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"Andrà Tutto Bene":

Hino de esperança do açoriano Flávio Cristóvam alcançou êxito internacional

Por João Vicente
Sol Português

"Tive aqui uns dias em que tive tempo para pensar, como toda a gente, e fiquei a pensar sinceramente no que é que eu fiz de diferente nesta canção que não faço nas outras", explica ao jornal Sol Português o cantautor açoriano Flávio Cristóvam acerca da sua obra "Andrà Tutto Bene", que lançou no final de Março e que imediatamente "viralizou", correndo o mundo inteiro.

A ansiedade mundial perante a pandemia da Covid-19 chegou também aos Açores onde Cristóvam, mais isolado ainda na sua ilha natal, condensou esse sentimento numa letra e melodia que de imediato tocou profundamente em quem a escutou.

Após se aperceber da projecção que a sua música começava a ter, o artista tentou analisar o que se estava a passar.

"A minha conclusão foi só uma", diz-nos: "foi tudo igual, só que pela primeira vez – e isto é muito raro, mesmo na história da humanidade – a humanidade está toda na mesma frequência; toda a gente está a passar pelos mesmos sentimentos de ansiedade".

Por isso, conclui: "eu escrevi sobre uma coisa, que era o que eu estava a sentir, mas sem pensar que toda a gente estava a sentir" o mesmo.

O tema, que assumiu a forma de um hino à esperança para todos quantos se encontram sujeitos a medidas de isolamento social um pouco por todo o mundo, foi criado por Cristóvam com edição e masterização de Pedro Villas Silva, mas a colaboração com o realizador Pedro Varela deu vida à letra e ao sentimento da canção ao incorporar no vídeo imagens do que se estava a passar pelo mundo.

Escrita principalmente em inglês, embora o conceito do autor fosse "poliglota", como destaca, a canção nasceu de duas coisas: uma frase que tinha escrito no telemóvel e que achou interessante, "tempos em que a distância era a maior prova de amor" – frase que reflecte a forma como achou que se viria a falar deste momento no futuro – e as imagens que chegavam de Itália e mostravam arco-íris pintados por crianças com a frase "Andrà Tutto Bene".

Dessa semente nasceu a canção e a mensagem que na altura fazia sentido direccionar para a Itália, mais afectada pela pandemia, mas que na verdade sempre pretendeu fosse universal, daí inclui-la no refrão em seis línguas.

Recentemente catapultado para as bocas do mundo graças a este êxito, procurámos saber quem é este jovem de 31 anos, natural da ilha Terceira, que se afirma autodidacta da música.

Flávio Cristóvam começou a tocar guitarra por sua autoria aos 11 anos e em breve tinha composto uma série de temas que, diz com sentido de humor, "graças a Deus não viram a luz do dia".

Eventualmente, porém, foi-se afoitando e um dos seus temas chegou às rádios dos Açores; daí surgiu o convite para ir tocar a um festival.

Tal como aprendeu a tocar guitarra sozinho também aprendeu a gravar e, como explica: porque "não conhecia mais músicos fui forçado, entre aspas, a aprender os outros instrumentos que queria ouvir nas minhas canções".

Viria a formar a banda October Flight, onde partilha o papel de guitarrista e vocalista com Timothy Lima e na qual se integram ainda o viola-baixo João Ornelas, João Mendes na bateria e André Gomes no teclado.

A banda viria a registar alguns êxitos em concursos, aos quais se somou a publicação do álbum "The Closing Doors", em 2012, ano em que o grupo passou por Toronto a convite da Canadian Music Week integrado num leque de artistas vindos de Portugal.

Em 2015 Flávio começou a gravar nos estúdios Namouche, de Lisboa, um disco a solo, "Hopes and Dreams", decisão que foi facilitada por um amigo e colega do curso de produção musical que ali estagiava e que fez despertar o interesse do proprietário do estúdio, Joaquim Monte, na música do jovem terceirense.

O projecto levou dois anos a concluir, com gravações feitas à noite no período entre a uma e as sete horas da manhã, numa altura em que trabalhava durante uma temporada nos Açores e outra na capital portuguesa para poder financiar o disco.

