1ª PÁGINA


Casa do Alentejo de Toronto:

Dois dias de festa nas comemorações do 37.º aniversário

Por João Vicente
Sol Português

A Casa do Alentejo de Toronto (CAT) esteve em festa no passado fim-de-semana para comemorar o 37.º aniversário desde a sua fundação, efeméride que foi assinalada com uma recepção e "Alentejo de Honra" na noite de sexta-feira (14), e continuou no dia seguinte, sábado (15), com um jantar e Gala de Fado abrilhantada por artistas locais e pelos fadistas Jorge Nunes e Débora Rodrigues, vindos de Portugal.

As actividades começaram na noite de sexta-feira com o mestre de cerimónias, John Santos, a dar as boas-vindas ao público no salão azul da colectividade, antes de proceder à apresentação do Grupo Coral da Casa do Alentejo que interpretou os hinos do Canadá, de Portugal e da CAT.

Ainda no salão azul, Carlos de Sousa, que preside ao Executivo desta colectividade, chamou junto de si os presidentes da Assembleia-Geral e do Conselho Fiscal, respectivamente, João Cruz e José Luís, procedendo de seguida à apresentação do convidado de honra, o cônsul-geral de Portugal em Toronto, Rui Gomes, bem como da directora do escritório de representação da Caixa Geral de Depósitos, Marisol Ribeiro, e do conselheiro permanente das Comunidades Madeirenses, José Rodrigues.

Patentes ao público naquele espaço encontravam-se duas exposições, uma de pintura e outra de bordados.

Fernanda Carvalho, que ensina português nas escolas de Sta. Helena e Novos Horizontes mas, como nos diz, vem de uma família quase toda de artistas, incluindo a mãe e a irm㠖 que considera pintarem "muito bem" – foi a autora das obras expostas.

A artista refere que há muito que gostava de fazer trabalhos manuais quando se decidiu a experimentar também a pintura e começou por oferecer alguns dos seus quadros à família e amigos.

Só agora decidiu dar o próximo passo e mostrar as suas obras ao público, escolhendo para esta exposição uma selecção centrada em pintura abstracta.

A outra exposição em curso destaca a arte de bordar e inclui algumas peças feitas por Rosa Maria Marchão que nos diz que a sua preferência é o ponto de Arraiolos – técnica através da qual já produziu até tapetes enormes desde que há seis anos começou a aprender e se dedicou a esta actividade, afirma com orgulho.

À CAT levou alguns bordados mais pequenos, emoldurados, e referiu gostar muito desta actividade porque além de lhe permitir dar largas à sua inclinação artística e ocupar o tempo de forma construtiva, "faz muito bem à mente" e serve como forma de "terapia".

Segundo apurámos, a artesã Odete Ribeiro oferece aulas de bordados na CAT todas as sextas-feiras, no horário das 11h00 às 16h00.

Para o cônsul Rui Gomes, esta colectividade "é uma das associações mais emblemáticas da comunidade portuguesa em Toronto" e "das mais dinâmicas", já que além das suas mostras culturais e de servir de ponto de encontro oferece ainda ao público a oportunidade de degustar a culinária nacional e regional no restaurante "O Sobreiro", localizado nas suas instalações onde serve diariamente .

A seu ver, é importante destacar o aniversário da CAT e o seu papel no seio da comunidade portuguesa já que, como ressalvou, "celebrar 37 anos é algo que nos deve encher a todos de orgulho".

Por seu turno, Carlos de Sousa, que há 26 anos está envolvido na organização – 11 dos quais à frente do Executivo – considera esta instituição "um marco da nossa comunidade, tanto em termos históricos como culturais".

Lamentando a ausência nesse dia da sócia número um, Rosa de Sousa, por motivos de saúde,o presidente da CAT enalteceu a relações públicas por continuar a trabalhar e a dar o seu contributo para a causa, mesmo de casa e doente.

A propósito das mais recentes e próximas realizações, Carlos de Sousa expressou a sua frustração por este ano não se poder "pôr a cultura à frente de tudo", pois, como destacou, quando retomou a presidência deu com a casa financeiramente instável, tendo sofrido entretanto outro revés, desta feita devido a um engano do fisco canadiano que cobrou quase 30.000 dólares em impostos,

Apesar disso, refere com orgulho que foi possível realizarem uma Semana Cultural "excelente e bastante lucrativa", tal como a festa de Passagem de Ano, salientando que mais recentemente foram redobrados os esforços no sentido de alugar o salão com mais frequência e realizar eventos em parceria com outras organizações.

Entretanto, indicou fazer também parte dos planos actuais apelar a organizações externas para que usem as instalações da colectividade e, sendo estas sem fins lucrativos, facultando-as gratuitamente – como acontece já com as aulas de capoeira, de artes marciais, de tapetes de Arraiolos e danças carnavalescas – partindo do princípio de que a casa tem a ganhar com o movimento que isso traz.

