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Em Scarborough:

Festas do Espírito Santo tomaram conta da Igreja de N.S. do Rosário

Por Noémia Gomes
Sol Português

As Festas do Espírito são das mais antigas práticas do catolicismo popular, cuja origem remonta às celebrações religiosas realizadas em Portugal a partir do século XIV e nas quais a terceira pessoa da Santíssima Trindade era festejada em banquetes colectivos, designados de "Bodo aos pobres", e durante os quais se procedia à distribuição de comida e esmolas.

Diz-se que a sua celebração teve origem na Rainha Santa Isabel de Portugal e Aragão, e nasceu do cumprimento da promessa da monarca em 1320 de peregrinar o mundo com uma cópia da coroa ostentando no alto da mesma o símbolo do Divino Espírito Santo – uma pomba – a arrecadar donativos para benefício da população pobre.

As celebrações, que aparentemente foram instituídas pela primeira vez em Alenquer um ano depois, em 1321, acontecem 50 dias após a Páscoa, comemorando o dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu do céu sobre a Virgem Maria e os Apóstolos de Cristo sob a forma de línguas de fogo, segundo conta o Novo Testamento.

A devoção ao Espírito Santo floresceu nos territórios portugueses, especialmente no arquipélago dos Açores, e de lá espalhou-se para todas as áreas colonizadas, sobretudo onde se criaram fortes comunidades oriundas dos Açores, como é o caso do Canadá, Estados Unidos da América e Brasil.

É assim que na diáspora esta tradição é celebrada todos os anos nos clubes e associações de origem açoriana, marcando uma tradição lusa com quase sete séculos de história.

Foi este legado que no passado fim-de-semana foi celebrado na Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, em Scarborough, onde se assinalou o dia do primeiro bodo, ou Pentecostes.

A organização esteve a cargo dos mordomos João e Lorena Martins, coadjuvados pelos vice-mordomos Manuel e Zurita Morgado, e pelos assistentes Carlos Carvalho e Conceição Pacheco.

O certame parecia ter sido transferido da ilha Terceira, completo com quase todas as tradições intactas – desde o cortejo à coroação, incluindo as sopas do Divino, a alcatra, o arroz doce e a massa sovada, e outros pequenos pormenores com particularidades da ilha de Jesus.

O dia da coroação foi precedido de um tríduo de preparação que começou na quinta-feira (17) com a reza do terço e missa, seguido por um pezinho do Espírito Santo cantado por António Cordeiro, Manuel dos Santos (vindo da Califórnia) e cantadores locais, no que se pode caracterizar como uma noite informal de convívio.

Na sexta-feira (18), depois do terço e da missa, procedeu-se à bênção das pensões pelo padre Willyans Raposo, procedendo-se depois à sua distribuição, seguida pela realização de um mini-concerto com o agrupamento Brumas da Terra, vindo de Arrifes, na ilha de São Miguel.

Já no sábado (19), e uma vez mais após a reza do terço e da missa, houve um convívio com realização de bazar e espectáculo, desta feita com actuação da jovem Melanie Cabral, finalista da edição 2016/17 do Concurso de Cantores SCJS, e dos Brumas da Terra, com som e luzes a cargo de Tony da Silva, da empresa luso-canadiana TNT FX.

O agrupamento micaelense, que esteve nesta festa a convite dos mordomos, registou a sua terceira digressão ao Canadá, apresentando-se composto por sete músicos – seis elementos masculinos e um feminino (alguns dos quais elementos do grupo Cantares de Outrora); Pedro Moniz, Luís Moniz, José Moniz, Rui Cardoso, Roberto Botelho, Alix Paulino e Noémia Andrade.

Formado há três anos, o Brumas da Terra interpreta músicas originais e tradicionais, contando com elementos de grande talento e gozando já de popularidade invejável.

A festa atingiu o seu auge no domingo (20), tal como seria de esperar, e tanto a Igreja da Senhora do Rosário como o salão de festas encontravam-se lindamente enfeitados e decorados.

O altar do Divino Espírito Santo foi concebido pelo jovem Marco Borges, que aqui se deslocou vindo da ilha Terceira onde é já famoso pela sua arte de decoração, incluindo, além de altares, casamentos, carros alegóricos e montras.

O jovem foi ajudado nesta tarefa pelo terceirense radicado em Toronto, João Linhares, e pelo carpinteiro António Viveiros, tendo criado juntos uma verdadeira obra de arte segundo todos os comentários que escutámos.

No dia em que se celebrava a festa de Pentecostes o cortejo saiu à rua liderado pelos estandartes dos mordomos, da Irmandade do Divino Espírito Santo de Scarborough, bem como de várias irmandades e organizações visitantes, incluindo da Gustine Pentecoste Society (Califórnia), Nossa Senhora dos Milagres (Califórnia), Nossa Senhora do Rosário de Hilmar (Califórnia), Primeira Irmandade do Espírito Santo de Santo António (Toronto), Organização Portuguesa Micaelense de Caridade (Cambridge) e outras.

Integrados no cortejo seguiam também grande número de associações religiosas locais, os mordomos, coroas do Espírito Santo, estandartes vários e muito público.

A procissão regressou à igreja, sendo acompanhada até ao altar pela Banda do Senhor Santo Cristo de Toronto, após o que se procedeu à missa, celebrada pelos padres Willyans Prado Raposo e António Maria Resendes.

Terminada a homilia procedeu-se à cerimónia da coroação, durante a qual foram coroados os mordomos João Martins e Lorena Martins, assim como a neta, Clara Maria Couto, que envergava uma capa digna de uma princesa, feita por Inês Santos, da Califórnia.

No final da cerimónia religiosa e com o cortejo a sair da igreja, rumo ao salão paroquial para o convívio e desfrute da refeição colectiva, as crianças soltaram pombas brancas, simbolizando o Espírito Santo.

Entretanto, e uma vez já na sala, o padre Willyans abençoou as famosas sopas do Divino Espírito Santo, prestes a ser servidas pelos membros da irmandade e que foram confeccionadas pela cozinheira Maria Empena e pela sua equipa de voluntários.

Este grupo dedicado trabalhou incansavelmente durante dias e noites seguidas na preparação do elaborado prato, bem como da alcatra, não faltando carne cozida, toucinho, enchidos, repolho, batatas, massa sovada, arroz doce e vinho.

Por várias vezes visivel-mente emocionados, os mor-domos João e Lorena mostravam-se claramente felizes em verem a casa cheia e embora chegando a ficar sem palavras para agradecer a todos os que os ajudaram nesta monumental tarefa, lá as viriam a encontrara para expressarem a sua gratidão, incluindo à família vinda de longe e aos responsáveis pelo altar.

Como reforçou Lorena Martins, foi um ano de trabalho árduo "mas valeu a pena pois foi tudo em louvor ao Divino e não para tentar ser melhor do que os outros".

Entretanto, os Brumas da Terra voltaram a animar a tarde, até à hora de sortear as Domingas, com a colaboração do padre Willyans, após o que uma vez revelados os mordomos para 2018/2019, Carlos e Conceição Carvalho receberam a coroa e a bandeira do Divino das mãos dos mordomos cessantes, dando assim início formalmente à sua missão de um ano.


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