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Casa do Alentejo de Toronto celebrou 35 anos

Exposição de pintura e espectáculo com fadista Ricardo Ribeiro marcam efeméride, comemorada com duas noites de festa

Por António Perinú e Fátima Martins
Sol Português

A Casa do Alentejo de Toronto (CAT) celebrou no último fim-de-semana mais um aniversário, registando agora três décadas e meia ao serviço das tradições e da cultura alentejana desde que se constituiu, a 20 de Fevereiro de 1983.

Ao longo de todo este tempo não faltaram momentos de glória, assim como alguns insucessos, desafios que os seus dirigentes tiveram de ultrapassar por forma a garantir a sua sobrevivência mas que, colectivamente, levaram a que emergisse mais forte e capaz de enfrentar as tormentas.

A isso mesmo aludiriam os seus responsáveis e convidados durante os encontros que sexta-feira (16) e sábado (17) marcaram as comemorações da efeméride, reiterando que a comunidade portuguesa tem hoje mais projecção em grande parte devido aos esforços das sucessivas direcções que a têm levado a afirmar-se como uma das maiores promotoras da cultura lusitana no Canadá.

Exemplo disso foi a escolha de actividade para abrir as comemorações deste 35.º aniversário, que na sexta-feira se iniciaram na Galeria Alberto de Castro, sita na sede da colectividade, e que incluíram a inauguração de uma exposição de pintura da artista Mena Nunes.

Formada na Universidade de Lisboa e com um mestrado em ciências da Universidade de Toronto e um bacharelado em Artes e Animação do Instituto Sheridan College, a artista – que já anteriormente expôs neste espaço – viria a indicar à nossa reportagem que participou em 33 exposições colectivas e nove individuais, mas considera esta Galeria e a do Consulado de Portugal "muito acolhedoras e agradáveis", salientando ainda que são espaços que lhe têm oferecido "um apoio e um incentivo constante" na sua carreira.

A apresentação e boas-vindas foram proferidas por Rosa de Sousa, sócia número um e figura permanente nesta colectividade ao longo de todos estes anos, após o que Mena Nunes fez referência aos quadros expostos e respondeu às perguntas que lhe foram colocadas pelo público.

Pouco depois, e desta feita já no restaurante "O Sobreiro" – situado no mesmo edifício e onde está patente também a fonte de características tradicionais alentejanas – caberia ao vice presidente da Direcção, Jaime Nascimento, apresentar as entidades oficiais que compareceram ao encontro e que já tinham assistido também à abertura da exposição de pintura, designadamente o cônsul-geral de Portugal em Toronto, Luís Barros, a vereadora e vice-presidente da Câmara Municipal de Toronto, Ana Bailão, e a deputada do Parlamento federal, Julie Dzerowicz.

Logo de seguida escutou-se o Grupo Coral da CAT numa interpretação ao vivo dos hinos nacionais do Canadá e Portugal, assim como da Casa do Alentejo, juntando-se às suas vozes as do público que assistia.

Entretanto, chamada a pronunciar-se junto à icónica fonte, Ana Bailão realçou a importância da Casa do Alentejo de Toronto não só para os naturais da região alentejana e os portugueses em geral, como também para o tecido social da própria cidade, onde atingiu uma posição de destaque.

"Hoje vai ser `três por um'", indicou a vice-presidente da Câmara ao preparar-se para proceder à entrega de três certificados: um em seu nome e da autarquia, outro do governo provincial do Ontário e da deputada Cristina Martins, que não pode estar presente, e outro ainda do governo federal e da deputada Julie Dzerowicz, que entretanto teve de se ausentar, os quais depositou ao cuidado do presidente do Executivo da CAT, João Ferreira, com "votos de parabéns, muito sucesso e muitos mais anos de vida".

A última alocução coube ao cônsul Luís Barros, que como habitualmente proferiu palavras motivadoras, mas que muitos que se encontravam mais para trás na sala não tiveram oportunidade de escutar devido à falta de um microfone.

Seguiu então um vinho de honra, servido a todos para que pudessem brindar ao sucesso e à longevidade da Casa.

Momentos depois, no Salão Nobre dava-se início ao jantar e ali viriam a registar-se também as actuações do Grupo Coral da CAT e dos ranchos folclóricos Ribatejano e Amigos do Minho que completaram o serão.

