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TAP "viaja no tempo" até à década de '70

Por João Vicente
Sol Português

Os anos '60 e '70 foram um período áureo para a TAP - Transportes Aéreos Portugueses, pelo que ao celebrar 72 anos de actividade a companhia tenta agora recapturar um pouco dessa mística com uma iniciativa que considera apelar simultaneamente ao mercado da saudade e às novas gerações que procuram novas experiências, de carácter único.

Como se acabasse de fazer uma "viagem no tempo", aterrou sexta-feira (14) em Toronto uma nova aeronave da companhia, baptizada com o nome "Portugal" e que nesta que foi a sua viagem inaugural trouxe ao aeroporto Pearson a imagem clássica da transportadora aérea portuguesa, tal como ela era há cerca de meio século atrás.

Pelo menos inicialmente, este aparelho apenas visa servir os destinos de Toronto, Miami, São Paulo, Luanda e Rio de Janeiro, mas parece haver vontade da parte dos responsáveis da empresa para irem mais longe com a campanha "retro", tanto em número de destinos contemplados como no tempo de duração do projecto.

Com a iniciativa a ser muito bem aceite por todos os passageiros auscultados pelo jornal Sol Português durante este voo inaugural, uma maior longevidade e extensão da campanha parece algo sensato, sobretudo tendo em conta o investimento necessário para concretizar esta "transformação".

"Gostaríamos muito que isto se tornasse um produto, ou seja, que depois com regularidade – mensalmente, por exemplo – pudéssemos fazer sempre um voo para vários destinos [...] que desta vez não são contemplados", afirmou Gilda Luís, directora de Comunicação Corporativa da TAP ao jornal Sol Português.

Quando insistimos sobre quais seriam as condicionantes que ditariam a continuidade, ou não, do projecto, a resposta ficou mais esclarecedora: "para já estes voos têm que correr bem, têm que ser um sucesso [...] a partir daí é começarmos a conseguir definir algum produto à volta disso – neste momento já temos as ferramentas (as fardas e o serviço definido), portanto a parte mais dolorosa e que dá mais trabalho já foi feita – a partir daqui, uma vez implementado, é começar a manter".

Apesar da intenção previamente declarada pela TAP de direccionar o seu produto para o mercado em geral, esta é claramente uma iniciativa dirigida nesta fase muito especificamente ao mercado da saudade.

Ainda assim, poderá porventura ter expressão e ganhar tracção em termos gerais, como nos indicou Pedro Rodrigues, funcionário de "Network Planning" da TAP.

Um voo no tempo

Para esta campanha, a TAP visou recriar o visual dos aviões dos anos '60 e '70 tão fielmente quanto possível num dos dois modernos Airbus A330-300 que acabam de integrar a sua frota.

A última vez que uma aeronave voou com este esquema de cores – o nariz do avião vermelho com ponta preta, a parte superior da fuselagem branca, a barriga metálica, a lista vermelha ao longo da fuselagem e a imagem da "passarola" azul no topo do estabilizador vertical e leme – foi na década de '70.

Na altura foram os Lockheed Super Constellation, os Caravelle e os primeiros Boeing que ostentaram este esquema gráfico,

Agora está previsto que este modelo "retro" se vá manter até Setembro e o avião mantenha o esquema de cor, emblema e grafia durante os próximos dois anos, até ser substituído por um Airbus A330-900Neo novinho em folha.

Mas esta "viagem no tempo" vai além dos logótipos e da grafia na fuselagem do avião e inclui pormenores como os uniformes das hospedeiras de bordo, desenhados pelo atelier de Louis Férraud para recriar o estilo da época, e as malas de mão para a classe executiva, cujo design recria as que eram fornecidas aos passageiros na altura e que por isso vêm recheadas de brindes apropriados à época, como colónia de lavanda, creme de mãos Benamôr, pasta dentífrica Couto e um pijama.

Ao caminharem pela passadeira vermelha para fazerem o check-in, já os passageiros passaram pelas hospedeiras vestidas a preceito, que lhes entregaram a bolsa para o cartão de embarque e a etiqueta de bagagem à antiga.

Depois depararam-se com um balcão de atendimento onde o sinal moderno tinha sido substituído pelo logo alado azul da "passarola" e, ao chegarem ao avião, verificaram que no seu assento, além de uma edição especial do Diário de Notícias com o logótipo da época, se encontravam encostos de cabeça também com a imagem da chamada "passarola", a qual adornava também a capa da ementa.

