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Entrevista com Ana Bailão:

Agora, mais do que nunca, "temos de ser uns para os outros"

Vereadora de Davenport e vice-presidente do município torontino pronuncia-se a propósito da pandemia e da construção de residências de apoio no bairro que representa

Por João Vicente
Sol Português

Com a pandemia de Covid-19 a entrar numa segunda vaga e a situação a evoluir, procurámos obter o parecer da única voz portuguesa na Assembleia Municipal de Toronto, a vice-presidente da Câmara e vereadora pelo distrito de Davenport, Ana Bailão, sobre os principais desenvolvimentos a nível da autarquia.

Abordámos também assuntos que eclodiram recentemente no distrito que representa, em torno da polémica construção de um prédio constituído por estúdios para pessoas sem abrigo e com problemas vários, e até da avaliação que vai ser feita em Scarborough de um novo vai-vem eléctrico sem condutor, como potencial protótipo para o futuro dos transportes públicos na cidade.

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Sol Português – Gostaríamos que nos fizesse um resumo da situação em que Toronto se encontra face à pandemia de Covid-19 – de onde vimos, onde estamos e para onde vamos?

Ana Bailão – Nós estamos claramente numa segunda vaga. Tivemos o primeiro caso identificado em Toronto em Janeiro e em Março fechámos tudo, [quando] tivemos aquela primeira vaga. Acho que devido a termos aquele encerramento tão drástico, passadas algumas semanas começámos logo a ver os resultados – acho que foi bem contida. Durante o Verão tivemos dias fantásticos, com números bastante bons...

Agora estamos numa segunda vaga. Ainda não sabemos é que tipo de vaga vamos ter. Pode ter uma uma subida muito acentuada – e estamos mesmo naquele ponto em que começa a subir e dispara por aí acima e perdemos o controlo – ou pode andar no que eles [autoridades de saúde] chamam de "hills and valleys" (montes e vales, ou seja, altos e baixos), ou ter aquela segunda vaga que aumenta mas que conseguimos manter a um nível em que entretanto depois podemos abrir outra vez [a economia e] voltar aos restaurantes e assim, e conseguir conter a situação. Isso é que ainda não sabemos, mas que já estamos numa segunda vaga, já.

Ainda temos todas as probabilidades de conseguir controlar a situação, mas tudo depende do nosso comportamento. Numa pandemia é preciso a colaboração de todas as pessoas.

SP – É de certa forma imprevisível, porque cada pessoa é um factor...

AB – Exactamente. Se temos um grande número de pessoas que não querem saber e se ficam infectadas, contaminam [também] muita gente, o índice de propagação começa a ser muito mais do que 1,0 (segundo os peritos, a taxa de propagação, que indica a velocidade/extensão do contágio, deve procurar manter-se abaixo de 1,0 para manter a pandemia sob controlo) [...] e esse é que é o problema.

Portanto, nós temos que trazer [esse índice] abaixo de 1,0 – assim é que controlamos a pandemia. E isso só é possível com a ajuda das pessoas: terem o cuidado de usar a máscara, manterem dois metros de distância, não estar em sítios fechados com muita gente e ter contacto mais próximo [só] com um grupo pequeno de pessoas.

SP – Ao entrarmos nesta segunda vaga da pandemia e ao vermos que foi necessário regredir de imediato à segunda fase de desconfinamento, o que é que a Câmara está a fazer de diferente desta vez e porquê? Que lições foram aprendidas e estão agora a ser aplicadas?

AB – O que estamos a fazer diferente é que não voltámos de imediato ao encerramento total. O que se usou foram os dados [que indicam] que havia certos sectores com mais propagação. Portanto, está-se a tentar controlar o número de infecções só afectando esses sectores […] através dos números que o departamento de saúde pública tem vindo a transmitir.

No princípio ainda não havia muito para analisar, [mas] agora nesta fase já vamos analisando onde estão a acontecer os surtos infecciosos e então estamos a tentar atacar mais a nível local e sectorial [em vez de] fazermos um encerramento geral.

O que se está a tentar evitar agora é que os hospitais cheguem ao limite. Queremos que qualquer pessoa, seja por Covid-19 ou por qualquer problema de saúde, possa ter acesso ao sistema de saúde e seja atendido, e que o nosso sistema de saúde tenha sempre capacidade de resposta.

