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Eleições federais: 600 milhões de dólares depois, tudo igual

Canadá continua com governo de minoria Liberal

Justin Trudeau perdeu a aposta ao convocar eleições antecipadas para tentar obter uma almejada maioria parlamentar, mas ainda assim o dirigente do partido Liberal garantiu um número de votos suficiente para ser eleito pela terceira vez para o cargo de Primeiro-ministro do Canadá.

Concluída a votação que levou milhões às urnas na segunda-feira (20), tudo continua como dantes, com o governo a precisar do apoio de pelo menos outro partido na Assembleia Legislativa para não cair e poder legislar durante os próximos quatro anos.

Esta situação não afasta a possibilidade de que também este mandato venha a ser encurtado e seja necessário voltar às urnas antes de 2025.

Assim, depois de 36 dias de campanha e uma eleição com um custo estimado em 600 milhões de dólares, a mais cara de sempre, tudo indica que a composição final da Câmara dos Comuns não deverá ser muito diferente da que existia ao ser dissolvida em Agosto.

À dissolução do Parlamento, os Liberais tinham 155 assentos, os Conservadores 119, o Bloco Quebecois 32, o partido Neo-democrático (NDP) 24 e os Verdes dois, com cinco deputados independentes e um lugar por preencher.

Ao convocar eleições antecipadas a meio do mandato, Justin Trudeau justificou a decisão como uma forma de dar aos eleitores a oportunidade de escolherem quem consideram que deve levar a luta contra a pandemia até à sua conclusão e conduzir o país na recuperação económica.

Entre as promessas feitas, destacou a criação de uma rede nacional de creches, uma intervenção mais intensa em torno das alterações climáticas e a apresentação de uma solução para resolver a falta de habitação acessível no país.

No discurso de vitória em Montreal, já na madrugada de terça-feira, Justin Trudeau considerou o resultado indicativo de que os canadianos querem que os Liberais voltem "ao trabalho com um mandato claro" para levar "o Canadá a superar esta pandemia" e a prosperar, garantindo que ele e a sua equipa estão prontos para essa missão.

Com mais de 850.000 votos recebidos pelo correio, a entidade responsável pelo sufrágio, Elections Canada, indica que poderá levar cinco dias até conseguir contabilizar todos os boletins, o que significa que nos distritos mais contestados não foi ainda possível apurar conclusivamente o candidato vencedor.

Os resultados mais recentes davam vitória aos Liberais com 149 distritos eleitorais confirmados e à frente em nove outros, seguidos dos Conservadores com 117 e mais dois em vantagem.

O Bloco Quebecois conquistou 30 distritos e estava à frente em quatro outros, o NDP tinha 22 distritos confirmados e três em disputa, e os Verdes conseguiram eleger deputados em dois distritos.

Fortaleza liberal no Ontário e Quebeque

Para os Liberais, a noite começou com um desempenho mais fraco em comparação com as eleições em 2019, ao perderem três assentos na região atlântica.

Apesar disso, os resultados no Quebeque e no Ontário, as províncias mais populosas do país, foram suficientes para lhes dar a vitória.

Toronto e os subúrbios – coloquialmente conhecidos por "área 905" em virtude do indicativo telefónico – revelaram-se uma fortaleza liberal resistente já que os Conservadores não conseguiram qualquer ganho significativo entre os eleitores da designada Área da Grande Toronto (AGT).

Justin Trudeau foi entretanto reeleito em Papineau, Quebeque, distrito eleitoral que desde 2008 representa na Câmara dos Comuns.

Entre as hostes Liberais há ainda a assinalar a reeleição de Chrystia Freeland no círculo eleitoral de University-Rosedale, na baixa de Toronto, uma de vários ministros que voltam a Otava.

Como ela, foram reeleitos os ministros Bill Blair, em Scarborough-Sudoeste (Ontário); Jean-Yves Duclos (Quebeque); Melanie Joly, em Ahuntsic-Cartierville (Quebeque); David Lametti, em LaSalle-Emard-Verdun (Quebeque); e Harjit Sajjan, em Vancouver-Sul (Colúmbia Britânica).

Anthony Rota, que desde 2019 é o presidente da Câmara dos Comuns – cargo que assumiu pouco antes da pandemia – voltou a vencer em Nipissing-Timiskaming, região norte do Ontário.

Liderança de Erin O'Toole em perigo?

Com base nos resultados já conhecidos, os Conservadores terão conquistado mais uma vez o voto popular, à semelhança do que aconteceu em 2019, mas tal como o seu antecessor, o actual dirigente do partido, Erin O'Toole, acabou por não conseguir destituir o Primeiro-ministro que desde 2015 ocupa o cargo.

Erin O'Toole apresentou uma plataforma eleitoral que visava aumentar o investimento na saúde, reduzir o défice ao longo da próxima década e fortalecer as regras de ética que os políticos devem cumprir, no que classificou como uma visão mais moderada do conservadorismo.

