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Tradições pascais na Associação Cultural do Minho de Toronto

Por João Vicente
Sol Português

Os convivas que no domingo (16) acorreram ao evento pascal organizado pela Associação Cultural do Minho de Toronto (ACMT) foram recebidos por jovens vestidos com trajes da região que lhes ofereciam doces e uma "pinguinha" de vinho do Porto.

Como nos explicou o presidente desta colectividade, Augusto Bandeira, é tradição no norte de Portugal fazer-se a visita pascal, o chamado "Compasso", que vai de porta em porta para dar a cruz a beijar.

Como era costume oferecer algo de comer e beber aos elementos que integravam o cortejo, aqui, ao receberem os convivas – sócios e simpatizantes da colectividade – os seus responsáveis tentam fazer a mesma coisa; daí a presença dos jovens, em trajes tradicionais, a acolherem quem chegava à porta.

"No Minho o Compasso anda acompanhado por concertinas, bombos e Zés Pereiras, por exemplo, dependendo da freguesia", diz-nos, relatando o clima de festa que se vive nesta altura.

Segundo nos explica, era obrigatório a todos quantos abriam a porta ao compasso dar um folar, mas para aqueles que não tinham, era estipulado que um casal desse um quarto de rasa, uma família pequena meia rasa e famílias grandes uma rasa de milho, feijão ou outro produto agrícola, conforme o padre ia decidindo.

Os produtos recolhidos – incluindo ovos, arroz ou açúcar, dependendo da riqueza das pessoas – eram entregues ao padre que depois vendia o que não podia consumir e assim conseguia algum dinheiro, pois a maior parte da população não tinha bens monetários para lhe dar.

No Canadá, foi a ACMT a primeira colectividade a dar vida a esta tradição e para o fazer, devido à logística necessária para a manter viva numa cidade tão grande e com a população portuguesa tão dispersa, passou a chamar o Compasso à sua sede, ali reunindo os "paroquianos".

Além dessa concessão à tradição, é ainda hábito comer o cabrito com arroz de miúdos e grelos na Páscoa, mas como por cá há muita gente que não gosta, o acompanhamento foi feito com salada e arroz branco.

De resto a ACMT tenta manter-se o mais fiel possível às tradições originais, garante Augusto Bandeira, que nos relata que esta colectividade já chegou a ter mais de 700 convivas nesta cerimónia pascal.

Mais recentemente houve uma grande quebra, mas enquanto em 2016 os convivas não passaram dos 270, este ano foram 350, pelo que considera que a tendência está agora a evoluir na direcção certa.

Pouco a pouco, o público foi enchendo o salão do Ukrainian Hall, onde o encontro decorreu, e quando se encontrava já repleto, por volta das 13h30 deu-se início à cerimónia do beijar da cruz.

O padre João Mendonça, da Igreja de São Sebastião, começou por explicar o significado e a importância desta data na fé cristã, primeiro em português e depois em inglês, de forma resumida, para que também os mais jovens que já não são fluentes na língua dos pais pudessem compreender.

O beijo "é acolhimento", "partilha", "boas-vindas", destacou o padre Mendonça, lembrando que é significado também "de que acolhermos na nossa vida aquele amor que Deus tem por nós" ao ressaltar que a misericórdia, o perdão, o respeito, a dignidade e a paz são valores contidos na bênção do beijar da cruz.

A seguir à oração e leitura, o reverendo percorreu o salão aspergindo água benta, soaram as campainhas e os fiéis foram chamados a formar uma fila para a cerimónia.

Enquanto Tânia Barbosa entoava alguns cânticos, um a um, os fiéis foram beijando o crucifixo e dando lugar ao próximo enquanto depositavam uma dádiva monetária num cesto.

Finda a cerimónia, foi altura de servir o almoço e começar a festa, que teve som e música a cargo do conjunto Unique Touch, proporcionando um pezinho de dança.

O rancho da colectividade aproveitaria ainda a ocasião para apresentar uma nova dança, intitulada Vira Novo de Santa Marta.

A ACMT, que celebra este ano o seu 40.° aniversário, tem já planeada uma Semana Cultural "fora de série", como nos referiu Augusto Bandeira, indicando que a abertura será no Dia de Santoínho, com o popular cantor Augusto Canário e amigos, havendo jantares temáticos durante toda a semana e um jantar de gala, a 14 de Outubro.


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