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"Bonne Chance": Duas palavras que marcaram a vida de Armando Viegas

Depois de mais de meio século no Canadá, o conhecido associativista publica autobiografia

Por Jonathan Costa e António Perinú
Sol Português

No piso superior do restaurante Lisboa à Noite, em Toronto, Armando Viegas oficializou no passado sábado (15) o lançamento da sua autobiografia, "Bonne Chance", título que deriva das duas únicas palavras que lhe foram dirigidas por um motorista de táxi aquando da sua chegada ao país e que considerou terem sido marcantes na sua vida deste lado do Atlântico.

Cerca de uma centena de pessoas assistiram ao encontro que incluiu testemunhos de familiares, uma actuação musical da Luso-Can Tuna e uma análise literária feita por Luciana Graça, do Instituto Camões, a marcar uma noite de nostalgia, emoção e gargalhadas na celebração da vida desta personalidade da comunidade portuguesa de Toronto.

Como nos explica o autor, o título do livro foi inspirado por um momento caricato na sua chegada a Toronto e ao Canadá, no dia 24 de Dezembro de 1965, debaixo de neve, num dos mais rigorosos Invernos que assolaram a cidade.

"Quando cá cheguei não sabia falar Inglês, então fiz questão de pedir por um taxista francês. Não conhecia Toronto (...) e pedi-lhe para que me levasse para uma área da cidade que tivesse muitos portugueses. Ele lá me deixou na Augusta Avenue, no Kensington Market. Quando se despediu de mim, apenas se virou e disse `bonne chance' e essas palavras ficaram eternamente comigo".

"Carreguei essa bonne chance – essa boa sorte – nesta minha vida de imigrante em Toronto, na minha carreira profissional, na minha vida pessoal, em todos os desafios e conquistas que aqui enfrentei e atingi", refere com orgulho.

Na procura de um título para o livro, foi a esposa, Leta – a quem fez questão de agradecer – que lhe viria a sugerir utilizar a expressão que tanto influenciou a sua vida.

Em declarações ao jornal Sol Português, Armando Viegas confessou-se "muito feliz por ver todos estes amigos que fazem parte da minha família aqui presentes, para me apoiarem" e, independentemente de "comprarem o livro ou não, não me importa, o que importa é estarem aqui a partilhar esta noite comigo".

Dizendo-se "de coração cheio", sente que todo o processo de escrita e edição do livro – um processo que durou cerca de três anos e meio e que classificou de "longo mas imensamente divertido" – valeu a pena, "sem qualquer dúvida", olhando emocionado em seu redor para ver a sala repleta de caras conhecidas e sorridentes.

Fã confesso do filósofo cubano José Martí, que argumentou numa das suas obras que para se sentir verdadeiramente realizada cada pessoa deveria plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, perguntámos-lhe se assim se sentia agora.

"Sem dúvida" afirmou, esclarecendo que "já tive as minhas duas lindas filhas, já plantei uma árvore em Cuba e agora tenho a minha própria obra literária, a minha autobiografia" e embora seja primeira, insinua que poderá não ser a única.

"Penso que este não vai ser o meu único livro, já ando aqui a pensar e a matutar numas ideias... vamos a ver o que o futuro trará", refere, destacando ter gostado "imenso de todo este processo e gostava de o poder repetir".

Entre os muitos familiares e amigos, encontravam-se também antigos companheiros do associativismo comunitário.

Manuel Barreto, proprietário da companhia de aquecimento e ar condicionado Europa, e tesoureiro da Associação dos ex-Combatentes Portugueses do Ontário, falou-nos da sua relação de longa data com o autor "alfacinha".

"Já conheço o Armando há muitos anos (...), ambos trabalhámos juntos na Direcção da Casa do Alentejo durante muito tempo", recordou, dizendo-se "feliz por ele" e considerando este momento "o culminar de uma vida com imensos sucessos e momentos de luta e de perseverança".

Como o descreve? "Um homem sério, sempre focado no seu trabalho e em atingir os seus objectivos, mas sempre com um sorriso contagiante no rosto e preparado para ajudar quem mais necessita", afirmando ser por isso "um prazer poder estar aqui para o apoiar".

Por seu turno, Paula Medeiros, actual presidente da secção do PSD de Toronto, demonstrou a sua admiração pela influência que Armando Viegas teve na comunidade ao longo de todos estes anos, destacando que com o lançamento desta biografia, "saber sobre o senhor Viegas é de facto saber sobre a nossa comunidade em Toronto e no Canadá – o que já foi, o que é neste momento e o que irá ser".

Indicando estarem ali "não só a celebrar a vida de Armando Viegas mas também a celebrar a nossa cultura, as nossas raízes portuguesas", Paula Medeiros considerou "um prazer celebrar o lançamento de uma obra literária na língua portuguesa – na língua de Camões – nesta cidade que todos adoramos".