A ementa, ela própria reminiscente dos pratos servidos nos aviões da empresa nas décadas de '60 e '70, foi elaborada pelo chefe Michelin da TAP, Miguel Laffan.

A classe executiva pôde saborear salada de camarão e terrina de faisão, acompanhadas de vinho branco e tinto de L'And Vineyards, no Alentejo, onde o chefe exerce a profissão a tempo inteiro, sendo ainda servidas amêndoas caramelizadas com caril e bombons de chocolate da sua autoria.

Na classe económica os viajantes tiveram bife do lombo à portuguesa e bacalhau à Zé do Pipo, sendo a sobremesa um parfait de banana com chocolate.

Além de alguns chocolates Regina de brinde, os cerca de 280 passageiros nesta viagem puderam experimentar o jogo do furo, que lhes permitiu ganhar mais alguns chocolates como prémio.

Para além do Diário de Notícias, também a Coca Cola e a cerveja Sagres participaram deste projecto com uma edição limitada dos seus produtos no visual de então, e, para completar a experiência, os passageiros puderam desfrutar de uma selecção de filmes e um canal de música dos anos '70 no sistema de entretenimento de bordo.

Marcos na história da aviação civil portuguesa

No âmbito desta iniciativa, a TAP levou vários elementos da comunicação social luso-canadiana até Lisboa, para que pudessem inteirar-se em primeira mão sobre este inovador projecto de marketing, além de experimentarem a viagem, tanto na classe executiva como económica, para melhor se aperceberem das condições oferecidas pelos novos aparelhos A330-300, incluindo os assentos totalmente reclináveis para quem viaja em executiva e que fazem uma grande diferença no conforto de uma viagem de longo curso como esta.

Durante a sua estadia na capital portuguesa o grupo de jornalistas visitou o Museu do Ar, localizado na Base Aérea N.º 1, em Pêro Pinheiro, na zona de Sintra, onde estão expostas dezenas de aviões e helicópteros restaurados, assim como maquetas, miniaturas, instrumentos, uniformes e artefactos, desde os primórdios da aviação até aos dias de hoje.

Incluída no espólio deste museu, por onde passam cerca de 50.000 visitantes por ano, está uma ala dedicada à TAP, onde se encontra um dos primeiros aviões da linha aérea portuguesa, além de vários exemplos parciais de aeronaves da empresa que incluem apenas o nariz do avião e parte dos motores ou aspectos da cabine de passageiros ou da carlinga.

O alferes João Ninitas, porta-voz do Museu do Ar, considera muito importante esta adição da aviação civil ao museu que, até se mudar de Alverca para estas novas instalações em 2009, tinha sido exclusivamente militar.

"Toda a ligação que está inerente ao serviço TAP é extremamente importante no que concerne à história da aviação, porque permite a união e a ligação de vários territórios", afirmou, fazendo referência à necessidade de interligar Portugal com as ex-colónias – algo que continua a ser relevante hoje em dia, mas em relação às comunidades lusas na Diáspora.

Os visitantes podem ainda apreciar exemplos de equipamento, uniformes, serviços de refeição e objectos vários que traçam a história e evolução da TAP ao longo dos seus 72 anos de serviço a Portugal e aos portugueses.

Numa parede podem mesmo observar-se alguns dos principais marcos históricos para a companhia, identificados numa barra cronológica com referências à entrada ao serviço de diferentes modelos de avião, viagens inaugurais, mudanças de logótipo e até a chegada do Papa Paulo VI a Portugal, a 13 de Maio de 1967, num voo da TAP para uma visita a Fátima.

Para finalizar o dia, o grupo de jornalistas luso-canadianos foi levado de autocarro numa visita guiada a alguns dos locais e monumentos mais emblemáticos da capital portuguesa, incluindo uma breve paragem junto à Torre de Belém, nas imediações da qual está uma estátua comemorativa da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, que foi efectuada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral – outro marco importantíssimo da aviação nacional.

No segundo dia desta visita, a comitiva foi acolhida por Rita Estorninho, responsável por Comunicação Corporativa durante uma visita às instalações da TAP, junto ao aeroporto de Lisboa, onde os jornalistas foram depois recebidos pelo chefe de Produção, José Pinto.

