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Dia dos Ex-Combatentes assinalado em Oakville

Por João Vicente
Sol Português

Desde 2012, quando foi inaugurado, que o monumento aos combatentes de Portugal e do Canadá erigido no cemitério Glen Oaks, em Oakville, tem sido o local de uma cerimónia anual destinada a assinalar o Dia dos Ex-Combatentes.

Este evento anual voltou a realizar-se no passado domingo (15) e nele participaram um contingente de ex-militares portugueses que combateram no Ultramar, familiares e amigos, num total de cerca de três dezenas de pessoas.

Pelas 11h00 da manhã, o grupo reuniu-se junto ao monumento localizado no jardim Nossa Senhora de Fátima para comemorar esta data.

Entre os participantes estava Manuel Macedo de Jesus, "soldado de transmissões 184-4-41, de '70", como se identifica, e que levou consigo um álbum com fotografias do período em que cumpriu o serviço militar em Angola, de 1971 a 1973.

Manuel Jesus acha importante folhear aquelas páginas para lembrar e mostrar o que os soldados por lá passaram.

Junto às fotos de camaradagem entre soldados, brincadeiras, interacção com a população local e outras, chama especial atenção para uma imagem de duas crianças, de barriga protuberante, um sinal actualmente reconhecido em todo o mundo como sendo indicativo de desnutrição.

"Naquela altura não dávamos conta, mas hoje faz dor de coração, dor de alma, ver estas fotografias porque era muito triste", diz com pesar, lembrando que "era muita miséria, era muita fome" e que, ainda que existissem factores culturais para essas condições, a guerra também teve muito a ver com isso.

Joaquim Hilário Silva, que foi destacado para a Guiné durante 26 meses, considera que a única coisa boa que de lá trouxe foram as amizades e a camaradagem com os colegas, mas – e talvez por isso mesmo – acrescenta que "enquanto formos vivos, temos e devemos de fazer uma homenagem" aos combatentes portugueses que tombaram no Ultramar e noutras guerras.

Entretanto, para o presidente do núcleo de Toronto da Liga dos Combatentes, é o que esta cerimónia representa que mais o emociona.

"Para mim tem um significado maior do que, por exemplo, o encontro anual que fazemos, porque isto aqui é quase como um `Remembrance Day' dos nossos soldados", refere Luís Vieira, adiantando que, "apesar de nunca vir assim muita gente", o significado "é muito grande".

Devido ao mau tempo, o local escolhido para o início desta cerimónia foi o alpendre do mausoléu Última Ceia, pois sempre oferecia algum abrigo do vento e da chuva.

Foi ali que Luís Vieira se dirigiu brevemente ao grupo, antes de passar a palavra ao tesoureiro da organização, Manuel Barreto, que se encarregou de ler uma carta do presidente da Direcção Central da Liga dos Combatentes de Portugal, Chito Rodrigues.

Uma das lutas travadas por esta organização tem sido no sentido da reabilitação da memória do único soldado português que foi executado durante a Primeira Guerra Mundial, João Ferreira de Almeida, fuzilado por alegada tentativa de deserção.

"Após três anos da proposta da liga do governo e sucessivas solicitações aos órgãos de soberania, sua excelência o Presidente da República, professor doutor Marcelo Rebelo de Sousa, precisamente a 16 de Setembro de 2017, 100 anos após o dia do fuzilamento, fez uma declaração pública da reabilitação moral do soldado", destacou o general Chito Rodrigues na sua missiva.

A cerimónia prosseguiu depois junto ao monumento aos ex-combatentes, onde Manuel Goulart interpretou com a sua harmónica os hinos do Canadá e de Portugal, seguidos do Toque do Silêncio, enquanto os porta-estandartes, Manuel Cunha e Victor Costa, ladeavam o monumento onde foram depositadas duas coroas de flores.

Enquanto isso, Adelino Cardoso, Frank Pita e João Fragoso hastearam as bandeiras do Canadá, de Portugal e da Liga dos Combatentes.

No final da cerimónia, realizou-se um almoço de confraternização na Casa do Alentejo de Toronto, onde vários dos participantes se dirigiram nessa tarde.

Arménio Costa, um dos fundadores da Comissão dos Ex-Combatentes do Ultramar, indicou estarem a tentar incentivar a adesão de novos membros, quer ex-combatentes, quer jovens.
Manuel Barreto, que tem sido um dos elementos mais activos deste núcleo, explica que o objectivo passa por envolver também as pessoas mais novas para que o legado desta organização possa ter continuidade.

Actualmente contam com cerca de 150 membros inscritos que, por uma pequena cota anual de 25 dólares, têm direito a várias regalias, incluindo a assinatura da revista trimestral do Núcleo dos Combatentes, assistência médica em Portugal e um cartão de desconto na compra de gasolina em Portugal.

Segundo indicou, qualquer pessoa se pode tornar membro apoiante pela mesma quantia e usufruir das mesmas regalias.

Este é um de três núcleos da Liga dos Combatentes no Canadá, estando os outros localizados em Winnipeg, na província de Manitoba, e em Laval, no Quebeque.


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