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"Fátima" em ante-estreia no Ontario Place

Por João Vicente
Sol Português

Uma nova longa-metragem sobre os acontecimentos que em 1917 transformaram Fátima num dos mais importantes epicentros do mundo cristão fez na pretérita quarta-feira (12) a sua ante-estreia no Canadá, numa iniciativa da Federação de Empresários e Profissionais Luso-Canadianos (FPCBP, na sigla em inglês).

A exibição especial do filme "Fátima", do realizador Marco Pontecorvo, reuniu um naipe de convidados especiais, incluindo a tenente-governadora do Ontário, Elizabeth Dowdeswell.

Matthew Correia, que foi o co-organizador do evento juntamente com Angie Câmara Jr., conta-nos que se deparou com um cartaz do filme nas redes sociais em Fevereiro e achou que "este filme devia vir ao Canadá e a nossa comunidade devia participar de alguma forma".

Após estabelecer contacto com a Embaixada de Portugal no Canadá e com a distribuidora do filme no Canadá, a Elevation Pictures, a FPCBP começou a envidar esforços nesse sentido, reunindo parcerias e patrocínios.

A ante-estreia, inicialmente agendada para 13 de Maio, acabou por ter de ser adiada devido à pandemia de Covid-19, até que no fim de Junho houve uma reactivação desses esforços que se vieram a concretizar com a exibição na semana passada.

Minutos antes do início da exibição do filme, Matthew Correia dizia-nos sentir-se "muito orgulhoso" e "emocionado", citando Fernando Pessoa ao lembrar que "o homem sonha e a obra nasce".

Angie Câmara Jr., por seu turno, explica que cresceu "com a história de Fátima, uma história que é transmitida de geração em geração, especialmente na comunidade portuguesa entre os católicos" por isso não conseguiu resistir ao ter conhecimento da intenção de apresentar o filme em ante-estreia.

"Para mim foi uma oportunidade para retribuir a esta comunidade portuguesa de Toronto, onde somos 200.000, e ao Canadá em geral, onde somos meio milhão" de luso-canadianos, referiu.

Segundo Angie Câmara Jr., que diz tê-lo feito pela mãe – que considera uma pessoa muito devota – foi importante "garantir que ia ter um toque português, daí que os saquinhos de brinde" que foram distribuídos pelos convidados "incluíssem pastéis de nata, água do Luso e Sumol" e tivessem também "guitarristas de fado" para criar ambiente.

Tal como os restantes intervenientes na organização do evento, incluindo a presidente da FPCBP, Eduarda Lee Sousa-Lall, que tiveram oportunidade de ver o filme antecipadamente e optaram por não o fazer, também Angie Câmara Jr. preferiu aguardar e partilhar o momento com todos quantos se deslocaram nessa noite ao Ontario Place.

"Mandaram-me uma ligação para o filme mas eu não o vi porque queria experienciá-lo com toda a gente", diz-nos satisfeita.

Para Eduarda Lee Sousa-Lall, que nos revelou que ainda o ano passado tinha estado em Fátima, esta ante-estreia foi um momento "surreal" e "uma bênção", para isso contribuindo o facto de se realizar no Ontario Place em ambiente de "drive-in" e por sentir-se "honrada de poder assistir a este filme com a família".

Vindo de Otava, o embaixador de Portugal no Canadá, João da Câmara, disse ter "as mais altas" expectativas para o filme, pois "Fátima, para crentes ou não crentes, é um verdadeiro fenómeno em Portugal" e "não é todos os dias que temos aqui no Canadá uma produção internacional de um filme que trata um tema português e que nos faz, com certeza, muito orgulhosos".

O diplomata mostrou-se confiante de que a longa-metragem a que estava prestes a assistir se viria a revelar uma produção de qualidade, capaz de fazer jus ao tema e à mensagem de paz de Fátima "que é tão precisa no mundo e une e reúne as pessoas", salientou.

A propósito da forma como a ante-estreia do filme iria decorrer, com os espectadores a assistirem na segurança das suas próprias viaturas, o embaixador indicou dar-lhe a possibilidade de ter uma experiência nova.