No discurso que proferiu a partir de Durham, no Ontário, onde aguardou o resultado das eleições, o dirigente Conservador garantiu que não tenciona renunciar ao cargo e prometeu que voltará a tentar levar o partido à vitória nas próximas eleições.
Contudo, a derrota dos Conservadores levantou dúvidas de imediato a respeito da sua liderança, depois do seu antecessor, Andrew Scheer, ter sido afastado na sequência de um resultado muito semelhante, em 2019.

Outros partidos na contenda

O líder do NDP, Jagmeet Singh, voltou a ser reeleito em Burnaby-Sul, Colúmbia Britânica, mas o objectivo do partido era conseguir 50 assentos no Parlamento e os neo-democratas viriam a ficar muito aquém das expectativas, conseguindo apenas metade.

Ao dirigir-se aos seus apoiantes e depois de congratular o Primeiro-ministro "pela sua reeleição", Jagmeet Singh prometeu continuar a pressionar o governo e a apresentar "políticas progressistas" sobre saúde, clima, habitação e reconciliação com os povos indígenas.

A táctica do dirigente neo-democrata durante a campanha eleitoral esteve virada sobretudo para os eleitores jovens, com forte presença nas redes sociais e especialmente na plataforma TikTok, que é usada principalmente por utentes com menos de 30 anos e onde era o único dirigente partidário representado.

Em contenda apenas no Quebeque, o dirigente do Bloco Quebecois, Yves-François Blanchet, conseguiu preservar a maioria dos assentos que o partido ocupava antes da eleição, embora um aumento no número de votos para alguns candidatos do NDP na província tenha colocado os dois partidos numa luta acesa pelo título de "terceiro partido" mais votado.

Por contraste, os Verdes parecem ter perdido uma parte significativa do apoio eleitoral que receberam em 2019, com a própria dirigente do partido, Annamie Paul, a terminar em quarto lugar no distrito eleitoral de Toronto Centro, por onde concorreu.

Em declarações aos órgãos de comunicação social em Toronto, Annamie Paul mostrou-se desapontada pelo resultado, pois "ninguém gosta de perder", mas afirmou sentir-se "muito orgulhosa do esforço" despendido.

Apesar do partido acabar com pouco mais de dois por cento do voto popular, viria no entanto a eleger dois deputados: Mike Morrice, em representação de Kitchener-Centro, no sudoeste do Ontário – onde o candidato Liberal acabou por desistir face a acusações de assédio – e a ex-dirigente do partido, Elizabeth May, reeleita em Saanich - Gulf Islands, na Colúmbia Britânica.

Em ascensão está o Partido Popular do Canadá (PPC), que conquistou milhares de votos em múltiplos distritos eleitorais, acabando com cinco por cento do voto popular.

Apesar disso, o partido não conseguiu um único assento parlamentar e o seu dirigente, Maxime Bernier voltou a perder no distrito eleitoral de Beauce, em Quebeque, que durante mais de uma década representou na Câmara dos Comuns como deputado Conservador.

Em 2019 Maxime Bernier concorreu pela primeira vez sob a bandeira do novo partido que então fundou, vindo a perder frente ao candidato Conservador Richard Lehoux, que na eleição de segunda-feira conseguiu aumentar a sua margem de vitória.

Representação luso-canadiana em Otava

Peter Fonseca foi reeleito pelo partido Liberal em Mississauga Leste - Cooksville para o seu terceiro mandato consecutivo.

O luso-canadiano conseguiu 21.883 votos (49,5 por cento), seguida da candidata Conservadora Grace Adamu com 14.319 votos (32,4 por cento).

Na província de Quebeque, Alexandra Mendes voltou a sagrar-se vencedora em Brossard-Saint-Lambert, distrito eleitoral que representa desde 2015.

A candidata pelo partido Liberal foi reeleita com 53 por cento dos votos (25.866) e derrotou conclusivamente a sua adversária do Bloco Québécois, Marie-Laurence Desgagné, com mais de 16.000 votos de vantagem.

Pandemia alterou campanha e acto eleitoral

A campanha eleitora de 2021, que abrangeu o mais curto período eleitoral permitido por lei, levou à realização de três debates televisivos nacionais, mas foi, a todos os títulos, diferente devido à pandemia de Covid-19.

A forma como os eleitores votaram mudou substancialmente em relação a eleições anteriores e quase um milhão de pessoas viria a optar por votar por correio, através de boletins especiais, enquanto que 5,8 milhões votaram antecipadamente, nos quatro dias designados para esse efeito, um aumento de 18,5% em relação a 2019.

A verificação e contagem dos votos pode ainda vir a alterar os resultados em alguns dos distritos eleitorais mais fortemente disputados.

Entretanto, os protocolos de Covid-19 em algumas assembleias de voto resultaram em longas filas e períodos de espera muito para além o normal nas assembleias de voto,que já por si eram em menor número.

A agência responsável pelo sufrágio indicou terem-se também registado algumas interrupções nas assembleias de voto em todo o país.


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