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Representante diplomático timorense em TorontoDentro de 5 ou 10 anos Timor-Leste será um país diferenteJá falhámos muitas vezes e não podemos falhar mais, diz Constâncio Pinto
Por Fernando Cruz GomesSol Português Constâncio Pinto está frente a nós. Fala pausadamente. Quase como quem mede demasiadamente as palavras. Uma a uma, vai dedilhando as cordas de uma guitarra mística feita angústia. Já foi guerrilheiro nas montanhas do seu país. Já foi "terrorista" (pelo menos assim lhe chamavam). Já foi prisioneiro político e já foi até torturado. A Indonésia, que lhe invadira o país, não tinha outra maneira de controlar os "inimigos". E ele era, por essa altura, um inimigo. Constâncio Pinto, frente a nós, Fala pausadamente. Como quem tem ainda medo de não dizer... o que deve. Em Toronto para falar sobre o que têm sido os últimos seis anos desde a sofrida independência de Timor-Leste, esteve no salão da Igreja Anglicana de São Tomás onde pretendia encontrar-se com muitos. Não conseguiu. E isto porque foram muitos os convidados e... poucos os que aceitaram o chamamento. Portugueses? Dois Jornalistas e a Cônsul Geral, Maria Amélia Paiva, que compareceu, e ainda bem, porque Portugal não esqueceu Timor. Portugal "ainda" lá está até pela Língua, que é agora um dos idiomas oficiais. | ||||||||||
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A História também se faz com poucos...A história de Timor-Leste fez-se, desde sempre, pelo menos entre nós, assim. Com pouca gente, muito pouca gente. Há uns bons 15 anos... eram apenas dois os que, nas ruas da cidade de Toronto que tinha outras coisas mais importantes para se preocupar... se entretinham a levantar o nome de Timor, então em luta contra a Indonésia. Dois. Simplesmente dois... De tal forma que quem estas linhas traça, então a trabalhar numa estação televisiva multicultural, tinha de "ler" os que, eventualmente, apareciam, de baixo para cima. Ou então, extravasando as regras deontológicas da profissão que até isso fez mandar fazer imagens de transeuntes que nada tinham a ver com isso. Eram dois...que começaram a ir para defronte do Consulado indonésio, cujos representantes até ficavam divertidos... porque dois manifestantes... só para rir. Dois que desenhavam panfletos. E trabalhavam como se fosse uma manifestação... para muitos. Por essa altura eram capazes até de saber muito pouco sobre Timor. E quando começaram a aparecer alguns portugueses muito poucos, registe-se as manifestações já começavam a ganhar expressão. Mário Lebre foi um dos primeiros. "Lemos-lhe" a cara e a barba inúmeras vezes para a TV. O Aibé, um timorense que vivia em Otava, chegava também. Pois... mas os dois que lançaram todas estas campanhas, deram o tal pontapé de saída à senda das manifestações contra a ocupação indonésia. Eram eles Maggie e David Webster. Ambos estiveram agora com Constâncio Pinto. E foi o próprio David Webster, hoje com funções docentes na Universidade de Toronto, quem apresentou o agora representante diplomático da República Democrática de Timor-Leste nos Estados Unidos. Fê-lo em Inglês, porque também agora os Portugueses de cá parecem arredados de Timor-Leste, que bem merecia o nosso respeito para não falarmos já na nossa admiração. | ||||||||||
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Sem ódios nem recalcamentosConstâncio Pinto deixou dito algo do que lhe ia na alma. Sem ódio. Sem recalcamentos. Saudou a presença da cônsul-geral de Portugal. Saudou o facto de estar no Canadá, nação que foi uma das maiores dadoras desde que a ONU foi para o seu País, embora este auxílio tenha vindo a diminuir nos últimos tempos. Só que, para Constâncio Pinto, "há ainda muito trabalho a fazer"... depois dos 25 anos de jugo indonésio. Depois da morte de muitos milhares de timorenses cerca de um terço da população em tragédia sem nome. Depois de 87 por cento das infraestruturas terem sido destruídas. Depois dos trágicos eventos que fizeram com que a ONU fosse para o terreno. Depois desta organização não ter tido tempo... de ir a tempo de evitar a destruição. A renascer das cinzasTimor é uma pequena ilha localizada, entre a Austrália e a Indonésia, que foi colonizada pelos portugueses. Desde 1974, quando Timor-Leste começou a lutar pela independência, foi invadida pela Indonésia (a maior nação muçulmana do mundo) e teve quase um terço da sua população dizimada. Um facto que os compêndios da História já hoje contam. Quando, em 1999, o povo maubere pôde finalmente escolher democraticamente entre a independência