Foi então que estabeleceu contacto com muitos outros músicos que iam ouvindo o seu trabalho e se ofereceram para participar no projecto uma vez que o jovem não tinha dinheiro para pagar a músicos de sessão.

Um dos singles dessa obra, "Walk in the Rain", viria a ser incluído no remake de 2016 do icónico filme português dos anos '30, "A Canção de Lisboa", a pedido do realizador Pedro Varela que o escutou e de imediato sentiu que fazia sentido a sua inclusão na nova versão.

Daí nasceu uma colaboração artística que têm mantido e que se transformou em amizade e que inclui "outras campanhas para grande marcas" pois, como explica Flávio, "a minha música esteve muita vez a passar na televisão sem que as pessoas soubessem que era minha, e grande parte das vezes eram até trechos de canções que nem sequer estavam publicadas".

"Antes do `Andrà Tutto Bene' havia muito este sentimento um bocadinho estranho de a minha música estar em todo o lado e de as pessoas não saberem quem eu era e não me conhecerem como autor", diz.

Além de ter actuado nos Estados Unidos da América e no Canadá por altura do lançamento do disco da sua banda, o álbum a solo, editado em 2018, permitiu-lhe uma digressão pela França, Bélgica, Holanda e Alemanha a convite de Stu Larsen, assim como outras tournées com outros artistas, tanto em Portugal como pela Europa.

A propósito do sucesso de "Andrà Tutto Bene", refere simplesmente que "cada um tem as suas próprias terapias" ou formas de "lidar com as coisas e a minha sempre foi esta: agarrar na guitarra e num caderno e expor um bocadinho o que se passa".

Foi assim, – "sem a mínima intenção do que quer que seja", que escreveu o primeiro esboço de uma canção que enviou "ao Varela" por lhe admirar muito "a sensibilidade artística" mas também por estar a escrever sobre uma coisa "delicada, do ponto de vista de como poderia ser interpretada", refere.

"A minha primeira questão quando estava a escrever uma canção em que o refrão é `Vai ficar tudo bem', era se eu tinha o direito de dizer isso", explica, considerando que se trata de "um momento delicado para a humanidade" e por isso mesmo o tema "teve de ser abordado com mãos de cirurgião".

A seu ver, "a mínima frase ao lado e as pessoas deixam de interpretar a coisa como uma mensagem de esperança e passam a interpretar como alguém que está a tapar o sol com a peneira".

O realizador não só adorou a canção como "teve logo um conceito visual", diz-nos o jovem, passando a descrever-lhe a recolha de vídeo de pessoas em quarentena.

Assim foi que ao longo de cinco dias foram trabalhando a canção, com Pedro Varela a dirigir pessoas ao redor do mundo em sessões de Skype enquanto Flávio, sem poder ir para o estúdio nem trabalhar com outros músicos, gravou sozinho.

Em retrospectiva, Flávio não considera que isso tenha sido um factor negativo pois, como diz, "às vezes estas limitações para os artistas funcionam como um impulso para criarmos mais e pensarmos menos, entre aspas".

Quanto à recepção do público, "foi para lá de qualquer coisa que a minha cabeça pudesse processar", explica, indicando que nasceu "como uma coisa que era para ser única e exclusivamente uma mensagem de esperança" e embora ressalve que Pedro Varela percebeu "desde o início que ia chegar a muita gente", ainda assim foi além de todas as expectativas.

"O que aconteceu não foi programado, não teve marketings à mistura, não teve dinheiro a impulsionar o que quer que fosse – não houve aqui um plano de nada, de estratégia do que quer que seja que possa parecer para a dimensão que as coisas tomaram", diz empolgado o cantautor.

Segundo conta, após publicar o vídeo e a música ao fim do dia e destes terem sido partilhados por alguns actores portugueses de renome, alguém terá extraído o ficheiro MP4 do filme e começou uma corrente de partilhas na aplicação Whatsapp e "quando demos por isso, no próprio dia em que saiu eram milhares já as partilhas".

Ao acordar na manhã seguinte "a música estava a tocar nas maiores rádios de Portugal", e não tinham sido eles a enviá-la, e na manhã seguinte uma familiar radicada no Brasil enviou-lhe um vídeo do quintal da vizinha onde se pode ouvir a música juntamente com a mensagem "a minha vizinha está a ouvir a música do Cristóvam e eu nem a conheço".

