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Canadá/Covid-19: Otava suspende entrega de vacinas às províncias por falta de procura

Mais uma vez, o número de infecções semanais de Covid-19 no Canadá manteve-se estável durante a última semana, em torno dos 30.000 casos, enquanto que as mortes voltaram a registar um aumento considerável – desta feita com 232 óbitos declarados, um acréscimo de 17 por cento face ao período anterior mas significativamente menor do que os 30 por centos registados na semana anterior.

O Ontário continua em situação comparativamente estável e com tendência a melhorar, com uma média diária de infecções na ordem dos 698 casos por dia, face aos 722 que constituam a média uma semana antes.

Enquanto isso, à medida em que o índice de inoculação da população com mais de 12 anos se aproxima dos 90 por cento, e face à acentuada redução na procura de vacinas, Otava decidiu esta semana suspender o envio de imunizantes para as províncias e territórios.

Segundo as autoridades, os governos locais têm já em stock quantidades superiores às que vão conseguir utilizar.

O Canadá estava previsto receber até ao final de Setembro 95 milhões de doses dos imunizantes da Pfizer e da Moderna, mas esta semana faltavam ainda 20 milhões para atingir esse valor.

Apesar disso, o país tem em stock 18,7 milhões de doses – 8,5 milhões que foram já entregues aos governos provinciais e 10,2 milhões que estão em reserva, caso sejam solicitadas – e não precisaria de mais mesmo que conseguisse vacinar toda a população com mais de 12 anos.

De acordo com os dados de vacinação quarta-feira (22) tornados públicos, o Canadá conta actualmente com 80 por cento da população com mais de 12 anos devidamente vacinada (duas doses), sendo que 87 por cento já recebeu pelo menos uma dose de imunizante.

Os valores são idênticos no Ontário, embora nem todas as províncias apresentem o mesmo grau de vacinação, que é menor em algumas jurisdições do Oeste e superior nos territórios do Norte e nas províncias de Quebeque e da região Atlântica.

Na melhor das hipóteses, seriam necessários 11 milhões de doses para completar a vacinação de todos os canadianos e residentes permanente com mais de 12 anos.

Face à situação, os governos provinciais solicitaram a suspensão do envio de imunizantes no final de Agosto e Otava informou os fornecedores de que para já não são necessárias mais remessas.

O Canadá aprovou a doação de 40 milhões de doses de imunizante da AstraZeneca e da Johnson & Johnson (J&J) que se tinha comprometido a adquirir e que não pôde usar, para que sejam administradas em países que delas necessitam, e está actualmente a rever possíveis donativos do stock de vacinas da Moderna e da Pfizer.

Até à data, foram já enviadas 82.000 doses de imunizante da AstraZeneca para Trinidade e Tobago.

Contudo, a doação de vacinas a nível internacional é mais complicada do que seria de prever, devido a exigências legais relativas às datas de expiração dos stocks.

Muitos países não aceitam vacinas com prazo de validade inferior a oito semanas, devido às dificuldades que têm em distribuí-las a tempo.

A par disso há ainda questões contratuais, já que os acordos firmados com os laboratórios Pfizer e Moderna não especificam eventuais doações de imunizante, ao contrário dos que gerem a compra de vacinas da AstraZeneca e da J&J

O Primeiro-ministro Justin Trudeau prometeu durante a campanha eleitoral que o Canadá doaria "pelo menos" 200 milhões de doses de imunizante até ao final do ano à organização COVAX, que distribui vacinas nos países subdesenvolvidos.

Entretanto, Otava está já a preparar-se para começar a vacinar as crianças entre os cinco e os 11 anos, uma vez que a Pfizer está prevista solicitar essa autorização a qualquer momento, depois da realização de testes clínicos que a companhia diz terem comprovado a segurança e eficácia do seu imunizante neste grupo etário.

A dose para as crianças mais novas é um terço da dos adultos mas não foi ainda esclarecido se o Canadá poderá simplesmente extraí-las dos frascos que tem em stock.

A companhia indicou que está a preparar uma "apresentação diferente para uso pediátrico", mas não confirmou se isso significa que as doses em stock no Canadá poderão ser reaproveitadas para administração às crianças.

Passaportes de vacinação

Enquanto isso, no Ontário o primeiro-ministro Doug Ford afirmou que a recente decisão do governo em adoptar um "passaporte de vacinação" representa a melhor forma de evitar outro período de confinamento.

Numa conferência de imprensa na manhã de quarta feira (22), após ter anunciado o uso de certificados de vacinação no Ontário, o primeiro-ministro considerou-os uma medida temporária mas "essencial" no combate à propagação do vírus.