Mesmo os encerramentos nalguns sectores têm que ser sempre acompanhados com apoios económicos porque se não, não vai resultar, porque as pessoas vêem-se tão aflitas por perderem os seus negócios e terem de dar de comer à família e pagar as suas contas, e isso não são opções que se possam dar às pessoas. Por isso os governos aos três níveis têm de ter incentivos de apoio económico, para que essas indústrias consigam sobreviver.

SP _ Se por um lado as esplanadas de rua, implementadas por empresas de restauração (cafés, bares, restaurantes), ajudaram essas empresas a manter-se minimamente viáveis neste período difícil, por outro também bloquearam as faixas de circulação dos automóveis e impediram o estacionamento, de forma que alguns dos comerciantes vizinhos talvez se sentissem prejudicados pela inconveniência que causaram aos seus clientes e por aprofundarem a sua perda de negócio. Já existem dados que permitam analisar até que ponto é que estas esplanadas cumpriram com os objectivos que levaram à sua implementação? Já se pode dizer se foram um sucesso, pelo menos nesse aspecto?

AB – Eu confesso que na minha área foram – de longe – mais aqueles que viram esta iniciativa com agrado do que os que reclamaram. Tanto associações como comerciantes, foram muito, muito mais aqueles que apoiaram esta iniciativa.

Ainda não temos os dados. Vão ser recolhidos agora, acho que é em Janeiro que vem um relatório, mas, dos comerciantes com quem tenho falado aqui na nossa área – e nós fazemos parte das associações de comerciantes e vamos às reuniões – para alguns deles a salvação foi poderem ter mais aquelas mesas durante estes meses.

SP – Quer isso dizer que se há certos estabelecimentos, como por exemplo salões de cabeleireiro, que porventura possam ter sido afectados negativamente pela falta de estacionamento, poderá haver lojas de conveniência e outros tipos de negócios que foram beneficiados por os restaurantes atraírem pessoas ao local?

AB – Exactamente. Continua a haver estacionamento e o que nós temos que ver é num todo, não é?! Na [rua] Dundas, com a quantidade de restaurantes que ali há, se eles não conseguirem sobreviver, imaginem os estabelecimentos vazios que vai haver. Não é bom para ninguém.

Ter uma rua com vitalidade, em que todo o comércio sobrevive, é importante. É este equilíbrio que tem que se ir mantendo. Por isso é que também estivemos muito tempo sem cobrar estacionamento, para ajudar a todos. Uns não precisam de estacionamento porque precisam de esplanada, outros precisam de estacionamento e não cobrávamos, portanto houve várias iniciativas em que se tentou ajudar ao máximo para tentar equilibrar.

SP – Até quando é que as esplanadas na estrada vão continuar abertas?

AB – Dia 15 de Novembro era a data prevista [encerrarem], mas se por acaso tivermos alguma tempestade de neve ou coisa assim, elas têm que sair imediatamente. Temos de tirar tudo antes de começar a nevar, porque depois precisamos de limpar as estradas.

SP – Uma das coisas que mais tem contribuído para gerar confusão e frustração com respeito às regras relativas à pandemia são as claras contradições. Por exemplo, autorizar apenas grupos de 8 ou 10 pessoas – e agora voltar a conviver só com o núcleo familiar – quando nas escolas os alunos são 30 numa sala. As pessoas constatam essas contradições e começam a duvidar da validade do que dizem as autoridades de saúde, independentemente do nível de governo que emite a mensagem. Até que ponto é que a cidade de Toronto está consciente disso e a corrigir acções presentes e futuras por forma a apresentar uma frente unida e uma posição coerente nas suas diferentes facetas?

AB – Eu acho que por vezes não é fácil entender certas medidas que são tomadas pelo governo provincial, mas comunicadas por todos nós. Uma coisa que nós temos que ver é que são recomendações de médicos e de chefes de medicina – de pessoas cujo trabalho é controlar epidemias. O [Primeiro-ministro provincial] Doug Ford não é epidemiologista, o Presidente da Câmara não é epidemiologista e eu não sou epidemiologista, portanto temos de ter um pouco de confiança no que os médicos nos dizem, e depois o que temos de fazer é pedir para haver um equilíbrio também com a forma de vida, a saúde mental das pessoas e o controlo da pandemia.

Às vezes, por exemplo, estamos a pedir às pessoas para controlarem ao máximo os contactos e com quem o fazem, precisamente para que o comércio e as escolas continuem abertas.

