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Paróquia de São Francisco de Assis:

Estações da cruz recriadas em dramática procissão assistida por milhares de crentes

Por João Vicente
Sol Português

Foi com a banda Lira Nossa Senhora de Fátima da Igreja de Santa Inês e com as bandeiras do Canadá, do Ontário, dos Açores e de Portugal a abrir o cortejo que a icónica procissão de Sexta-Feira Santa da paróquia de São Francisco de Assis saiu à rua, apresentando um retrato vivo do suplício de Jesus rumo ao Calvário.

A procissão, que ilustra as doze estações da cruz, é uma tradição em Toronto desde meados do século passado, onde nasceu junto da comunidade italiana da cidade, mas há já muitos anos que a comunidade portuguesa passou também a ter um papel importante, quer com elementos que integram o cortejo quer na assistência, dado muitos dos que residem no local serem de origem lusa.

Dava ainda o cortejo os primeiros passos, literalmente, quando um camião dos bombeiros passou com as sirenes a apitar e as luzes a piscar, rumo a uma emergência.

A partir daí, porém, tudo correu normalmente ao longo dos cerca de dois quilómetros do circuito que levaram às centenas de figurantes perto de três horas a percorrer, com os espectadores nos passeios a alinharem-se praticamente ombro a ombro – e por vezes até dispostos em múltiplas filas, atrás umas das outras – já para não falar das muitas famílias que assistiam das suas janelas e varandas.

Ali encontrámos Jacinto e Teresa Medeiros, dois portugueses que todos os anos assistem à procissão e que Jacinto nos diz recordar-se de ver desde que chegou ao Canadá, há 63 anos.

Apesar de já estarem habituados aos "quadros vivos" que representam as estações da cruz, ao verem os romanos empurrarem e chicotearem Jesus Cristo – e os actores que representam esses papeis esmeram-se realmente no seu retrato – não se contiveram e instintivamente soltaram uma exclamação de viva voz: "é demais!"

É que, como nos explicou Teresa Medeiros, com o passar dos anos sentem-se cada vez pior a verem os maus-tratos a que Jesus foi submetido.

Entretanto, outro "quadro vivo" representava os passos de Cristo desde a sua condenação à crucificação e morte no Calvário, e o figurante que o desempenha e carrega a cruz é já um veterano destas andanças.

Joseph Rauti, de 78 anos de idade, começou a fazer esse papel há 48 anos e admite que, actualmente, a cruz se lhe afigura bem mais pesada.

Mas nem todas as estações da cruz são representadas por "quadros vivos", os quais foram introduzidos apenas nos anos '90.

Na verdade, inicialmente a procissão consistia apenas de duas estátuas, que representavam Nossa Senhora das Dores e o corpo de Jesus Cristo, e só mais tarde foi evoluindo e crescendo até incluir uma representação de todas as estações da cruz , tornando-se na maior procissão da América do Norte.

Hoje em dia são muitas as versões de Cristo que desfilam no cortejo e que representam as diferentes fases pelas quais Jesus passou, quer em imagens, quer representadas ao vivo por figurantes, além de soldados romanos, inúmeros pastores, apóstolos, Marias e assim por diante.

Integrados no cortejo surgem muitas das organizações comunitárias e religiosas locais, várias bandas filarmónicas, dignitários e políticos que representam os diferentes níveis do governo

Entre estes, um grupo representava o Congresso Nacional Italo-Canadiano, sendo ainda notável a participação da deputada provincial que representa o distrito de Davenport, Cristina Martins, assim como do seu congénere Han Dong e do vereador Mike Layton, ambos em representação de Trinity-Spadina, onde decorreu a procissão.

O delegado escolar Frank D'Amico, a ministra dos Negócios Estrangeiros, Chrystia Freeland – deputada federal eleita pelo distrito de University-Rosedale – assim como o deputado federal por Spadina-Fort York, Adam Vaughan, foram outros dos políticos que vimos integrados na procissão.

O desfile religioso terminava com o bispo John Boissonneau, responsável pela região oeste de Toronto, e o frade franciscano Conrad Fernandes, da paróquia de São Francisco de Assis, na cauda do cortejo, seguidos das imagens que representavam o corpo de Jesus e Nossa Senhora das Sete Dores, e de mais uma banda filarmónica da comunidade italiana.

A procissão percorreu os cerca de dois quilómetros assistida por milhares de pessoas – começou na Igreja de São Francisco de Assis, de onde se dirigiu no sentido sul pela rua Grace abaixo até desembocar na Dundas, continuando no sentido Oeste até à avenida Montrose e prosseguindo então para norte até à College, virando depois à direita em direcção à Manning e prosseguindo até à Mansfield para voltar à origem – numa demonstração clara da importância da quadra pascal no calendário religioso cristão e do quanto este cortejo se afirmou como um dos eventos mais significativos da cidade.


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