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Artistas comunitários pronunciam-se sobre impacto da pandemia - II

Por João Vicente
Sol Português

Continuando o tema iniciado na edição anterior, a respeito do impacto que as medidas decretadas para conter a progressão da pandemia do vírus corona Covid-19 têm tido nos artistas comunitários, esta semana continuamos a inteirar-nos da situação de mais alguns destes cantores, músicos e empresários que ao longo do ano têm uma presença e participação fundamental na habitualmente activa vida cultural e social luso-canadiana.

Mário Marinho é um dos artistas que há largos anos tem vindo a animar as festas e eventos da comunidade portuguesa, não apenas no Canadá como no estrangeiro.

A sua situação é um pouco inusitada uma vez que não só teve de cessar a actividade profissional em espectáculos – tal como os outros artistas – como tem de enfrentar esta situação sozinho uma vez que a esposa, que tinha viajado para o Brasil, de onde é natural, ali está retida desde Março quando os voos internacionais foram suspensos.

Neste espaço de tempo já teria feito uns seis ou sete espectáculos e considera que, pelo menos para si, "nunca mais vai ser a mesma coisa" quando voltar a haver autorização para a realização de concertos ao vivo uma vez que ronda já a casa dos 60 anos de idade.

A sua dúvida é se o público habitual das colectividades lusas, que julga rondar uma faixa etária na ordem dos 45 anos, virá a perder o receio e a regressar com facilidade ao convívio como dantes ou se irá demorar a fazê-lo.

Na sua opinião, a recuperação e regresso ao "normal" não vai ser necessariamente difícil, mas "vai levar tempo" e neste estágio da sua vida pondera se não seria melhor seguir outro rumo, pontuando esse desabafo com um: "Deus queira que esteja errado".

Na verdade, Mário Marinho não tem estado isolado em casa porque a actividade no seu ramo de trabalho, que é o da instalação e reparação de telhados, nunca foi interrompida.

Esta profissão leva-o a avaliar as necessidades dos clientes, muitos deles institucionais, incluindo escolas, cadeias ou hospitais, mas desde que foi reconhecida a existência da pandemia tem tomado as precauções possíveis e necessárias, recorrendo ao uso de máscaras de protecção pessoal e tendo em conta as regras de segurança.

A nível pessoal, porém, a situação é mais limitativa uma vez que para além da ausência da esposa tem tido que se manter afastado também de outros parentes, incluindo primos direitos, o que para ele, que se considera uma pessoa muito activa e sociável, tem sido difícil.

Agora a trabalhar apenas esporadicamente – segundo diz, "só em situações de emergência" – tem tido algum tempo livre mas também tem tido de fazer tudo sozinho.

"Estou a lavar roupa – coisa que nunca fazia", explica com uma gargalhada, acrescentando: "lavo a louça, vou aqui a um mini-mercado comprar algumas coisas para casa e à noite entro em contacto com alguns [familiares], que me ligam sempre porque sabem que estou sozinho – nisso tenho um apoio muito forte deles", reconhece com gratidão.

"A minha esposa também me liga do Brasil para saber o que se está a passar, vejo um pouco de televisão e pronto, é isso", explica.

"Pensava que ia viver o resto da minha vida e nunca ia ver uma coisa destas", diz em tom de lamento, mas considerando-se uma pessoa positiva e alegre depressa afasta essa nuvem ao afirmar que "a gente tem que levar isso um pouco na brincadeira" e que "logo isso vai acabar e vamos poder voltar à vida normal".

Ao finalizarmos a nossa conversa, Mário Marinho filosofou, agora em tom sério mas igualmente positivo, que esta situação nos veio "dar um chega" e "alertar", porque "nem tudo o que é ganância, dinheiro e assim vale a pena".

A seu ver, mais importante é a componente humana e esta pandemia representa "uma oportunidade para "meditar" pois faz falta valorizar e viver o dia-a-dia sem planos e atribuindo mais valor aos que nos rodeiam .

"Acorda e vê ao teu redor as pessoas que te amam e tu nem olhas para elas", explica, adiantando que "uma pessoa pode ter tudo, mas em épocas como estas não tem nada" e há "coisas melhores que a vida nos oferece".

Também uma realização anual com mais de uma década e que este ano foi afectada pelas medidas de contenção da pandemia quando estava já em plena realização foi o Concurso de Cantores com John Santos (SCJS, na sigla em inglês), que é organizado pelo casal e duo musical composto por Lisa e John Santos.