Com 30 anos de carreira na TAP, este responsável pela manutenção da frota da empresa elucidou os membros da imprensa, rádio e televisão quanto ao trabalho realizado pela equipa que dirige, realçando que "a TAP ao longo destes anos tem sido uma companhia extremamente segura, extremamente eficaz no trabalho que faz"

A reputação como uma das companhias de aviação mais segura do mundo precede-a, por isso "gasta muito dinheiro em manutenção", mas, como enfatizou, "felizmente, gasta muito dinheiro em manutenção", considerando a segurança prioridade absoluta e adiantando que o bom funcionamento dos aviões assegura também um bom futuro para a empresa.

À passagem pelo hangar N.º 6, que se encontrava vazio, por coincidência, assim que se abriu um dos gigantescos portões para proporcionar uma panorâmica da azáfama no exterior, a comitiva pôde avistar pela primeira vez o avião com a pintura "retro", que transitava numa pista lá bem ao fundo.

Pouco depois, tendo por anfitriões o gestor do centro de treino, Alfredo Fonseca, e o assistente José Branquinho, a mão-cheia de jornalistas era levada a visitar as instalações onde a TAP treina os pilotos e hospedeiras, transitando junto às secções de aviões, preparadas para simular incêndios a bordo e todo o tipo de emergências, incluindo evacuações.

Foi ainda possível ver os enormes simuladores de voo, tão precisos e realísticos que os pilotos – como nos viria a explicar a comandante do voo "retro" no regresso a Toronto – às vezes até se esquecem que naquele dia a vida deles não está em jogo.

Pouco tempo depois já a comitiva da comunicação comunitária de Toronto se encontrava num autocarro – também ele pintado com o esquema visual dos anos '70 – e a caminho do avião que os traria de volta a Toronto no voo TP259.

A comandante, Rita Barbas, declarou-nos sentir-se "orgulhosíssima, como portuguesa, como piloto e como mulher" pela oportunidade de ter a seu cargo este voo inaugural.

Tivemos oportunidade de trocar impressões também com alguns dos passageiros que se dirigiam a Toronto e para quem esta experiência se revelou uma agradável surpresa.

Marco Reis, que praticamente todos os anos vai a Portugal, viajava desta vez com a esposa e o filho bebé e achou a experiência fantástica.

Segundo nos revelou, costumava viajar na TAP com os pais quando era criança por isso recorda-se de como era e apreciou por demais esta iniciativa, referindo ainda que embora baseie a sua escolha no preço, na sua experiência a transportadora aérea portuguesa é realmente uma das melhores, senão mesmo a melhor, para quem viaja com crianças.

Para João e Maria Veloso, que estão no Canadá há 53 anos, esta viagem foi como voltar atrás no tempo e tencionam passar a palavra aos seus amigos e conhecidos sobre esta experiência.

Outros passageiros havia que não eram portugueses, como era o caso de Thomas Giergont, que afirmou ter gostado da surpresa, enquanto Jurgita Budraityte estava tão excitada com a experiência que logo que virámos a câmara na sua direcção e do namorado, de imediato lançou os braços ao ar e levantou os polegares em sinal de aprovação.

Novas iniciativas?

Uma vez que esta iniciativa tem o objectivo de comemorar um período áureo da TAP numa altura em que a empresa portuguesa atravessa outra fase de franco crescimento, a manterem-se os bons resultados e com base na informação que recolhemos de várias fontes, será de esperar que outros visuais e momentos icónicos da sua imagem de marca venham a ser ressuscitados no futuro.

Para já, o vice-presidente de marketing da TAP, Abílio Martins, mostrou-se bastante entusiástico com a resposta dos passageiros a este projecto "retro" e confidenciou-nos que embora não tencionem introduzir mais aeronaves com este esquema de pintura, há planos para usar uma outra imagem antiga, mas que se escusou a revelar por não ser ainda o momento oportuno.

Depreendemos, portanto, que este será apenas um ponto de partida que, consoante a resposta do mercado, poderá levar a projectos semelhantes.

Entretanto, à chegada a Toronto, o vice-presidente de vendas para a América do Norte e Central, Carlos Paneiro, afirmou sentir-se feliz e orgulhoso.

"Depois do lançamento do voo do dia 10 de Junho este, de facto, é um marco na nossa operação para o Canadá", disse, acrescentando ainda que "todo o feedback que temos recebido dos passageiros que fizeram este voo é fantástico, portanto só podemos estar orgulhosos e felizes".


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