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Dois portugueses distinguidos com Prémios de Serviço Comunitário da Polícia de Toronto

Por João Vicente
Sol Português

Ao todo foram 53 as comendas – duas delas destinadas a portugueses – e uma carta de recomendação que terça-feira (20) foram entregues a elementos das forças policiais de Toronto e a um paramédico, no decorrer de uma cerimónia na sede dos Serviços de Polícia de Toronto que visou reconhecer aqueles que mais se distinguiram no desempenho das suas funções.

Algumas das distinções surgiram no âmbito de um caso que no Verão de 2017 galvanizou a comunidade portuguesa e envolveu Domingos Martins, um octogenário português que desapareceu perto de sua casa.

Entre 28 de Julho e 2 de Agosto a família sofreu sem saber do seu paradeiro e a notícia chegou a alguns dos maiores órgãos de comunicação social de Toronto, além de se espalhar pelas redes sociais.

Foram cinco dias de sofrimento que só terminou quando o detective luso-canadiano Jeffery Correia foi dar com o idoso, de 83 anos, entalado entre uma cerca e um muro de sustentação, perto da auto-estrada 401.

Esta terça-feira a equipa encarregue da investigação foi distinguida com comendas pelo seu desempenho, entregues pelo chefe da polícia de Toronto, Mark Saunders, na presença do filho de Domingos Martins, Carlos Martins, proprietário da conhecida Churrasqueira Martins, e do cunhado, Jack da Silva.

Além do detective Jeffery Correia, foram também premiados pelo seu envolvimento nesta investigação o superintendente da Polícia Ronald Taverner, os primeiros-sargentos Leslie Hildred e Scott Bradbury, e os agentes Daniel Sullivan, Wesley Green, Cambria McKay, Brandon Mak e Jason Bellamy, todos eles da esquadra 12.

Em declarações ao jornal Sol Português, Jeffery Correia explicou o seu envolvimento neste caso, para o qual foi destacado "à última hora".

Segundo recorda, após concluir o seu turno da noite, o agente que o deveria substituir faltou e por isso continuou a trabalhar pelo dia adiante. Entretanto, os dados recolhidos e analisados pela equipa encarregada da investigação levaram-nos a concentrarem-se numa área bastante mais restrita.

Foi ao examinar essa área mais atentamente que Jeffery encontrou Domingos Martins, no local e na posição em que o idoso se encontrava praticamente desde que desapareceu.

"A princípio senti um choque, depois fiquei contentíssimo quando verifiquei que ele estava vivo", relata o detective luso-canadiano, que explica que a partir daí foi só trabalhar para o retirar daquela situação e certificarem-se de que recebia os cuidados necessários.

Segundo Jeffery Correia, "cada caso é um caso" e este, em segunda análise, contou com alguns dos elementos considerados típicos no desaparecimento de pessoas com doença de Alzheimer ou demência, nomeadamente o trajecto percorrido, caracterizado pela tendência em caminharem a direito até encontrarem um obstáculo, altura em que viram sempre para a direita.

A mãe de Jeffery também presenciou a cerimónia, que foi apresentada pelo inspector Dominic Sinopoli na presença do presidente da Câmara de Toronto, John Tory, e do vice-presidente do Conselho de Administração dos Serviços de Polícia de Toronto, o vereador Chin Lee (Scarborough-Rouge River).

Para Carlos Martins, é-lhe ainda difícil falar do que aconteceu mas manifestou-se muito agradecido à Polícia, sobretudo ao líder da equipa responsável por encontrarem o pai, o superintendente Taverner, bem como à comunidade e a todas as pessoas que participaram activamente nas buscas.

Como relata, na altura não conseguia estar parado e por isso andava por fora, à procura do pai, dai que o "centro de operações" da família fosse a casa do cunhado, Jack da Silva, que foi quem alertou a polícia e se manteve em contacto com os agentes.

Jack da Silva explica que o facto de trabalhar para o sindicato LIUNA Local 183 e do cunhado ter o restaurante, deu-lhes acesso a muita gente, por isso depressa reuniram toda uma equipa de apoio, entre familiares, amigos e conhecidos, que chegou a certa altura a contar com cerca de 160 pessoas, algumas das quais sem os conhecerem mas que simplesmente quiseram ajudar ao tomarem conhecimento da ocorrência.

Passavam as noites à procura e no dia seguinte ainda iam trabalhar, recorda Jack a propósito do que descreve como "cinco dias de martírio com um final feliz" e que, considera, ainda poderá trazer alegria a muitas outras pessoas.

Em Outubro, Carlos e Jack, em parceria com Tony do Vale, do sindicato LIUNA Local 506, deram início a uma Fundação que tem por objectivo munir gratuitamente com pulseiras de localização GPS pessoas que correm risco de se perder por motivo de doença de Alzheimer, demência ou autismo.

Aguardam agora a conclusão do processo para a declarar uma organização sem fins lucrativos, para então poderem angariar fundos e oferecer as pulseiras localizáveis a pessoas diagnosticadas com uma doença ou perturbação que as tornem passíveis de se perderem.

No decorrer desta cerimónia, destaque ainda para outra portuguesa premiada, Dora Oliveira, uma agente da polícia que presta serviço na esquadra 12 e que, conjuntamente com o sargento Juan Quijada-Mancia e o detective Ranbir Dhillon, foi agraciada pela forma carinhosa e solidária como lidou com uma família cujo carro foi roubado, com a filha no interior.

O carro viria a ser encontrado ainda a trabalhar, num parque de estacionamento e com a menina lá dentro, e a agente, que exerce funções há 16 anos, foi reconhecida pelo seu desempenho no processo de manter a família calma e informada.

Presenciaram a cerimónia o esposo, o filho e a filha da agente, que explica que o facto de ser mãe a ajudou a lidar com a situação.

"As horas vão passando e uma pessoa quer dar sempre informações positivas aos pais, para que eles mantenham a força de vontade e a esperança de que `vão encontrar a minha menina', mas, claro, também dá para lembrar da minha filha, porque se acontecesse comigo o que é que eu ia fazer e o que é que eu queria que fizessem por mim?", pergunta Dora Oliveira, retoricamente, ao recordar o caso.

"Foi assim que eu reagi: dava-lhes o conforto que eles precisavam quando precisavam dele e dizia as palavras que achava que deviam ser ditas", concluiu.


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