PENA & LÁPIS


A Pandemia e os Paradoxos Americanos

"A prosperidade ou a ruína de um estado

depende da moralidade de seus governantes."

Thomas Moore, poeta irlandês ( 1779-1852)

Por Diniz Borges

Sol Português

Os Estados Unidos têm tido, ao longo dos seus quase 250 anos de história, enormes paradoxos. Não se compreende a América sem se tentar perceber as suas desmedidas contradições.

A primeira república da era moderna, nascida com o pecado original da escravidão. Uma nação de imigrantes, que destruiu a população nativa e que sistematicamente se preocupa, ao ponto de demonizar, quase todos os recém-chegados.

O império das grandes multinacionais e pluri-continentais e a nação do mundo ocidental com o maior crescimento em iniquidade. O país da ciência avançada com homens e mulheres nas ruas gritando: e que venha o vírus. O baluarte da liberdade com um Presidente que desrespeita as emancipações mais rudimentares. Os paradoxos americanos quase sempre têm sido alicerce para mudanças que vêm com sacrifícios e lutas. Como se resolverão alguns paradoxos que se vive em época pandémica é uma das actuais incógnitas.

Num momento em que o país precisava de uma verdadeira liderança nacional, temos uma amálgama de comportamentos presidenciais baseados no oportunismo, populismo e desvairamento. Quando o mundo precisava de um líder coeso e conciliador em Washington que transmitisse serenidade, estabilidade, verticalidade e empatia, temos o narcisismo, a incoerência, a histeria e a indiferença. Parafraseando o Presidente Republicano Dwight Eisenhower: "não se é líder batendo na cabeça das pessoas – isso é ataque, não é liderança."

Neste momento a confusão que o Presidente Donald Trump lançou no país, com a sua campanha política fundamentada no ódio e na divisão, e enfatizou com um discurso assombreado na cerimónia de tomada de posse há pouco mais de 3 anos, espalha-se em todos os sectores da vida americana. Desde o começo desta crise global, começando pelo desprezo que mostrou pelo aviso da comunidade científica, que o Presidente americano ostentou, muito ao seu estilo, displicência pela gravidade desta pandemia. A mudança constante na Casa Branca é o suficiente para colocar a pessoa mais estável num vaivém vertiginoso.

Num momento está a entregar orientações aos estados sobre como devem emergir dos estados de quarentena, e num volte-face momentâneo, apela aos cidadãos que se manifestem contra as imposições dos estados, ignorando as suas próprias indicações, ao ponto de questionar o valor das análises efectuadas nos laboratórios e hospitais americanos.

A escritora americana, Edith Wharton, dizia que "há duas maneiras de espalhar a luz: ser a vela, ou o espelho que a reflecte", infelizmente o actual inquilino da Casa Branca não está a ser nem uma nem outra. A caótica liderança nacional, fundamentada no estilo despótico e petulante do chefe do executivo americano, permite que se vanglorie perante as câmaras da televisão nacional sob o pretexto de terem morrido "apenas" 82 mil pessoas nos Estados Unidos desde o começo da pandemia. Nem que isso fosse uma grande proeza.

A mesma babélica e ínfima liderança proporciona uma enxurrada de desinformação e assaltos à ciência, que coloca os americanos em dois campos específicos e antagónicos: prontos para uma espécie de guerra civil. Emerge uma nova linha divisória entre os governadores dos estados que querem basear as suas decisões na ciência e na matemática e os que querem voltar à normalidade sem qualquer restrição. Aqui reside mais um paradoxo.

Enquanto um inquérito do respeitado Pew Research Center, revela que 67% dos americanos acham que os seus respectivos estados estão a abrir cedo demais, e mostram-se preocupados com o levantamento de algumas restrições, milhares de apoiantes do presidente vão para as ruas exigindo a reabertura total da economia.

A dicotomia e a polarização que se vive no quotidiano americano, foi elevada ao actual perigosíssimo cenário pela retórica do Presidente Trump, o qual, infelizmente, nunca subscreveu as palavras de Ghandi: "suponho que a liderança, em outra época relacionava-se com músculos; porém hoje significa conviver com as pessoas."

É evidente que Donald Trump falhou em comunicar com o país e unir a maioria dos americanos em torno de uma causa nacional e mundial. Falhou nos Estados Unidos e falhou no mundo. Esta é a primeira vez que perante um dilema universal, desta gravidade, que a América não toma a liderança.

Não tenhamos dúvidas isso é mau para os Estados Unidos e para o mundo. É que não fiquemos ingenuamente entretidos com uma chamada telefónica da Casa Branca para Belém com uma suposta nota congratulatória. Isso não é liderança. Receber um elogio de quem tem semeado o caos no seu próprio país, terra de muitos emigrantes portugueses e luso-descendentes, não é significativo. Liderança seria termos tido aqui nos Estados Unidos, ao longo dos últimos dois meses, um Presidente que nos guiasse nesta trajectória incerta com dados científicos e não com lixívia; que nos mostrasse uma narrativa conciliatória e não o insulto gratuito e ignóbil para com os seus opositores.

A gravidade desta pandemia, os seus efeitos na saúde pública, na economia, nas vidas dos cidadãos, particularmente nos mais vulneráveis, requeria um líder que nos confortasse no maior desafio enfrentado por esta geração. Um inimigo silencioso e invisível que exponencial e impiedosamente ceifa vidas e destrói vivências. Exigia-se, no mínimo, governação que delineasse, sem subterfúgios e egocentrismos, um trajecto que traçasse a forma mais sustentável para equilibrar a segurança com as vivências de uma outra realidade, de um mundo em incerteza. Já o disse o patrono dos conservadores da era moderna, Ronald Reagan: "os grandes líderes não são necessariamente os que fazem grandes feitos, mas os que motivam o seu povo a grandes feitos."

Aqui estamos perante mais um paradoxo americano, criado por um vírus da mãe natureza e alimentado nos Estados Unidos por um governante incompetente. Teme-se, na comunidade científica, e em muitos outros meios, o que acontecerá nas próximas semanas e meses, com cada estado tendo a sua própria orientação sem o apoio e a coordenação nacional.

Em ano de eleições estaremos condenados a um clima de híper partidarismo empanturrado pela malevolência do Presidente cuja estratégia política, desde o primeiro dia que se candidatou à Casa Branca baseou-se na divisão: vermelhos contra azuis, republicanos contra democratas, cidade contra o campo, imigrantes contra nativos, imigrantes legalizados contra imigrantes clandestinos, norte contra o sul, leste contra oeste, etnia contra etnia, e agora os que advogam uma economia totalmente aberta e já, contra os que apelam para uma reabertura planeada e com precauções. Infelizmente para o futuro dos Estados Unidos, Trump não soube, nem tão pouco tentou agregar o país. Até Napoleão Bonaparte sabia que: "um líder é um vendedor de esperança."

Os Estados Unidos, este país paradoxal vive um dos seus momentos mais peculiares. Perante um inimigo desconhecido que destrói a saúde e regista peugadas profundas nas nossas vivências, marcando por muito tempo a economia americana e mundial, o Presidente americano dilapida as nossas instituições e a nossa unidade nacional. Até Novembro deste ano os americanos têm de fazer um profundíssimo acto de contrição.


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