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Em memória de "Rilhas":

Espectáculo no CCPM homenageou uma das figuras marcantes da comunidade

Por João Vicente
Sol Português

Poucos serão os que após partirem para o além deixarão tão saudosas recordações a tanta gente como Armando "Rilhas" Costa, falecido em 2012 e em memória do qual, no passado sábado (17), lhe foi prestado um tributo especial no Centro Cultural Português de Mississauga (CCPM).

Futebolista, cantor e fadista que se popularizou com a alcunha de Rilhas, Armando Costa era conhecido pela camaradagem, pela alegria e pela boa disposição que semeava por onde passava e foi isso sobretudo que muitos dos seus amigos e colaboradores, bem como artistas da nova geração, recordaram no decorrer dessa noite.

Um deles foi Tony Silva, da empresa TNT FX, que teve uma relação bem próxima com Rilhas e foi quem gravou o seu CD – sendo nessa noite também o responsável pelo som e as luzes durante o espectáculo.

Entre as muitas peripécias que guarda com grata memória, recorda que por alturas da gravação recebeu uma noite um telefonema, "às três ou quatro horas da manhã".

Era o Rilhas, que após uma noite bem passada com amigos queria passar pelo estúdio para mostrar as músicas aos companheiros da borga.

Como nos conta, ainda protestou: que já tinha passado 18 horas no estúdio e que precisava de descansar, mas Rilhas era irredutível e "com o seu jeito, e uma garrafa de Whisky escocês", lá o convenceu.

"O Rilhas tinha aquela personalidade em que entrava [numa sala] e toda a gente adorava porque falava bem e ria-se com todos – conhecia a malta toda", diz-nos com carinho.

Tony Silva testemunhou também em primeira mão o talento futebolístico do amigo e recorda com saudade uma das participações que tiveram anos mais tarde, no Piquenique Internacional da CHIN Radio, em Cuba, e no decurso do qual jogaram uma partida de futebol amistosa.

Tony jogou à defesa na equipa adversária e orgulha-se de nesse dia não ter deixado Rilhas marcar.

"Não era um Eusébio", recorda, mas teve muito talento, que veio a aplicar também numa carreira musical pois tinha presença em palco e um à vontade invejáveis, além de uma personalidade fulgurante que cativava quantos com ele privavam ou se cruzavam, e os levava a tê-lo como amigo.

"O Rilhas nunca tinha nada de negativo a dizer de ninguém", outra característica rara que Tony Silva recorda e que decerto também encantava quem se cruzava com ele pois foi-nos referidas por várias outras pessoas no decorrer dessa noite.

A semente deste projecto partiu de José Eustáquio, que não pôde estar presente nessa noite, mas a entidade organizadora do evento, Camões Entertainment esteve representada pelo seu responsável, Manuel da Costa, com quem trocámos impressões.

Embora se tenham cruzado como contemporâneos, confessa que não privou muito com o homenageado, mas reconhecia o seu valor, como futebolista, cantor e como uma pessoa que se envolvia na comunidade, por isso não hesita em afirmar que fazem falta mais como ele.

"Nós muitas vezes abraçamos pessoas que nunca conhecemos, mas que realmente fizeram uma diferença", acrescenta Manuel da Costa, destacando que por isso nasceu o ímpeto para não deixar que a memória de Rilhas caia no esquecimento.

Também Ilídio Vilela, um dos artistas convidados a actuar nessa noite, conviveu com o Rilhas, a quem emprestava o guarda-roupa para os espectáculos, e afirma que esta foi uma homenagem merecida pois além da jovialidade e do seu envolvimento comunitário, era um homem que respeitava toda a gente.

"Foi uma pessoa simpática, honesta, modesta e simples", afirmou Ilídio Vilela, dizendo sentir a sua presença nessa noite no CCPM.

O músico Hernâni Raposo, que recordou o bom gosto musical e a capacidade que o homenageado tinha para detectar e expressar o sentimento por trás das letras que escolhia, declarou-se extremamente satisfeito com o alto nível do talento presente no alinhamento de artistas que actuaram nessa noite.

Infelizmente, porém, o público não aderiu com o entusiasmo que a organização esperava e que considerava ser merecedora uma vez que o número de espectadores na sala pouco passaria de uma centena.

De qualquer forma o espectáculo fez-se num ambiente intimista e surpreendeu muitos dos presentes pela positiva, começando logo após o jantar e a mensagem de agradecimento do presidente do CCPM, Tony de Sousa, dirigida a todos os que ali se encontravam nessa noite.

A apresentação esteve a cargo de Hernâni Raposo, que produziu o CD do homenageado e que além dos artistas e das canções entremeou também alguns momentos e memórias mais marcantes que com ele compartilhou.

Notadas as ausências dos artistas Guida Figueira e Paulo Filipe, devido a problemas de saúde, o público dedicou-lhes uma salva de palmas em jeito de reconhecimento do seu talento e desejos de melhoras, passando a assistir então ao desfile pelo palco do CCPM de oito vozes de alto calibre da comunidade.

O espectáculo foi dividido em duas partes, a primeira das quais dedicada exclusivamente ao fado, com actuações de Ilídio Vilela, Elizabete, Tony Gouveia, Soraia Mejdoubi, Sandra Silva, Nelz, Jennifer Bettencourt e Henrik Cipriano, e acompanhamento musical de Hernâni Raposo (guitarra portuguesa), Valdemar Mejdoubi (guitarra de fado) e Sérgio Santos (viola-baixo).

Findo o intervalo, subiu ao palco o mesmo naipe de artistas, desta feita acompanhados por uma banda completa – e que além dos supracitados músicos passou a integrar também Fernando Tavares e Cosimo Crupi (teclados), Caco (bateria) e Washington da Silva (percussão) – que se dedicaram a interpretações de canções de diferentes géneros, extraídas do repertório do Rilhas, incluindo temas com letra do também saudoso José Mário Coelho.

Recorde-se que este espectáculo, apresentado pela primeira vez em 2017, durante as comemorações do Dia de Portugal, já passou também pelo palco do Clube Oriental de Cambridge, em Janeiro.

Uma última actuação a não perder está agora agendada para o dia 26 de Maio, na Casa do Alentejo de Toronto.


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