Nas escolas as crianças estão 20 numa sala e em casa pede-se às pessoas para só estarem o número máximo possível, mas isso é porquê? Porque tem havido um controlo muito estratégico para as escolas – assim que há mais de dois casos, as escolas são fechadas. Controla-se isso, não tem havido surtos infecciosos. Tem-se andado a analisar os números diariamente e o que se faz também é que, mesmo que a criança esteja na escola – o que é extremamente importante para o apoio social e para a saúde mental dos pais e das crianças – se aquela família tiver um certo controlo, controla-se mais. E o que é que é mais benéfico? É que a criança esteja na escola ou que eles tenham uma festa em casa? Portanto são decisões que têm de se tomar.

Nós aconselhamos – porque as escolas nós controlamos – estamos atentos e, em caso de surto infeccioso, as escolas são fechadas. As direcções escolares têm fechado logo as escolas, e fecham por duas semanas para ter a certeza que não há uma contaminação a originar das escolas – e até à data todas as que têm havido nas escolas têm ido de fora para dentro. Não há contaminações de dentro para fora.

SP – ...Ainda – que se saiba – mas é natural que ocorram, caso não se esteja em cima do assunto.

AB – Por isso é que é tão importante haver testes – a província a fazer os testes e as municipalidades a fazer o rastreio. É extremamente importante porque só através desse rastreio que se faz, com essa informação, é que nós em vez de termos de fazer um encerramento global, fazemos um encerramento muito mais estratégico: uma escola, em vez de se fechar as escolas todas. Mesmo que sejam 10, é muito diferente do que fechar 1.000.

Portanto, é isso que se está a tentar fazer: é tentar ter um nível de normalidade o máximo possível e seguir os conselhos daqueles que sabem como é que havemos de controlar estas epidemias, porque na verdade nós não somos médicos nem cientistas – essa é a realidade.

SP – A Associação de Vizinhos da Avenida Lakeview e o grupo Toronto West Siders for Safer Streets no Facebook estão a levantar uma questão com respeito à construção duma residência no local da antiga esquadra 14 da Polícia, sita ao 150 da Harrison, alegando que se destina a pessoas solteiras em vez de famílias, como havia inicialmente sido estipulado, e citam falta de envolvimento no processo e de informação em português para as áreas vizinhas, entre outras coisas. Ameaçam até processar a autarquia. Até que ponto é que essa frustração é compreensível e porque é que as coisas foram feitas dessa maneira?

AB – Nós temos um Plano de Habitação que foi aprovado pela Câmara Municipal, teve consultas a nível da cidade inteira e foi aprovado em Dezembro de 2019. O plano diz que vamos construir 40.000 habitações. Dessas, 18.000 são "supportive housing" [residências com serviços de apoio] – e o que é que isso significa? São residências que envolvem não são só [a construção d]o prédio, mas também [a prestação de] apoios a essas pessoas.

Para além de cada uma ter o seu apartamento, tem também apoios para as ajudar a arranjar emprego e com ajuda médica...

SP – …No próprio edifício?

AB – Sim, porque muitas delas são pessoas que viveram na rua, muitas têm, por exemplo, doenças psicológicas, toxicodepen-dência, às vezes traumas de violência doméstica e coisas assim, portanto há que haver um apoio para elas e este "supportive housing" é este tipo de residência.

A Câmara disse que ia construir 18.000 dessas casas. Isto não é novo, nós já temos na cidade e aqui na área – aliás, na Dufferin e Dundas há um prédio perto de St. Anne's que já está ali há não sei quantos anos – uma grande quantidade de "supportive housing". Nesse plano também dissemos que íamos fazer 1.000 casas pré-fabricadas. Entretanto veio o Covid-19 e nós começámos a ter uma pressão muito grande nos nossos abrigos – porque temos de fazer o distanciamento físico – e o que é que passámos a fazer? Tivemos de alugar hotéis, arrendar prédios... porque temos de ter a distância entre as pessoas e seguir o conselho que estamos a dar.

Entretanto começámos a ver que esta pandemia não vai desaparecer assim tão rapidamente. Cada vez mais temos pessoas a morar nos nossos parques. Aliás, vai-se ao parque Dufferin Grove e tem lá um monte de tendas, vai-se ao Trinity Bellwoods e tem lá montes de tendas, e isto são pessoas aqui da área que estão sem abrigo.

Então o que a Assembleia decidiu foi que tinha de se acelerar o mais rapidamente possível a construção destas casas porque em vez de estar a meter as pessoas num abrigo, o que elas realmente precisam é de habitação. Portanto houve um aceleramento do projecto em Abril, a Câmara começou a ver quais são os terrenos que tem para fazer este projecto e este foi um deles. Há este, há o número 11 da rua Macey, brevemente vamos anunciar mais três e por aí adiante – porque vai haver mais.

