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Eternamente jovem, Luso-Can Tuna comemora 21.º aniversário

Por João Vicente
Sol Português

Com novos elementos a entrarem e a saírem todos os anos, a Luso-Can Tuna poderá muito bem considerar-se eternamente jovem em função da idade dos seus membros activos, mas ainda assim já lá vão 21 anos desde que este grupo musical estudantil arrancou no seio da comunidade lusa de Toronto.

No passado sábado (14), na presença de cerca de 300 convivas – entre os quais alguns fundadores – a efeméride foi comemorada de forma simples mas significativa, com um jantar no Centro de Convenções Pearson onde foi estrela do encontro o próprio grupo, que proporcionou o entretenimento.

A Luso-Can Tuna surgiu em Toronto em 1998, em resposta ao repto lançado durante uma visita à comunidade portuguesa pela Tuna Académica da Universidade dos Açores (TAUA), tendo o desafio sido aceite por um grupo de jovens luso-canadianos.

A actual vice-presidente da Câmara de Toronto, Ana Bailão, era uma das jovens que então fazia parte desse grupo de tunos-fundadores e no decorrer da comemoração de sábado afirmou sentir "muito orgulho" nos elementos que hoje estão à frente da tuna e que, olhando para trás, sente "que valeu a pena" e tinham razão quando há 21 anos acharam que a juventude iria continuar a interessar-se por este projecto.

"Era esse o nosso objectivo: criar algo que suscitasse o interesse dos jovens para eles se envolverem e conhecerem melhor a sua herança cultural, manterem a sua língua e a sua cultura, e é isso que vemos aqui hoje", afirmou a vereadora, destacando crer que "a maioria são já nascidos no Canadá" mas ainda assim, "com muito orgulho a promoverem aquilo que de melhor tem a cultura portuguesa e a manterem contactos com organizações e tunas académicas em Portugal – o que é bom também para eles", referiu.

Daniela Simões, uma das novas aquisições da tuna, exemplifica isso mesmo pois é natural de Viseu, estuda psicologia na Universidade de York e diz gostar "muito" destas tradições.

"Adoro a música e queria viver isto, e poder estar com as minhas raízes, conhecer novas pessoas, praticar a língua e não perder esta coisa bonita que a gente tem em Portugal", como explica à nossa reportagem.

É frequente novos elementos aderirem por já terem um familiar ou amigo no grupo e Lucas e Kelly Alves são disso exemplo, dois irmãos que integram a tuna à semelhança de vários outros.

Durante dois anos e na sua condição de aprendiz, Lucas fez por merecer o traje enquanto manuseava e demonstrava as suas habilidades malabaristas com o estandarte, mas agora está a aprender o bandolim e diz-nos que o que mais aprecia é a amizade e a camaradagem entre os colegas.

Por seu turno a irmã, que já fez parte da Instituna de Leiria, toca guitarra e ajuda a ensinar os novos elementos.

Foi há seis anos que, acabada de chegar ao Canadá e sem amigos nem rede social, Kelly descobriu a Luso-Can Tuna e, como nos diz, em menos de nada tinha um ambiente familiar onde continua integrada, mesmo sem já ser estudante pois só "casa-trabalho e trabalho-casa não é vida para ninguém".

Ao longo dos anos a Luso-Can Tuna tem realizado e participado em vários intercâmbios e se para a presidente/magistra, Sandy Costa, as actuações no Porto, em Leiria ou em São Miguel – onde no ano passado ajudaram a tuna-madrinha, TAUA, a celebrar o seu 25.° aniversário – são as que recorda com mais carinho, foi a deslocação a Querétaro, no México, que mais a marcou por ter apreciado os trajes tão diferentes dos lusitanos.

Já para a maestra, Catarina Gomes, foi a actuação em Leiria, no castelo e com a cidade a seus pés, que mais a emocionou e que regista na sua memória, o que não deixa de ser interessante, considerando que quando os pais a convidaram, ainda criança, para ir ver o Festival Internacional de Tunas no Canadá (FITCa) em 2007, foi contra-vontade, sendo exactamente aí que foi mordida pelo bichinho e se apaixonou pelos trajes, pela música e pela tradição.

Presente a este convívio esteve também o cônsul-geral de Portugal em Toronto, Rui Gomes, que embora nos confessasse nunca ter integrado a tuna da sua universidade porque nunca teve "jeito para cantar nem dançar", garante sempre ter apreciado e admirado esta tradição.

Foi por isso "com prazer", referiu, que compareceu e registou o momento, ainda para mais sendo esta a única tuna portuguesa na América do Norte, o que, segundo ele, soma "motivos mais que suficientes para estarmos de parabéns".

Isso mesmo fez questão de transmitir pessoalmente à presidente da tuna, ao mesmo tempo que agradecia "por manterem viva esta tradição tão bem conhecida no meio universitário português e que nos dignifica aqui também, no meio universitário canadiano", salientou o diplomata.

Tanto Ana Bailão como a deputada federal Julie Dzerowicz teriam oportunidade de dirigirem também algumas palavras ao público, esta última a dar os parabéns à tuna "pelo papel que desempenha na preservação e divulgação da língua, cultura e tradições portuguesas", enquanto que a vereadora e vice-presidente da Câmara de Toronto reflectiu sobre a forma como um grupo de jovens levou avante este projecto, que não só perdura como tem sido "muito bem recebido e acarinhado pela comunidade".

Mas a verdade é que o interesse já vai além da comunidade lusa, pois um dos novos elementos é de ascendência alemã e polaca e confessa que a experiência "tem sido fantástica", pois "são todos tão acolhedores" que nunca chegou a sentir-se "como uma novata".

Olivia Buchholz ingressou na tuna em Julho, após assistir a uma actuação, pois, como destacou, além de apreciar a música descobriu a "dinâmica familiar" que une os seus elementos mesmo quando deixam de estar no activo.

Por sua vez, Júlia Galle, filha de pai italiano e mãe portuguesa, sente-se ligada a ambas as culturas e para ela a tuna é a forma como se liga ao seu lado português, sendo que se considera um exemplo do "sonho canadiano" por viver em sua própria casa o multiculturalismo que define o Canadá.

Um dia, por acaso e depois do avô ter sofrido um acidente que lhe afectou a cognição e o deixou impossibilitado de expressar em inglês, Júlia descobriu a tuna e desde logo reconheceu nisso "um sinal lá de cima", o que a levou a melhorar o seu português para poder comunicar com ele.

Ao mesmo tempo, garante ter ganho uma segunda família da qual não tenciona separar-se por muito tempo.

No decorrer do convívio aniversariante, as jovens Sara Marques e Chiara Picão encarregaram-se da apresentação, mas foi o ex-tuno Chris "Corisco" Freitas quem viria a chamar ao palco a tuna para a sua actuação – que teve som e luzes a cargo de Tony Silva, da TNT FX.

Ao longo de perto de uma hora os tunos demonstraram os seus dotes vocais e instrumentais ao interpretarem uma variedade de temas do seu repertório, incluindo alguns da sua autoria, e concluíram a sua actuação com cerca de uma dezena de ex-elementos que convidaram para se lhes juntarem em palco para interpretarem as duas últimas canções.

A festa, porém, continuou com música para dançar, num serão animado e que viria a registar ainda a passagem de Gonçalo Nuno dos Santos, técnico superior do Governo Regional da Madeira e candidato à Assembleia da República como cabeça de lista do CDS pelo círculo de fora da Europa, que fez questão também de elogiar a actividade da Luso-Can Tuna.


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