Exemplo disso é a parceria com as Irmandades que, como indicou, está já a dar frutos pois além de estarem a ensaiar nessa noite em simultâneo com a comemoração do aniversário da CAT, ajudando a movimentar o bar e o restaurante e proporcionando receitas que revertem para a colectividade, existe também um projecto de marchas para os Santos Populares, fruto da relação que têm vindo a nutrir, e que será dado a conhecer à comunidade por ocasião da Parada do Dia de Portugal.

Nessa noite, e após o Alentejo de Honra durante o qual os presentes brindaram à longevidade da Casa com um tinto alentejano, a festa passou para o salão nobre onde decorreu o jantar.

Ao longo do serão escutaram-se os discursos de várias entidades, incluindo da deputada federal Julie Dzerowicz, que representa o distrito eleitoral de Davenport em Otava.

O público pôde ainda apreciar uma actuação do Grupo Coral da Casa do Alentejo, culminando o serão com música de Louis Simão e seu quarteto.

Gala de Fado com Manuel da Silva, Jorge Nunes e Débora Rodrigues

Na noite seguinte, sábado, o tema para o serão de aniversário foi o fado e o espectáculo teve início logo após um jantar tradicional, centrado no bacalhau, reunindo em palco fadistas do continente e das ilhas.

Clara Abreu, que durante anos apresentou diariamente as notícias em português na OMNI TV, foi a mestre-de-cerimónias começando por chamar ao palco Manuel Silva, um apaixonado do fado que durante anos privou com Amália Rodrigues.

O fadista terceirense afirmou estar contente por abrir esta noite especial perante os fadistas convidados e viria a confessar sentir-se um pouco "desajeitado" ao interpretar o tema "Chuva", de Jorge Fernando, frente ao filho do autor, Jorge Nunes.

Contudo, se assim se afirmou depressa se recompôs e demonstrando os seus dotes de fadista exímio e uma voz bem característica levou o público a aplaudi-lo com entusiasmo.

Durante o intervalo proceder-se-ia ao sorteio de vários prémios, incluindo um televisor de 50 polegadas e uma viagem a Portugal, após o que os músicos Hernâni Raposo (guitarra portuguesa), Pedro Joel (guitarra de fado) e Sérgio Santos (viola-baixo) subiram mais uma vez ao palco, desta vez para acompanharem os fadistas Jorge Nunes e Débora Rodrigues numa actuação conjunta.

Já ambos haviam passado anteriormente por Toronto – para ele esta foi a quarta deslocação e para ela a segunda – pelo que a CAT é já ambiente familiar, mas como Jorge Nunes revelou, esta visita foi especial por ser a primeira em que o fez acompanhado da esposa, Débora Rodrigues, com quem se casou há pouco.

Esta foi também a primeira vez que actuaram juntos em palco, pelo que o público foi prendado com um espectáculo de fado em harmonia a duas vozes ao longo da maior parte da noite.

Questionado sobre a necessidade de separarem o lado profissional do pessoal, Jorge Nunes retorquiu "que os dois complementam-se", salientando que "aquela cumplicidade que é gira de ver em quem está em palco", é o que dão a demonstrar ao público, o que a seu ver "é uma mais valia".

De facto, essa cumplicidade esteve patente em todo o repertório que apresentaram, desde baladas a músicas alegres e fados tradicionais, mas especialmente na interpretação do tema brasileiro "Em Fantasia".

Madeirense de nascença, Débora Rodrigues Nunes – que salienta continuar a usar apenas Débora Rodrigues como nome de palco – foi para o continente com sete anos, onde teve uma vivência bastante semelhante à do esposo e de tantos outros que cresceram nas casas de fado e salões recreativos, onde frequentemente adormeciam nas cadeiras enquanto os pais escutavam, tocavam e cantavam, até um dia eles próprios serem "mordidos pelo bichinho".

Embora tenha dificuldade em se definir estilisticamente, reconhece que tende a preferir seguir a linha poética do amor, que considera "mais melódica", e acaba por classificar-se como uma fadista "mais versátil".

"Posso tanto no meio de um fado cantar mais canção – ser mais ligeira, ser mais brincalhona – como num fado tradicional ser muito mais pesada, muito fadista", explica a artista que considera que "isso tem a ver com o momento, com o público que nos está a ouvir" e "com os músicos que nos estão a acompanhar".

Acentuando o que julga ser o cerne desta questão, cita um dos seus músicos que, como nos conta, dizia que "o fado não acontece quando se quer – o fado acontece ou não, ponto".

Resumindo, conclui: "não sei dar assim uma referência que me defina enquanto cantora, a não ser que gosto imenso de cantar aquilo que é a minha verdade".

Ao longo de cerca de hora e meia de espectáculo, o público pôde apreciar uma gala que honrou e enalteceu a reputação da CAT como casa de fado por excelência, celebrando condignamente o seu aniversário através de três vozes bem distintas.

No final, os fadistas viriam a juntar-se para uma actuação conjunta na interpretação do clássico "Pode Ser Saudade", respondendo depois aos pedidos de "bis" da assistência ao darem por encerrado o espectáculo com o fado "Meu Alentejo".


Voltar a Sol Português