Para a esposa do autor, que foi recebendo os convidados à medida em que iam chegado ao restaurante, a emoção que sentia nessa noite era evidente no brilho dos seus olhos e no sorriso ternurento.

"O meu marido é um homem carinhoso, atencioso, genuíno e, claro, deveras engraçado. Sei que tocou a vida de cada um que hoje aqui marca presença e estou tremendamente orgulhosa dele", afirmou Leta Viegas à nossa reportagem.

"Sempre se manteve do meu lado, nos bons e maus momentos, e apoiou-me como um bom marido deve fazer. Merece todo este carinho e a celebração de hoje, tanto eu como as suas filhas, as suas netas, a sua família, estamos todos muito orgulhosos e emocionados", concluiu.

Numa das mesas, um painel intitulado "Bonne Chance" apresentava imagens marcantes da vida do autor, tanto em Lisboa como em Toronto.

Do Castelo de São Jorge ao Padrão dos Descobrimentos, do Saint Lawrence Market à CN Tower – além de uma caricatura de Armando vestido a rigor com outra das suas paixões, o Sport Lisboa e Benfica – eram todos eles importantes símbolos na vida deste lisboeta que atravessou o Atlântico sozinho para dar início à sua aventura e a uma nova vida como imigrante.

Ao abrir a cerimónia, a locutora Clara Abreu apresentou também uma surpresa pela qual Armando Viegas não esperava: uma actuação da Luso-Can Tuna que desta forma agradeceu todo o apoio oferecido pelo autor ao longo dos anos, conferindo-lhe ainda uma capa universitária, traje utilizado por todos os elementos do grupo.

Dando continuidade ao tema da música, foi então a vez dos netos Isadora e Isaac lhe dedicarem um tema cada um, tocado ao piano, após o que a outra neta, Claudia, professou todo o seu amor e admiração pelo avô que "a faz sempre rir" lendo um bonito texto que preparou em sua honra.

Os testemunhos e dedicações da família continuaram com as filhas, Suraya e Mily, a lerem os seus tributos ao pai, agradecendo-lhe pelo carinho e dedicação que ao longo da vida demonstrou à família, dando o seu melhor como pai e conselheiro, e zelando pela sua segurança e bem estar.

Armando abraçou as filhas, visivelmente emocionado e orgulhoso, após o que a esposa lhe dedicou um poema que, devido à luta intensa que na altura travou contra uma doença, não lhe foi possível concluir a tempo de ser incluído no livro.

Com lágrimas nos olhos, Leta agradeceu a Armando pelo amor e carinho que lhe dedicou ao longo dos anos, nunca saindo do seu lado nos bons e maus momentos, e ressalvando: "Nunca me irás perder, irei sempre te encontrar", uma das frases mais marcantes do romântico e emocionante poema que lhe dedicou.

As ternurentas manifestações de carinho da família foram seguidas pela crítica literária da obra, proporcionada por Luciana Graça, do Instituto Camões, que ofereceu uma extensa análise do seu conteúdo, destacando a personalidade e o humor característico de Armando Viegas, retratado nas peripécias narradas no livro.

A abordagem focou todas as fases da vida do autor, descritas ao longo dos vários capítulos que compõem esta autobiografia, incluindo a sua actividade profissional de 43 anos ao serviço da empresa Cara Operations e as suas ligações jornalísticas em Toronto, como voluntário no extinto jornal Correio Português, Rádio Clube Português, Hora do Alentejo e em revistas.

Referências a aspectos mais pessoais, como as primeiras namoradas, a falecida esposa, Maria Lúcia e as várias partidas que pregava e continua a pregar aos diferentes membros da família serviram para ilustrar o livro, que Luciana Graça considerou reflexo da personalidade e carácter de Armando Viegas bem como uma obra hilariante, de alguém que tocou tantos corações na comunidade portuguesa em Toronto.

No final, Armando Viegas faria também uma curta intervenção para agradecer a todos os familiares, amigos e profissionais que tornaram possível a realização deste projecto, "um sonho" que sempre manteve ao longo da sua vida.

No seu discurso abordou a sua ética de trabalho – nunca faltou um único dia – o seu amor pelo jornalismo, que o inspirou neste processo de escrita, a sua dedicação às filhas, aos netos, à falecida e à actual esposa, e todo o amor e carinho que sempre recebeu ao longo da sua caminhada.

Foi, como descreveu, uma caminhada pautada pelo espírito de "sacrifício" e "trabalho árduo", mas também de sucesso e que certamente poderá servir de inspiração para outros portugueses que tentam criar uma nova vida neste país de acolhimento.


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