Apesar de nessa altura já estarem a receber mensagens dos pontos mais remotos do globo, foi então que se aperceberam que no Brasil as coisas tinham tomado uma dimensão enorme.

Sendo a Internet o que é, entretanto já dezenas de pessoas tinham publicado o vídeo nos seus canais de YouTube atribuindo a autoria da música à banda irlandesa U2 e passados dias, quando essas versões piratas foram retiradas com a ajuda da editora Universal, já somavam mais de 100.000 visualizações.

Isso levou também a que se fizesse um esforço no sentido de corrigir a proveniência da canção, o que levou à alteração dos títulos de algumas dessas versões não oficiais para "Cristóvam – Vai Ficar Tudo Bem (não é U2)".

Foi então que as pessoas começaram a perguntar quando é que a música chegava a serviços de distribuição musical como Spotify, iTunes e afins, ficando disponibilizada por essas vias cerca de três semanas após o lançamento.

Flávio recorda um período de três dias em que as três principais emissoras nacionais de televisão passaram o vídeo simultaneamente e na íntegra, tanto nas notícias à hora do almoço como no telejornal, e os entrevistaram.

Se o projecto foi acarinhado e contou com a devida atenção em solo nacional, também do estrangeiro houve interesse e entrevistas.

"Quem disser que se estava a planear uma coisa assim só pode estar a mentir porque é impossível planear uma coisa destas", afirma o jovem açoriano, ressalvando que "da forma como aconteceu há várias coisas que simplesmente não dá para controlar".

Das muitas mensagens que recebe de admiradores da canção sobressaem para ele as de pessoas que contraíram a doença ou perderam familiares, mas uma em particular foi mais marcante.

Um homem alemão escreveu-lhe para contar que tinha acabado de perder o pai com Covid-19 e que aquela música e vídeo tinham sido a única coisa a dar-lhe algum alento no pior dia da sua vida.

"Só a partir do momento em que recebi essa mensagem – essa em particular – é que eu senti que a música tinha sido interpretada da forma como eu gostava que fosse", diz-nos Flávio Cristóvam.

Actualmente existem vídeos de "Andrà Tutto Bene" legendados em múltiplas línguas, – incluindo, naturalmente, em português – que totalizam mais de dois milhões de visualizações, além de versões caseiras interpretadas por fãs.

Flávio, que está actualmente a gravar o seu segundo disco a solo, diz-nos estar ansioso por poder correr mundo com a canção que já correu o mundo por ele e apresentar também o seu restante repertório.

De imediato na lista de destinos: Brasil e Canadá.

"Andrà Tutto Bene"

(Canção e vídeo em: tinyurl.com/vaificar).

Cities are vacant like they've never been

Everyone's scared of what blows in the wind

The plans we all had, have all gone down the drain

Our lives were postponed,

but I know in the end we'll be Alright

We stand together as one

People are lining in grocery stores

Silence is screaming the fear in their hearts

Don't give up your faith, no, don't let your light fade

Together we'll get through the dark of these days

Two or three months

They're saying on TV

Be safe in your shelters and soon we'll be free

One day we'll remember the hardest of times

When distance meant love and it kept us alive

Andrà tutto bene

Vai ficar tudo bem

Everything will be alright

Andrà tutto bene

Tout ira bien

Everything will be alright

To doctors and nurses and all those who fight

The heroes that save us by risking their lives

We'll give them our love,

yeah, we'll shout to the skies

Brothers and sisters, we're here by your side

Take care of our loved ones, be strong and be brave

Your kindness is something that cannot be paid

And when this is over the memories will shine

Of those who passed on and those who stood in line

A few more months

The anchorman said

Divided we fight but united we stand

One day we'll remember the hardest of times

When distance meant love and it kept us alive

Andrà tutto bene

Vai ficar tudo bem

Everything will be alright

Andrà tutto bene

Tout ira bien

Everything will be alright

Andrà tutto bene

Alles wird gut

Everything will be alright

Andrà tutto bene

Tout ira bien

Everything will be alright

"Fotos de Diogo Rola" e de " Timothy Flores".


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