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Noite de Karaoke na Universidade de Toronto anima e ensina português

Por João Vicente
Sol Português

O Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Toronto realizou na passada sexta-feira (18) uma Noite de Karaoke que atraiu mais de uma centena de pessoas até à sala 112 do Victoria College.

Segundo a professora auxiliar Anabela Rato, que há cerca de três anos integra este departamento, a ideia foi introduzida pelo seu colega, e grande aficionado de karaoke, Juan Osornio, que entrou para o departamento na mesma altura.

Esta é, portanto, a terceira edição deste evento que se tem vindo a popularizar de ano para ano, de tal modo que desta vez as cadeiras não chegaram para toda a gente e a certa altura cerca de duas dezenas de espectadores assistiam em pé.

"Queremos que se desfaçam do vosso medo de falar português e espanhol – o medo de falar é uma das coisas mais difíceis quando se anda a aprender uma língua e uma das formas de perder esse medo, esperamos nós, é vir aqui e cantar", afirmou o professor Osornio, prestes a terminar a apresentação que marcou a abertura do evento e durante a qual foi acompanhado por Anabela Rato.

A docente portuguesa viria a acrescentar, em português, que "é muito importante aprendermos uma língua mas, ao mesmo tempo, divertirmos-nos", concluindo retoricamente: "e que melhor maneira para aprender o português e os sotaques do português do que cantando?".

Durante pouco mais de uma hora foram várias as pessoas que pisaram o palco para cantar nas duas línguas latinas, com mais ou menos timbre de voz, com mais ou menos confiança, mas sempre com um grande cuidado na pronúncia, o que foi recompensado com generosos aplausos da assistência.

Michael Angeles, de origem filipina, foi um dos concorrentes que cantaram em português e que, segundo nos explicou, começou a aprender a língua de Camões porque pratica Jiu Jitsu brasileiro e desenvolveu uma estreita amizade com os colegas do ginásio – estes até lhe puseram a alcunha de "bochecha", porque era mais gorducho quando começou a praticar aquela modalidade.

Como gostava de poder comunicar melhor com os amigos brasileiros e compreender o que dizem entre si, começou a estudar a língua portuguesa em Setembro e desde então diz notar uma acentuada melhoria que atribui em grande parte ao contacto contínuo que mantém com os amigos e à forma descontraída como se exprimem naturalmente e com humor.

Esta interacção – que lhe tem permitido também aprender bastante gíria e os inevitáveis palavrões – tem-no sobretudo ajudado a treinar o ouvido pois as raízes filipinas ajudaram com a pronúncia.

Por seu turno Lisa Guan, uma jovem de origem chinesa que interpretou um tema de Mariza, considerou esta realização "uma bela oportunidade para os estudantes saírem da sua zona de conforto, especialmente para mim que sou envergonhada", admitiu.

"Mas a minha professora encorajou-me e fiquei contente de o ter feito", afirmou a jovem.

Também o francês Loick Masunda ganhou coragem para saltar para o palco e interpretar um tema em português.

A mãe tem sangue angolano e ele acha que o português "não é fácil de aprender, mas é uma língua linda" – e ter o francês como primeira língua "ajuda".

O ano passado foi ao Brasil e adorou mas, ao contrário de outros países que já visitou, considera que lá não se chega muito longe só com francês e inglês, por isso decidiu dar o mergulho no português.

A leitora do Instituto Camões na Universidade de Toronto, Luciana Graça, é a professora destes jovens e não podia estar mais orgulhosa.

"O objectivo é reforçar a aprendizagem dos alunos, mas fazê-lo de uma forma mais lúdica porque acreditamos que a aprendizagem não pode passar apenas pela memorização de regras gramaticais e pela realização de exercícios", explica a docente.

"A aprendizagem mais profícua implica também a participação em actividades mais interactivas, como o cantar perante um público, pois reforça a auto-estima dos alunos em falar português", afirmou.

Segundo apurámos, o programa de português realiza vários eventos ao longo do ano, sendo de destacar um convívio realizado em Dezembro e que foi dedicado à música lusófona, assim como um evento alusivo ao Carnaval e que está marcado para o final deste ano lectivo.

No decorrer deste encontro foram também convidados a dirigir-se à plateia alguns dos assistentes dos catedráticos, entre eles Scott que explicou ter começado a aprender espanhol em Calgary, tendo continuado o seu estudo desta língua na universidade, mas só quando se envolveu num programa de intercâmbio de estudantes com o México e passou algum tempo envolto na cultura – não só de forma pedagógica mas também social e lúdica – é que o seu domínio do idioma se completou.

Num conselho que se aplica a todos os que desejam tornar-se fluentes em qualquer língua, Scott convidou os estudantes a fazerem do idioma que desejam aprender "parte da vossa vida diária – não pensem que basta aprender e compreender na aula", concluiu.

Por fim houve uma pausa de cerca de dez minutos durante a qual a assistência pôde votar nos seus cantores favoritos, momento que aproveitámos para abordar alguns elementos do público sobre as actuações a que tinham assistido.

Maria Steele, que está a aprender português e se encontrava ali com os amigos Ania e Vinício, disse-nos estar a apreciar o espectáculo, não só porque as actuações foram divertidas mesmo quando os dotes não eram do mais alto nível, mas também porque "permite às pessoas envolverem-se na cultura".

Segundo ela, o facto de falar espanhol e de também ter aprendido francês, sem dúvida lhe facilita a aprendizagem do português.

Entretanto, alguns elementos da Luso-Can Tuna dirigiram-se à plateia para darem a conhecer as suas actividades e objectivos, deixando em aberto um convite aos possíveis interessados em integrar este grupo musical académico luso-canadiano.

Dado o interesse e nível de participação nesta Noite de Karaoke, assim como o papel activo do público não só a aplaudir quem melhor cantava, mas também a dar encorajamento aos menos dotados ou mais acanhados, este evento anual – o único organizado e realizado conjuntamente pelos programas de espanhol e de português da universidade – concluiu com um saldo muito positivo.


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