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Primeira obra do aclamado artista português Vhils na capital do Ontário: Mural inspirado na história do movimento feminino "Cleaners' Action" inaugurado em Toronto

Por Luís Aparício

Sol Português

Depois da inauguração de um gigantesco Galo de Barcelos em Setembro, a área geográfica de Little Portugal, em Toronto, voltou a ser palco de mais um momento de grande simbolismo cultural para a comunidade portuguesa radicada nesta cidade.

Na terça-feira (19) foi oficialmente apresentado ao público um mural intitulado "scratching the surface", inspirado na história do movimento feminino "Cleaners' Action" que nos anos `70 decorreu na baixa da cidade.

O mais recente trabalho de Alexandre Farto, mundialmente reconhecido por Vhils, é a sua primeira obra em Toronto e representa uma homenagem às mulheres imigrantes portuguesas que trabalharam como empregadas de limpeza nas torres de escritórios no centro de Toronto e nos edifícios legislativos do Queen's Park durante a década de `70.

Estas mulheres tiverem um papel crucial na vida de inúmeros luso-canadianos enquanto mães, esposas, chefes de família, membros da comunidade e activistas.

O mural, situado no número 1628 da Dundas Street West, ilustra rostos do movimento Cleaners `Action associado à St. Christopher House, dando particular destaque a uma das lideres dessa greve que ficou conhecida como "wildcat" nas Torres TD em 1974 e que viabilizou a concessão de alguns direitos para o pessoal de limpeza pelos quais há muito ansiavam.

O projecto partiu da iniciativa da vereadora e vice-presidente da Câmara de Toronto, Ana Bailão, da Associação de Comerciantes (BIA, na sigla em inglês) de Little Portugal e da Embaixada de Portugal no Canada.

O convite foi feito ao artista ainda durante o ano de 2019, tendo o projecto que aguardar pela abertura das fronteiras canadianas para que Vhils e a sua equipa pudessem viajar para Toronto.

Rita Sousa Tavares, adida cultural da Embaixada de Portugal, admitiu sentir uma "sensação de concretização total" por o público poder, finalmente, admirar esta arte urbana de "um dos artistas que mais projecta a cultura portuguesa no estrangeiro".

Como salientou, este artista procura sempre causas importante e todos os seus trabalhos "contam histórias das cidades onde estão inseridos".

Na sua avaliação, "estas senhoras estão a ter a homenagem que mereciam, ao fim de tantos anos".

Obras de Vhils assumem uma mensagem social

As cidades são matéria-prima e inspiração para este artista plástico nascido em 1987 e que começou o seu percurso a grafitar as ruas e comboios da margem sul de Lisboa.

Responsável por fazer aparecer rostos gigantes durante a última década em fachadas urbanas de todo o mundo, Vhils evoluiu do graffiti para um processo de dissecação que pretende "revelar o interior" das grandes metrópoles, contando histórias dos seus habitantes.

As suas obras assumem quase sempre uma mensagem social, tendo esculpido rostos gigantes como o de Amália Rodrigues, José Saramago, Zeca Afonso, a chanceler alemã Angela Merkel e a activista brasileira assassinada Marielle Franco.

Desde 2005 que o seu trabalho tem vindo a ser apresentado em mais de 30 países, em exposições individuais e colectivas, intervenções artísticas em locais específicos, eventos artísticos e projectos em vários contextos – desde o trabalho com comunidades nas favelas do Rio de Janeiro a colaborações com Instituições culturais de referência como a Fundação EDP (Lisboa), Centre Pompidou (Paris), Barbican Centre (Londres), CAFA Art Museum (Pequim) e o Museu de Arte Contemporânea de San Diego (San Diego), entre outros.

Experimentalista, Vhils tem desenvolvido a sua estética pessoal em vários meios e suportes para além da técnica de escultura característica: da pintura com stencil, à gravação em metal, a explosões pirotécnicas, ao vídeo e à escultura.


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