No sábado realizou-se o segundo e principal evento das comemorações do aniversário da CAT, com a realização de um jantar e Grande Gala de Fado que contou com actuações da fadista luso-canadiana Elisabeth, vindo de Portugal, do artista Ricardo Ribeiro.

Com a lotação esgotada, um mar de gente estendia-se desde a porta da rua à do Salão Nobre, que abriu tardiamente, o que provocou uma enchente também no gigantesco espaço do restaurante "O Sobreiro", onde muitos aguardavam quase sem se poderem mexer.

Mais tarde e após o jantar, Jaime Nascimento deu as boas-vindas ao público em nome da administração e enalteceu o contributo dos elementos que fizeram parte das sucessivas direcções e que voluntariamente trabalharam e trabalham em prol da CAT.

O vice-presidente da colectividade fez ainda um breve historial da Casa, desde a sua fundação até à actualidade, realçando o quanto esta representa para a comunidade portuguesa e declarando-a um dos baluartes da cultura portuguesa no Canadá e no mundo.

As suas palavras foram seguidas pelas de João Ferreira que como presidente da Direcção, e tal como já o tinha feito Jaime Nascimento, agradeceu a presença do público e dos convidados, destacando os patrocinadores e todos os que tornaram realidade as magnificas obras que ali recentemente foram efectuadas e que transformaram a sede da CAT, adaptando-a às necessidades actuais.

Como disse, a Casa renasceu com um novo visual e instalações convidativas que primam pela modernidade, motivo porque "não me canso de agradecer aos que lá trabalharam nas obras, às companhias que deram materiais, às empresas que deram dinheiro e a todos", realçando que "as obras estão todas concluídas e as despesas todas pagas".

Nos andares superiores pretende-se criar um espaço para a terceira idade, mas esse será um projecto para o futuro, destacou o presidente, indicando que actualmente as necessidades principais estão supridas e a CAT "está de boa saúde e não deve nada a ninguém".

O resto do serão seria preenchido pelo espectáculo de fado anunciado para esta Noite de Gala e para proceder à sua apresentação subiu ao palco Clara Abreu, que após saudar o público expressou o seu carinho para com esta colectividade dizendo ser uma das suas predilectas desde que há 33 anos se radicou em Toronto.

O espectáculo abriu com uma guitarrada, interpretada pelos músicos Hernâni Raposo (guitarra), Pedro Joel (viola) e Sérgio Santos (baixo), que acompanhariam de seguida a fadista Elisabeth.

A artista, que fez a sua estreia pública precisamente na CAT, anos antes, foi aplaudida logo que se apresentou em palco, o que se repetiu até à sua última interpretação, num concerto em que presenteou o público com um repertório variado – do fado castiço ao fado canção.

A segunda parte do espectáculo foi preenchido pelo fadista convidado, Ricardo Ribeiro, que se fez acompanhar pelos músicos Filipe Rebelo (guitarra), Carlos Manuel Proença (viola) e Daniel Peixoto (baixo) num espectáculo original e ao longo do qual levou o público numa "viagem sonora" pela canção nacional.

Natural de Lisboa, onde nasceu em 1981, fez a sua estreia aos 12 anos, embora já cantasse desde os 9, como ressalvou Clara Abreu na introdução do artista que, entre outros palmarés, regista a honra de ter dois primeiros lugares (1997 e 1998) e um segundo lugar (1996) na Grande Noite do Fado, além dos prémios Amália (2005), Revelação Casa da Imprensa (2006) e Melhor Interprete Masculino (2011), assim como o título de Comendador da Ordem do Infante D. Henriques, que lhe foi atribuído em 2015.

Tendo por mestre Fernando Maurício, com quem chegou a cantar publicamente, tem actuado nas mais destacadas casas de fados, além de vários palcos internacionais, na França, Itália, Venezuela, Macau e Canadá, e conta já com quatro álbuns gravados.

Como ele próprio define: "Fado é tudo o que acontece. Quando se ri ou se chora, quando se lembra ou se esquece, quando se odeia ou se adora. É ter um jeito de artista para moldar o fado, a voz. O fado de ser fadista é a sina de todos nós".

Muito ovacionado, mostrou-se comunicativo com o público e no seu percurso pelo fado, do menor ao corrido, colocou a plateia também a cantar o "Fadinho Alentejano", arrancando muitas ovações, a última das quais de pé, o que o levou a cantar mais alguns temas antes de se despedir e de se dar por terminado o espectáculo.


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