Isto foi anunciado em Junho, foi distribuído um panfleto a todas as pessoas ali na área, com a informação em português também...

SP – ...Elas queixam-se que não.

AB – Pois, mas eu posso enviar uma cópia. Os placards foram imediatamente afixados no local e estão lá desde a primeira semana de Junho. Houve reuniões virtuais, porque não podia ser doutra maneira. Contratámos um consultor que foi de porta em porta e eu tenho tido várias reuniões – desde quintais de pessoas até no parque, até falar com pessoas ao telefone. Mas há um bocado de falta de informação, porque há muitas pessoas que pensam que isto é um abrigo, muitas que pensam que é um centro de reabilitação, mas não é. É um prédio com 44 apartamentos em que vão ter ali rendeiros – mulheres, homens, idosos, enfim, só pessoas a partir dos 18 anos é que podem viver ali sozinhos – e vai ter apoios para essas pessoas.

Eu vejo a situação assim: temos uma cidade em que temos 9.000 pessoas a morar na rua todas as noites ou em abrigos, portanto vamos construir habitação e dar apoio a essas pessoas ou vamos deixá-las ficar na rua?

SP – Os grupos de moradores que se opõem questionam porque é que vão ser transferidos homens de um abrigo em Parkdale para esta área.

AB – Isso também já lhes foi explicado. Eles estão na área, dê por onde der, e já existem outras casas com este tipo de apoios. Este vai ser um prédio com 44 apartamentos que vai dar apoio às pessoas que já estão na área. Eu vou continuar a trabalhar com os moradores todos da área. Houve muita gente que também enviou mensagens de apoio.

SP – Mas qual vai ser a proporção de homens solteiros que ali vão residir?

AB – Não sei. Os apartamentos são todos de solteiros. Ora se eu estou a construir um prédio, chego ao pé do empreiteiro e pergunto "quantos homens solteiros vão estar aqui a morar"?

SP – Certo, mas visto que é um projecto planeado era possível que estivesse prevista essa proporção.

AB – Há organizações que só trabalham com mulheres, por exemplo, e há organizações que só trabalham com homens. Estas organizações vão estar abertas a qualquer tipo [de residente].

Nunca nos podemos esquecer que estas pessoas são filhos de alguém, pais de alguém, irmãos de alguém, família de alguém, e nunca se sabe quando um dia um dos nossos, ou até nós mesmos, podemos vir a precisar de um sítio como este e desse apoio por temos tido algum percalço mental, de saúde ou até financeiro, e cairmos num momento difícil da nossa vida. Espero que as pessoas pensem nisso.

SP – Ao terminarmos, talvez numa nota mais positiva, a Câmara Municipal de Toronto anunciou recentemente que vai avaliar um sistema de transporte expresso, tipo vai-e-vem eléctrico, sem condutor em Scarborough. Que mais detalhes nos pode adiantar e que outros projectos estão planeados com vista ao futuro?

AB – Temos um projecto-piloto em que vamos testar veículos sem condutor na Exhibition Place, já estamos a fazê-lo em Scarborough, num expresso para o Jardim Zoológico, que é onde também vai começar. Portanto isto é o futuro e nós temos que testar estas coisas.

Outra coisa que cada vez mais se está a testar na área da construção residencial, por exemplo, é a construção de edifícios de apartamentos com seis, sete ou oito andares, todos em madeira, porque são mais ecológicos e é uma indústria que é canadiana e podemos promover a indústria local.

SP – Há mais alguma coisa que gostasse de divulgar ou alguma mensagem que gostasse de deixar à comunidade?

AB – A mensagem é de agradecimento e encorajamento. De agradecimento por tudo o que as pessoas têm feito. [pois] como representante desta área acho que todos nós temos feito sacrifícios – de não ver a nossa família; em termos dos negócios – portanto acho que é importante reconhecer isso. E de encorajamento porque têm sido momentos difíceis – muita gente teve de ficar em casa, perderam os empregos, os negócios estão com bastantes dificuldades, por isso temos de estar juntos para nos apoiarmos uns aos outros. É extremamente importante que nos apoiemos uns aos outros. Eu, por exemplo, tenho apoiado o Daily Bread Food Bank (banco alimentar), porque eles estão com uma procura astronómica – muito mais do que o normal – e isto vem das dificuldades que as pessoas estão a sentir. Portanto, acho que é uma altura em que temos que ser uns para os outros.


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