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Culto de Nossa Senhora do Monte no Parque Madeira

Milhares assistem às festas que recriam a comemoração da padroeira da Madeira no Canadá

Por António Perinú e Fátima Martins
Sol Português

"Esta ilha encantada

que se chama Madeira

tem a Senhora do Monte

como sua padroeira"

Padroeira do Funchal e de toda a Diocese, Nossa Senhora do Monte é alvo desde o século XV da maior festa religiosa do arquipélago da Madeira e as comemorações estendem-se igualmente às comunidades madeirenses na diáspora.

Celebrada oficialmente a 15 de Agosto, entre nós este é um dos eventos mais significativos organizados pela Casa da Madeira de Toronto e tem lugar anualmente no seu verdejante parque Madeira, em Georgina, no fim-de-semana mais perto desta data.

Foi por isso que sábado e domingo (19 e 20) naquele gigantesco espaço se reuniram milhares de pessoas, e não apenas madeirenses, aproveitando as celebrações para desfrutarem também de dois agradáveis dias ao ar livre – um reencontro para muitos e oportunidade para travarem novos conhecimentos para outros.

A nossa equipa de reportagem assistiu aos principais eventos no dia de sábado (19), que começaram logo pelas 8h00 da manhã, altura em que se deu a abertura do parque e muitos dos espectadores começaram a chegar ao local.

O movimento foi constante ao longo do dia, continuando até ao anoitecer, e grande número de visitantes acamparam no parque por forma a ficarem para os eventos programados também para domingo, dado tratarem-se de dois dias plenos de actividades.

Antes do principal acto religioso, a procissão de velas – que no sábado à noite se realiza em louvor a Nossa Senhora de Fátima e no domingo em honra da Senhora do Monte, ambas a saírem da capela que há muitos anos foi construída no local e onde estão guardadas as imagens – os espectáculos começaram com o conjunto Os Lordes.

Composto por seis elementos, o grupo deslocou-se propositadamente ao Canadá, vindo da Madeira, para abrilhantar estas festividades e registou uma excelente actuação que claramente foi do agrado do público que o recebeu efusivamente.

Após este interlúdio musical, teve lugar a tradicional romagem de ofertas que foi acompanhada musicalmente pela Banda Filarmónica Lira Portuguesa de Brampton, procedendo-se logo de seguida no palco às arrematações, que foram dirigidas pelo conselheiro permanente das Comunidades Madeirenses no Canadá, José Rodrigues, coadjuvado por Lucy Sousa, uma voluntária da colectividade madeirense.

Pouco antes do principal momento religioso dessa noite, monsenhor Eduardo Resendes, que viria a proferir a oração e proceder à bênção das velas, confirmava à nossa reportagem que são já vários anos em que participa nesta cerimónia, "desde o tempo da construção da igreja do Cristo Rei em Mississauga", mas também antes "porque a igreja foi inaugurada em 1979 e eu creio que comecei a vir ao Madeira Parque antes disso, em 1976/77", ainda que não "todos os anos".

O simpático prelado – que nesse dia estava particularmente felizmente porque o seu Sporting havia ganho ao Guimarães no campeonato português de futebol por 5 - 0, como fez questão de connosco partilhar – tem notado as diferenças que se têm vindo a fazer sentir, mas uma que particularmente o deixa "muito feliz" é constatar a participação da juventude.

"É sempre um prazer e gosto muito de cá vir", disse em declarações ao jornal Sol Português, mas de alguns anos a esta parte, "posso dizer que estou muito surpreendido por ver aqui tantas crianças e tanta juventude, pois deixa-me muito feliz".

"A presença de tantas crianças e jovens poderá muito bem ser a continuidade da devoção à Nossa Senhora do Monte e destas tradições", que considerou "certamente vão continuar e perdurar".

Momentos depois, monsenhor Eduardo Resendes marcava o início do acto religioso com a sua voz cativante a dirigir os crentes na homilia e não tardou a que abordasse também a recente tragédia que se abateu sobre a Madeira, quando uma árvore centenária subitamente caiu durante a comemoração da Senhora do Monte, provocando a morte a 13 pessoas e originando dezenas de feridos.

A isso se referiria também o conselheiro permanente das Comunidades Madeirenses no Canadá, José Rodrigues, que foi convidado pelo prelado a dirigir algumas palavras ao público.

O conselheiro expressou o pesar da comunidade portuguesa pelo incidente de 15 de Agosto lembrando que "a perda de vidas humanas e as dezenas de feridos verificados após a queda de uma árvore no Largo da Fonte é uma tragédia que deixou consternada toda a população madeirense e suas comunidades no estrangeiro" e que este é o momento de endereçar "as mais sentidas condolências às famílias enlutadas e fazermos votos de rápida recuperação dos feridos que recebem tratamento".

Como salientou, ser madeirense não é só "gostar da nossa região, da sua beleza natural, das suas festas (e) tradições", é "lembrar-se dia após dia da nossa gente, saber amar, gostar e partilhar os momentos de convívio, alegria e felicidade da vida com os nossos conterrâneos, estejam onde estiverem, mas também saber lembrar, partilhar e dar as mãos nas suas lutas nos momentos difíceis das suas vidas e enxugar as suas lágrimas nos momentos de tristeza".

No final da sua alocução, José Rodrigues mostrou ao público uma coroa de flores que colocou frente à capela e às imagens das Senhoras de Fátima e do Monte, ornamentada com 13 rosas, tantas quantas as vítimas mortais, e a inscrição "Em Memória às Vítimas", enquanto um elemento da Banda Filarmónica Lira Portuguesa de Brampton tocava o toque de "Silêncio".

Por fim, procedeu-se à procissão das velas em honra de Nossa Senhora de Fátima, cuja imagem saiu da capela onde está habitualmente guardada e seguiu, levada no andor, num trajecto que percorreu a zona do Bazar, do Bar, Restaurante e área de espectáculos, até regressar ao local de partida.

Várias centenas de devotos acompanharam a imagem neste percurso, ostentando velas e desdobrando-se em cânticos, com acompanhamento musical da Lira Portuguesa de Brampton.

"A 13 de Maio,

na Cova da Iria,

apareceu brilhante,

a Virgem Maria"

Monsenhor Resendes, que aguardava a chegada, pediu então para que com ele rezassem uma Ave- Maria em memória das 13 pessoas que faleceram, referindo ainda o Centenário das Aparições em Fátima, a presença do Papa Francisco nas comemorações em Portugal e as canonizações de Francisco e Jacinta, que considerou um marco na história portuguesa.

No final, procedeu-se ao Adeus à Virgem Maria, com todos a acenarem a despedida com lenços brancos.

Da religião ao profano foi um passo e em palco depressa surgiu Jessica Vidal, continuando depois o espectáculo com Décio Gonçalves e, novamente, Os Lordes num concerto que teve som e luzes a cargo de 5 Star Productions.

Para o dia seguinte, domingo (20), estava anunciada Missa Campal, celebrada pelo monsenhor Eduardo Resendes, seguida pela procissão da Senhora do Monte e acompanhada pela Filarmónica Lira Portuguesa de Brampton.

O arraial continuaria com o Rancho Folclórico da Casa da Madeira, o conjunto Os Lordes e o cantor luso-canadiano Décio Gonçalves.


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