ou a integração à Indonésia, o país foi barbaramente queimado como marca de despedida. Só pelo "crime" de ter escolhido ser independente. Só que Timor Leste é como a criança que ficou queimada em várias partes do corpito tenro, e a quem todos vaticinavam a morte redentora (já que sofria, sofria, sofria...) e, no entanto, contra o que todos acreditavam, tinha vencido a morte. A jeito de imagem de Timor Leste, um povo pequeno, desconhecido, marcado por tantos sinais de morte. Um povo que durante a invasão, e nos anos que se seguiram, parecia que não iria resistir, e no entanto resistiu e resiste, mostrando ao mundo a força do pequeno que acredita na vida e na liberdade apesar e acima de tudo. | ||||||||||
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Uma nova naçãoTimor-Leste (República Democrática de Timor-Leste) é um dos países mais jovens do mundo. Ocupa a parte oriental da ilha de Timor, na Oceânia. Vai até Oecussi-Ambeno, na costa norte da banda ocidental de Timor, da ilha de Ataúro, a norte, e do ilhéu de Jaco ao largo da ponta leste da ilha. As únicas fronteiras terrestres que o país tem ligam-no à Indonésia, a oeste da porção principal do território, e a leste, sul e oeste de Ocussi, mas tem também fronteira marítima com a Austrália, no Mar de Timor, a sul. Foi colónia portuguesa até 1975, altura em que se declarou independente. Quando os Portugueses deixaram o território, foi invadido pela Indonésia três dias depois. Permaneceu considerado oficialmente pelas Nações Unidas como território português por descolonizar até 1999. Nessa altura já a Indonésia a considerava a sua 27.ª província com o nome de "Timor Timur". Em 30 de Agosto de 1999, cerca de 80 por cento do povo timorense optou pela independência em referendo organizado pela Organização das Nações Unidas. A língua mais falada em Timor-Leste é o tétum. Devido à ocupação pela Indonésia, grande parte da população compreende o indonésio. Uma minoria fala ainda o português, agora escolhido como uma das Línguas oficiais. | ||||||||||
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Mais incêndios e pilhagensEm resposta ao referendo pela independência, grupos de milícias, apoiados por elementos das forças armadas indonésias, empreenderam campanhas de incêndio, pilhagem e violência que só terminaram com a intervenção das forças armadas das Nações Unidas. Finalmente, em 30 de Agosto de 2001, dois anos depois do referendo popular, os timorenses foram novamente às urnas; desta vez para eleger a Assembleia Constituinte, que teve como função redigir e adaptar a nova Constituição, criando condições para a realização de eleições e a transição para a total independência. Este ano, celebra-se o sexto aniversário da restauração da independência, após 25 anos de ocupação indonésia e três anos de Administração Transitória das Nações Unidas (UNTAET). Um País de que se fala com orgulhoHá esforços para avançar nas áreas da agricultura, educação, saúde e infra-estruturas. As receitas provenientes do petróleo e do gás provenientes do Mar de Timor serão parte substancial do que se deve gastar para benefício de futuras gerações, até no desenvolvimento de vários sectores chave. Timor-Leste....Timor Lorosae... East Timor... Constâncio Pinto fala do seu País com orgulho, embora reconheça "haver ainda medo de harmonizar a vida". Fala na "nossa responsabilidade" e entende que Xanana Gusmão, agora Primeiro-Ministro, está a cumprir. Reconstruir um País não é tarefa fácil. A ONU estava lá, "mas os timorenses é que assumiram a responsabilidade e a comunidade internacional acreditou em nós", diz o diplomata, que lembra que a FRETILIN está agora na Oposição, o que parece demonstrar que a democracia funciona. No seu tom habitual, vai dizendo que "a tarefa não vai ser fácil para nós", mas acredita que países como Portugal, o Canadá e a Austrália continuem a ajudar. Não apenas com dinheiro, como sublinha, mas com meios que "nos agucem a capacidade de gerir". E mesmo o problema do petróleo que é um "bom" problema "estamos a tentar gerir, com a esperança de podermos desenvolver o País". Deixa cair a afirmação: "Acho que já falhámos demasiadas vezes. Não podemos falhar mais". Dentro de 5 ou 10 anos, "vamos ter um Timor Leste diferente", afirma Constâncio Pinto. E enquanto vai terminando, repete a sua esperança de ver a comunidade internacional participar na evolução de Timor Leste. "Não queremos trabalhar sozinhos", conclui, "queremos que a comunidade possa dizer como nós nós fizemos". | ||||||||||
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