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Festa de Nossa Senhora do Monte:

Fim-de-semana marcado pela fé e pelo convívio no parque Madeira

Por João Vicente e Noémia Gomes
Sol Português

A festa de Nossa Senhora do Monte, santa padroeira da Madeira, é para muita gente motivo de peregrinação anual até ao parque Madeira, perto de Georgina, onde no passado fim-de-semana mais uma vez se registou grande afluência ao local, quer por motivos religiosos, quer seculares.

As portas do verdejante parque, propriedade da Casa da Madeira de Toronto, abriram logo pelas 8h00 da manhã de sábado (18) e grande parte do dia foi despendido pelos que chegaram mais cedo simplesmente a apreciar os agradáveis momentos de lazer e convívio ao ar livre que este espaço e o bom tempo proporcionaram.

Entretanto – e enquanto os visitantes aproveitavam o dia – os muitos voluntários da colectividade madeirense asseguravam o bom funcionamento do bar, da cozinha e das três "barracas" – tanto a do bazar como as da produção e venda das populares mal-assadas e do tradicional bolo do caco.

Curiosamente, este último estava a ser preparado por Gledes Casanova, de origem peruana, que aprendeu a fazer este bolo característico da Madeira com uma senhora de origem romena.

Casada com um madeirense, Gledes Casanova viveu durante cinco anos na Madeira, altura em que adquiriu prática na confecção deste bolo típico que diz ser procurado pelos madeirenses em alturas de festa e muito apreciado pelos turistas durante todo o ano.

Enquanto isso e repartindo as responsabilidades, o presidente do Executivo, Luís Bettencourt, deu uma ajuda na cozinha, o presidente do Conselho Fiscal, Jaime Martins, auxiliou na produção e venda de mal-assadas, e o presidente da Assembleia-Geral, Salomé Gonçalves, fez as vezes de mestre-de-cerimónias.

A meio da tarde a música dominou as principais actividades, a começar pela actuação do conjunto Unique Touch que levou a animação até ao palco do parque Madeira.

O espectáculo continuou com a jovem Melanie Cabral, de 15 anos, que surpreendeu com a sua interpretação e um repertório interessante e moderno, seguida do cantor Décio Gonçalves que puxou mais para os sons e ritmos tradicionais, apreciados por todos mas especialmente pela assistência mais madura.

O espectáculo dessa tarde viria a encerrar com uma longa e bem recebida actuação do rancho folclórico da casa, após o que se procedeu pouco depois à romagem, com ofertas para o bazar.

Em desfile, a romaria seguiu da capela até junto do bazar contando com a participação de algumas dezenas de pessoas que transportaram cestos com frutas, vegetais e enchidos que vieram depois a ser leiloados, missão que coube ao conselheiro permanente para as Comunidades Madeirenses no Canadá, José Rodrigues.

Pelo dia fora continuaram a chegar pessoas que se foram espalhando por todas as áreas do parque, embora a maior concentração se registasse junto ao bar, junto aos gigantescos fogareiros onde se iam assando as famosas espetadas madeirenses – que marcam todos os eventos neste parque – e junto às barracas das mal-assadas e do bolo do caco, frente às quais longas filas serpenteavam e onde quem estava atrás do balcão não tinha mãos a medir.

Ao final da tarde a Banda Filarmónica Lira Portuguesa de Brampton acompanhou a cerimónia da novena, durante a qual se celebrou Nossa Senhora de Fátima e que foi dirigida pelo padre Paul Hancko, da igreja da Imaculada Conceição, em Sutton West, e acompanhada pelo diácono Carlos Nogueira.

Já a noite estava cerrada quando a banda de novo deu vida aos instrumentos e se procedeu ao início da procissão de velas, uma das mais marcantes actividades religiosas que decorre nestas festividades.

O cortejo contornou o parque, seguido por um caudal de gente que se cifrava em várias centenas de pessoas, antes de regressar à capela com o andor de Nossa Senhora de Fátima.

Em declarações ao jornal Sol Português, Salomé Gonçalves recorda que foi há apenas um ano que as festividades da Senhora do Monte, na Madeira, ficaram marcadas pela tragédia, quando uma árvore caiu causando 13 vítimas mortais, e considera que isso irá continuar a marcar as festividades em anos vindouros.

Na sua avaliação, este ano não esteve tanta gente nas festas da santa padroeira na Madeira e recorda que nem fogos de artifício foram usados por precaução em relação aos incêndios, mas, como destaca, "o que interessa é a fé, as promessas e tudo isso".

No que toca à realização local, o presidente da Assembleia-Geral da Casa da Madeira de Toronto, afirma que esta festa no parque Madeira conta sempre com mais gente do que qualquer outra, caracterizando-a mesmo como "a maior festa da comunidade ao ar livre" e acrescentando que costumam vir muitas pessoas não só da Área da Grande Toronto e do sul do Ontário, mas também dos Estados Unidos da América, de Montreal e doutras paragens.

As festividades prolongaram-se a domingo, altura em que decorreu a tradicional procissão em honra de Nossa Senhora do Monte.

A Banda Filarmónica Lira Portuguesa de Brampton mais uma vez acompanhou a cerimónia religiosa, que incluiu uma missa campal celebrada pelo padre José Martins, da paróquia de Santo André, em Rexdale, e a procissão, desta feita com os andores de Nossa Senhora de Fátima e da Senhora do Monte.

O baile de domingo foi mais uma vez abrilhantado pela actuação do conjunto Unique Touch e do cantor Décio Gonçalves, tendo-se ainda realizado um sorteio cujo prémio principal foi uma viagem à ilha da Madeira.

A festa da Senhora do Monte tem a sua origem no século XV, quando uma pastorinha contou à família que tinha brincado com uma menina numa mata afastada da povoação e que ela lhe tinha oferecido uma merenda.

A família não acreditou, por ser um sítio isolado e distante, mas no dia seguinte a menina disse que tornou a acontecer pelo que ao terceiro dia o pai terá ido observar furtivamente o que se estava a passar, dando com a filha frente a uma imagem de Maria Santíssima que a pequena identificou como sendo a menina de que falava.

O pai terá dado conta do ocorrido às autoridades, que pouco depois encontraram e colocaram a imagem na Capela da Encarnação, junto à actual igreja da Senhora do Monte, ficando desde então conhecida por esse nome.

Segundo apurámos, o parque Madeira volta a abrir as suas portas nos dias 8 e 9 de Setembro, para a festa do Bom Jesus de Ponta Delgada e dos compadres.

Entretanto, questionado sobre a dificuldade perene de muitos clubes e associações em atrair e cativar os jovens, Luís Bettencourt refere que lhes vão dedicar um evento no parque já no dia 22 de Setembro, indicando tratar-se de um festival infanto-juvenil que coincide também com a celebração da vindima.

Segundo Jaime Martins, um dos próximos passos para a Casa da Madeira vai ser o melhoramento das estradas do parque, algo que deverá acontecer "só para o ano".


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