"Para mim são circunstâncias felizes, na medida em que nunca tinha estado num drive-in na minha vida e isto foi uma boa oportunidade" que decerto não se teria proporcionado em circunstâncias normais, ressalvou.

Entretanto, questionada sobre como se sentia como portuguesa prestes a assistir a um filme sobre algo que é tido em tão alta consideração por tanta gente, também a directora-executiva do Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF, na sigla em inglês), Joana Vicente, salientou a aura criada pelo local onde ia ser exibido.

Segundo nos diz, não hesitou em aceder ao convite assim que o recebeu, aludindo ao carácter já histórico do tema de Fátima.

O facto de conhecer pessoalmente alguns dos participantes nesta produção, incluindo o actor Harvey Keitel, com quem já trabalhou como co-produtora do filme "Three Seasons", e de ter noção do trabalho e do calibre de alguns dos outros intervenientes aguçou-lhe ainda mais a curiosidade.

Apesar de confessar que se distanciou da religião católica com que cresceu – embora à margem, pois os pais "não eram muito crentes" – Joana admite que é um tema que "tem sempre significado".

Já para o padre João Mendonça, pároco da igreja de São Sebastião em Toronto, a expectativa era de que os autores desta obra cinematográfica fossem fiéis à "mensagem verdadeiramente de Fátima" e a transmitissem "ao mundo".

Essa mensagem, destaca, é em primeiro lugar a oração "que é importante [pois] é uma maneira de estarmos ligados profundamente a Deus", mas também "[uns] aos outros", uma vez que é assim que "a relação com Deus é praticada, testemunhada e vivida".

Ao mesmo tempo é também uma chamada à "penitência" já que como explica, "toda a mudança na nossa vida é um certo sacrifício, o que não é fácil para nós porque o sacrifício leva-nos a olhar para o nosso interior, para que a mudança possa acontecer", algo que descreve como "conversão, que foi outro ponto principal da mensagem de Fátima".

Por fim, "a mensagem também central, por intermédio da oração, da penitência e da conversão" que nos leva a ter "uma experiência de paz", a qual "somos chamados a transmitir" ao tornarmos-nos "construtores de paz".

Como salienta, "mais do que nunca no mundo em que vivemos, necessitamos de cuidar um do outro e de continuar cada vez mais a construir a paz para vivermos muito mais como irmãos e irmãs", pois "na verdade o espírito cristão é de que somos responsáveis uns para com os outros".

Quanto ao facto da mensagem de Fátima ter sido comunicada a três humildes pastorinhos, o pároco de São Sebastião salienta que "uma das coisas que nós podemos aprender com essas crianças é a fé" e lembra que a palavra significa ter total confiança em alguém e que aquelas crianças "por intermédio da sua fé simples e humilde, colocaram a sua total confiança em Maria, na mãe de Jesus, e mantiveram sempre essa fé".

Este é, para o padre João Mendonça, um dos pontos principais da história de Fátima pois foi a fé inabalável das crianças que as ajudou a enfrentar a forma como foram tratadas e julgadas visto que "ninguém quer acreditar em crianças", "principalmente naquele ambiente em 1917, num lugar isolado e também como pastores do campo".

Antes da projecção do filme escutaram-se os acordes da guitarra portuguesa e da viola de fado dedilhadas, respectivamente, pelos músicos Hernâni Raposo e Valdemar Mejdoubi, até que subiram ao palco os organizadores e se escutaram alguns discursos, pontuados pelos "aplausos" das buzinas dos carros onde o público convidado assistia.

Pouco depois e com o aprofundar do crepúsculo um silêncio quase total passou a reinar naquele espaço, até começarem a passar as primeiras imagens do filme no ecrã, cujo som a assistência pôde acompanhar sintonizando uma frequência específica nos seus rádios.

Calcula-se que tenham assistido a esta ante-estreia entre 400 a 500 espectadores repartidos por cerca de 200 viaturas, tendo o cenário de Toronto e do lago Ontário como pano de fundo e as estrelas como tecto.

"Fátima" estreia oficialmente nas salas de cinema e nos serviços "on demand" na próxima sexta-feira, dia 28, podendo o público assistir desde já à apresentação de excertos do filme no portal www.fatimathemovie.com.


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