer um pequeno jazigo para que ele, em breve, viesse a ficar junto da sua companheira querida.

O tempo estava contado.

Pronta a casa do soba que entretanto arranjou guarida para o seu amigo, e resolvido o problema funerário, com poucos dias de diferença, ambos finalmente descansaram.


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