Desde esse dia que se tornou obrigatória a apresentação destes certificados no sector da restauração, para quem pretende comer no interior dos estabelecimentos, assim como para frequentar discotecas, cinemas, ginásios e casas de espectáculos, entre outras.

Além do certificado, o utilizador terá também de apresentar identificação com o mesmo nome, para evitar o uso de certificados por outras pessoas.

Embora Doug Ford considere que o seu uso oferece "a melhor probabilidade" de evitar retrocessos no combate à pandemia, deixou explícita a sua natureza extraordinária.

"Deixem-me ser muito claro: esta é uma medida temporária e excepcional", afirmou o chefe do governo provincial, que prometeu que o seu uso não será prolongado "nem mais um dia" para além do que for necessário.

O primeiro-ministro admitiu ter hesitado em implementar o sistema de certificados, mas viu-se motivado a fazê-lo em face dos conselhos das autoridades médicas, incluindo o director dos serviços de saúde do Ontário.

Como destacou, "não nos podemos dar ao luxo de voltar a fechar ou a sofrer um aumento súbito no número de casos, como estamos a assistir noutras províncias", referindo-se ao número crescente de infecções em vários pontos do país.

O governo permite isenções à exigência do certificado, com a apresentação dum comprovativo médico, mas vários peritos avisam que são poucos os motivos "legítimos" que justificam este tipo de isenção e consideram que só devem ser concedidas em situações "extraordinariamente raras".

De acordo com o Ministério da Saúde, "são muito poucas as contra-indicações às vacinas contra a Covid-19 que se qualificam para isenção médica", considerando-as "seguras para a maior parte da população".

As excepções, segundo o Ministério, giram sobretudo em torno de pessoas que sofrerem de miocardites ou periocardites – inflamações do músculo ou da membrana do coração – após a administração da primeira dose duma vacina mRNA contra a Covid, ou de indivíduos entre os 12 e os 17 anos que já tenham estas inflamações antes da administração da injecção.

São ainda previstas isenções para quem é alérgico a qualquer uma das substâncias que compõem a vacina, se assim for determinado por um especialista, mas o dr. Adam Kassam, presidente da Associação Médica do Ontário, adverte que será raro já que muitos imunólogos provavelmente irão passar toda a sua carreira sem nunca se depararem com alguém que tenha alergias aos principais ingredientes destas vacinas.

O Ministério da Saúde recomenda que quem sofrer uma reacção adversa grave após a primeira dose da vacina deve ser visto por um imunólogo ou alergologista, podendo a segunda dose ser-lhe administrada sob a supervisão desse especialista.

Todas as isenções médicas que forem usadas para aceder a serviços e estabelecimentos considerados "não essenciais" terão de especificar o nome e o contacto do médico ou enfermeira que a emitiu, o motivo pelo qual o seu utilizador está isento da vacina e o período durante o qual é válida.

As empresas que não cumprirem com a exigência de pedirem um comprovativo de vacinação ou isenção médica, e os clientes que fornecerem informações falsas, arriscam-se a ser multados.

Entretanto e com a perigosa variante Delta a ganhar preponderância na propagação da pandemia, o governo federal indicou que vai levantar a proibição de voos vindos da Índia, onde esta estirpe foi primeiro detectada.

Depois de vários meses, Otava anunciou que no início da próxima semana serão adoptadas novas medidas de rastreamento da doença e que vão voltar a ser autorizados voos directos da Índia para o Canadá, embora o Departamento de Transportes tenha prolongado a proibição – prevista expirar a 21 de Setembro – até dia 26 deste mês.

A partir dessa data deixará de ser necessário aos viajantes que chegam nesses voos apresentarem um teste de despistagem com resultado negativo, efectuado no único laboratório aprovado para tal, no aeroporto de Delhi, nas 18 horas antes da partida.

Segundo o Departamento de Transportes, "para garantir que as novas medidas" são eficazes, foram inicialmente aplicadas em três voos directos que na quarta-feira chegaram da Índia, antes do levantamento oficial da proibição.

Na véspera aquele país registou 26.964 infecções e 383 mortes em 24 horas, longe dos 332.921 casos declarados a 22 de Abril, quando o Canadá proibiu os voos.

No dia 7 deste mês Otava voltou a permitir a entrada no Canadá de cidadãos estrangeiros vacinados por motivos não essenciais, abrindo caminho para uma eventual recuperação do sector de turismo, que permanece um dos mais afectados pelas restrições decretadas para conter a pandemia.


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