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Tradição do beijar da cruz leva fiéis à Casa das Beiras em domingo de Páscoa

Por João Vicente
Sol Português

Nas aldeias beirãs, por ocasião da Páscoa, era costume o padre ir de casa em casa para dar a beijar a cruz aos fiéis que, desejando fazê-lo, haviam sinalizado a sua intenção colocando um tapete de flores à entrada.

O "Compasso Pascal", como é conhecido, era composto por um pequeno grupo de paroquianos que acompanhavam o sacerdote, enquanto uma criança seguia à sua frente a tocar a sineta que avisava as casas vizinhas da sua proximidade.

A cruz, que representa a presença de Jesus vivo, percorria assim as casas dos paroquianos que tivessem manifestado a sua vontade de receber a visita de Jesus Ressuscitado no dia de Páscoa.

Numa cidade como Toronto, com a comunidade portuguesa dispersa por uma área geográfica que abrange centenas de quilómetros quadrados, isso não seria prático, pelo que a colectividade beirã local convida os associados e simpatizantes que queiram participar nesta tradição a visitarem a sua sede no domingo de Páscoa.

Assim acontece desde a sua fundação, primeiramente como Académico de Viseu (a sua prévia encarnação) e desde há vários anos como Casa das Beiras de Toronto, onde no passado domingo (16) cerca de duas centenas de pessoas se deslocaram.

Em cima de uma mesa estavam dispostos vários artigos cujo significado o presidente da colectividade, Bernardino Nascimento, fez questão de nos explicar.

"Desde que me lembro, quando era miúdo e o padre vinha à aldeia para dar a beijar a cruz, era obrigatório e tradição termos em cima da mesa um bolo, um queijo da serra, laranjas, uns ovos da Páscoa e a moeda que vai em cima da laranja", conta-nos com emoção.

"Também era tradição que a última pessoa do programa da região levasse aquela moeda, como uma oferta que a casa fazia às pessoas", continuou.

O padre Heitor Antunes, que veio da paróquia de Santa Maria de Hamilton para proceder à cerimónia, como bom natural de Trás-os-Montes é conhecedor desta tradição e já a praticou em Portugal.

Assim, e após um tradicional repasto de cabrito assado no forno, o pároco e os seus ajudantes entraram na sala em cortejo, fazendo soar as campainhas.

O sacerdote começou por explicar a sua experiência com esta tradição em Portugal e destacou a importância que as pessoas dão à cerimónia, que dura talvez um minuto ou dois – período durante o qual se dá a cruz a beijar e se faz o anúncio pascal – concluindo que "não podemos medir os gestos pelo tempo que demoram, mas sim pela intensidade que têm".

No decorrer da cerimónia, propriamente dita, fez uma leitura alusiva ao domingo de Páscoa e terminou com a proclamação: "Cristo ressuscitou, aleluia, aleluia!", que foi repetida pelos presentes assim como um cântico que se escutou enquanto seguia pela sala aspergindo água benta.

A pedido da Direcção, os primeiros a beijar a cruz foram os membros e voluntários que trabalharam na cozinha, formando-se então uma fila de fiéis.

Segundo os responsáveis, os fundos recolhidos através deste evento destinam-se a ajudar os mais necessitados.

Bernardino Nascimento reiterou ainda a sua intenção de dar continuidade à tradição, "enquanto a casa das Beiras existir e houver quem nela tenha interesse".

"Este domingo de Páscoa é muito nosso, muito tradicional, e muitas pessoas vivem isto", esclareceu, adiantando que "podem não passar aqui durante o ano, nos outros eventos, mas no domingo de Páscoa aparecem".

Após a cerimónia religiosa seguiu-se uma tarde de convívio e variedades abrilhantada pelo conjunto musical Além Mar, que animou a matinée com temas populares até à conclusão das festividades.


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