Depois de muita incerteza com respeito à final, o espectáculo foi adiado de 25 de Abril para 30 de Maio, mas como nos contam, não irá realizar-se nos moldes habituais.

"Não sabíamos como iríamos descalçar esta bota", explica John Santos que adianta que foi após falar com um grupo de profissionais do ramo que surgiu a solução: "decidimos fazer a final virtual, com o júri numa sala e os concorrentes noutro prédio separado", os quais irão actuar "um de cada vez".

Admite que avança um pouco apreensivo para o que reconhece que será uma incógnita, pois nunca teve de realizar a final desta forma, mas está confiante que a enorme produção, a cargo da empresa luso-canadiana TNT Productions, venha a ser "muito bem feita".

Apesar de estar a fazer tudo por tudo para levar a bom porto mais uma edição deste concurso que já realiza há 14 anos, não deixa dúvidas que tem sido difícil pois, como admite, "financeiramente estou como todos, porque os patrocinadores praticamente pararam" a sua actividade.

"Como é que os pobres dos patrocinadores nos podem pagar se estão fechados?", questiona retoricamente.

Apesar disso, acredita que "vai haver luz no fundo do túnel" e que "temos de pensar positivamente" que vamos vencer, "todos nós, não só no Canadá, mas no mundo".

Um factor positivo tem sido o facto da família ter podido passar mais tempo junta, mas tanto John como Lisa confessam que não têm parado, tanto a idealizar uma forma de levar avante o projecto que acalentam há quase década e meia como a implementar esta nova encarnação da final que habitualmente conta com largas centenas de pessoas na plateia.

Em Abril "é uma azáfama louca para preparar a revista e organizar a final (...) mas este ano tudo parou", explica Lisa Santos ao referir que "ainda a noite passada estávamos a comentar enquanto jantávamos que parece que ficámos presos em Março".

Naturalmente, tiveram de incorrer despesas pois a final implica a actuação ao vivo de uma banda cujos elementos começam a ensaiar as músicas e são pagos pelo seu tempo.

Depois de decretadas as medidas de isolamento social, "ficou tudo em limbo", afirma Lisa que no que toca à actividade profissional do duo não vê com bons olhos o que está a acontecer pois, tal como os restaurantes ou outros ambientes que reúnam multidões, os espectáculos de música ao vivo são uma das áreas de actividade mais afectadas.

"Não estou a ver música ao vivo a ter lugar durante muito tempo, pelo menos não em qualquer forma real ou rentável", afirma, acrescentando que a sua preocupação nesse sentido é ainda maior em relação aos músicos, especialmente aqueles que têm uma vida itinerante, tal como ela e o marido tiveram durante 12 anos.

"Se isto nos tivesse acontecido naquela altura, tínhamos ficado absolutamente tramados, porque 100% do nosso rendimento provinha de actuações ao vivo, por isso não posso deixar de pensar nas pessoas que foram completamente esquecidas" pelas medidas de apoio financeiro do governo.

A seu ver, quando terminar o acesso temporário ao CERB, o único recurso dessas pessoas será tentar obter subsídios do governo – um processo altamente técnico normalmente levado a cabo por pessoas especializadas e que são contratadas para esse fim, se os candidatos desejarem ter qualquer hipótese de sucesso.

"Sinto-me mesmo receosa pelas versões actuais de quem eu era há uns anos: músicos profissionais que não fazem outra coisa a não ser tocar ao vivo", refere Lisa que diz ter pena também dos concorrentes do SCJS deste ano, que têm de actuar "sem sentir a energia do público".

Pare eles, especialmente, aconselha-os a esquecerem a câmara e imaginarem a plateia, para poderem projectar todo o seu sentimento e energia nas suas actuações.

Este ano, e apesar dos contratempos, a assistência do SCJS poderá vir a ser ainda mais alargada pois além da final ser transmitida em directo, o público que assiste em casa vai poder votar também no portal do concurso.

No dia 30 deste mês, a partir das 19h30, o público pode visitar thesingingcontest.com e assistir em directo à transmissão da final do concurso, emitida a partir da Casa do Alentejo de Toronto, dando assim apoio não só ao casal que idealizou esta iniciativa mas sobretudo aos concorrentes que desta forma poderão continuar a sentir que têm um público a transmitir-lhes um pouco da energia que os ajuda a darem o seu melhor.


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