PENA & LÁPIS


Uma derrota em democracia

Por Inácio Natividade
Sol Português

A democracia americana foi edificada por forma a que os derrotados acatem o resultado da expressão da vontade eleitoral nos 50 estados da união conhecida por Estados Unidos da América. O Presidente não é eleito pelo voto directo, mas por uma instituição chamada colégio eleitoral, bastando pela lei que o vencedor chegue a 270 votos para ser eleito. Os derrotados podem ficar tristes, desconsolados e inconformados, mas no fim acatam a vontade do povo.

Seria um modelo perfeito, não surgisse alguém com a têmpera de Donald Trump que recusa reconhecer o resultado eleitoral, o que a priori põe em causa a democracia. Trump até ao momento não quer assumir as projecções dos Estados que dão vitória a Biden, rompendo com uma tradição em que o perdedor reconhece a derrota e oferece a sua colaboração ao Presidente eleito.

Nada extraordinário num autocrata populista, averso a factos e que cultivou verdades alternativas tal como todos os fascistas operam, acreditando apenas no que pensam e no que lhes sai da boca. Colocou na sua mente que se ele perdeu, a democracia também perdeu. Deve ser desacreditada.

Acredito piamente que Donald Trump sofra de problemas de foro psíquico-mental graves. Um homem perigoso, que transformou o partido Republicano num culto onde ele é a figura principal e orador.

Além do mais, radicalizou ideologicamente o partido Republicano com a adesão de seres descerebrados que apenas acatam a vontade do próprio Trump. Com a espinha dorsal formada de neo-nazistas, neo-fascistas e supremacistas brancos, tornaram-se comuns os confrontos e as agressões físicas e, alegadamente, mesmo assassinatos politicamente motivados de apoiantes de Donald Trump contra as minorias étnicas.

Não posso afirmar que todas as pessoas que votaram em Trump sejam necessariamente estúpidas ou desonestas. Houve muita gente honesta a deixar-se levar em cantigas e na onda enganadora de conotar os Democratas com o socialismo e o comunismo. Pessoas que votaram em causas e não em Trump.

Trump deve deixar de actuar como totalitarista e deixar a democracia americana florir.

Após a certificação dos votos não pode haver dois eleitos no resultado final da contenda. Donal Trump sabe-o, por isso, usando de artimanhas, vem alegando fraude eleitoral na intentona de interromper a contagem dos votos.

Falta apenas a certificação dos resultados, com cada estado a dar os resultado final. O processo leva algumas semanas, com cada condado a certificar os resultados da sua região e a enviá-los às autoridades eleitorais estaduais num prazo que varia de local para local.

Muitos dos Estados já concluíram esse processo, mas em muitos o período de certificação permanece aberto.

Postscriptum

Qualquer movimento de cariz populista e nacionalista é reconhecido pela sua retórica racista e xenófoba. Quando na oposição política, faz muito ruído, aglutina emoções e massifica mentiras contra o poder constituído, mas chegado ao poder frustra as expectativas e, dada a sua natureza de cariz totalitária, recusa-se a abandonar o poder.

Foi assim na Alemanha de Hitler, de 1933 a 1955 com o nacional socialismo, ideologia do nazismo, na Itália fascista de Mussolini, de 1922 a 1943, na Espanha fascista de Franco, de 1935 a 1975, e no Portugal colonial fascista de Salazar.

A política não é emoção. Deve haver uma plataforma política, económica e social que faça mover corações e o discernimento político. Quando os movimentos populistas surgem, as democracias correm perigo dada a sua incompatibilidade com as regras de jogo da democracia.

O populismo de Donald Trump teve tudo para dar errado. O proteccionismo económico e a ruptura com organizações internacionais em prol de um culto interno à sua personalidade são evidencias de que o país caminhava para um fanatismo ideológico e seus lunáticos sem retorno à vista.

O que sucedeu nos países europeus acima citados, embora em épocas diferentes – refiro-me ao historial de guerra e violência – leva-me a colocá-los em paralelo ao estado de ânimo da ascensão do populismo e intolerância racial e política na América de Trump. O final seria sempre o desastre e a queda de uma presidência que apenas cederia a coerção, violência ou guerra.


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