PENA & LÁPIS


Correspondente do Brasil:

Andando por África

Por Francisco G. de Amorim
Sol Português

Zimbabwe (Ex Rodésia Do Sul)

1972, quando lá fui, ainda a capital era Salsbury, terra de apartheid, mas... desenvolvida, arrumada. Hoje o país é Zimbabwe e a capital Harare.

Um apartheid "ligeiro", porque nos hotéis onde fiquei havia sempre, como clientes uns africanos. O que não acontecia na África do Sul.

Fomos a uma espécie de "feira" em Bulawayo, que o Ian Smith teria convencido, a que industriais de Angola e Moçambique lá expusessem os seus produtos, à procura de credibilidade para um governo isolado que o mundo inteiro não reconhecia.

A Mac-Mahon, 2M, expôs cerveja e lá fui eu estar uns dois ou três dias...

A Feira foi inaugurada pelo "presidente", Clifford Dupont, simpático, mais ainda a mulher dele, uma bonita ex aeromoça da BA, que conversou com todos os expositores estrangeiros... que não eram mais de 3 ou 4.

Num dos hotéis o restaurante tinha uma espécie de "jogo americano", em papel, muitíssimo interessante, com um mapa da região e algumas indicações sobre história e minérios. Num repente entendi que tinha havido em tempos dos faraós, ligações com aquela área, porque ambos tinham o escaravelho como animal sagrado relacionado com o deus Kefri, responsável pelo movimento do sol, arrastando-o pelo horizonte; no crepúsculo, o sol (o deus Rá) morria, ia para o outro mundo; depois, o escaravelho renovava o sol no amanhecer. Fiquei muito entusiasmado com essa "descoberta", que ninguém com quem falei jamais tinha relacionado.

No restaurante pedi que me dessem dois ou três desses "americanos" que guardei tão bem que... infelizmente desapareceram!

Não podia deixar de ir visitar as ruínas do Great Zimbabwe, que deram origem à lenda das Minas de Salomão, uma construção impressionante por ser quase única na África ao sul do Equador.

Muita lenda envolve, mas pela configuração da construção e pela localização, dá a sensação de ser um lugar onde as caravanas de escravos descansavam, quando os levavam para o litoral, para os mercadores árabes. O interior muito bem defendido, paredes altíssimas, e para lá se entrar tem que se percorrer um corredor de meia dúzia de metros onde só passa uma pessoa de cada vez. Melhor protecção contra "ladrões de escravos" não havia.

E ao lado, num cabeço estratégico, um forte para vigiar possíveis assaltantes.

Muito, muito interessante.

Aproveitei ainda para ir ver as Quedas Vitória, que tinha sobrevoado na TAP quando fui a primeira vez a Moçambique, enjoadíssimo, no avião!

A quilómetros de distância avista-se uma neblina no ar e logo se começa a ouvir o barulho da água. Desta vez sobrevoei num pequeno avião.

Na língua tonga, chamam-lhe Mosi-o-Tunya a fumaça que troveja.

É um espectáculo deslumbrante.

Suazilândia

A Suazilândia é um pequeno país, um reino. Quando lá estive, várias vezes, reinava o King Shobuza II, com o título honorífico de "Bull of Swazi" por causa da imensa descendência. Teve 70 mulheres, 210 filhos de que sobreviveram só 180 e quando morreu tinha mais de 1000 netos!

Se os europeus fizessem o mesmo não precisavam importar muçulmanos!

A população lá cresce bem, ao ponto de o rei ter, por decreto, proibido as relações sexuais por cinco anos !!! Não deixa de ser um país bem curioso!

Hoje o rei é o Mswati III, tem 36 anos, e ainda só conseguiu 15 mulheres e 23 filhos. Olhem como o rapaz é jeitoso. Quem se habilita a ser a 16ª?

País pequeno, bonito, mudou de nome para Reino de Swatini, Eswatini.

Montanhoso, clima magnífico, chamavam-lhe a Suíça Africana. Tem casino, um pequeno parque de caça que achei uma jóia, e produz cana, abacaxi e outras frutas, além de ter diamantes e ouro, mas o PIB per capita é baixo.

Da primeira vez fui com uns amigos cuja finalidade era o jogo no casino, coisa que eu não gosto.

Mais tarde, convidado pela Coca-Cola, fomos a uma convenção, e por último, em 2001, já com o novo rei (!) fui renovar o visto para ficar mais uns dias em Moçambique, onde o Cônsul de Moçambique foi amabilíssimo.

Sexo quase livre, como se vê pelos exemplos reinóis é o país com maior taxa de AIDS do mundo, e como 70% da população vive da agricultura... aí no mato então...

África do Sul

Estive pela primeira vez na África do Sul, em 1954, quando fui fazer um estágio na fábrica da Massey-Harris, máquinas agrícolas, em Vereeniging. Ficámos num hotel óptimo, com campo de golfe, e lá estivemos duas semanas.

Eu já conhecia praticamente todas aquelas máquinas, mas é sempre bom vê-las em construção.

No primeiro dia, visita à fábrica, grande, deparo-me com um espectáculo inesquecível na secção de caixotaria, de onde praticamente tudo era expedido, embalado em caixotes ou grades de madeira.

Armazém grande, meia dúzia de operários, todos africanos, preparavam esses caixotes. Recebiam as tábuas já cortadas, e de acordo com planos estabelecidos só tinham que as pregar para as transformar em caixas.

Cada homem em sua caixa, martelo e pregos para cada um. Todos em silêncio. A voz ali não fazia falta.

Um deles, à vez, dava a primeira martelada e logo em seguida, em ritmo de batuque, de dança, todos martelavam o mesmo número de pancadas nos pregos. Quando um terminava, terminavam todos. Novo prego, novo sinal de partida, mais um pouco de batuque, e por aí adiante.

Nessa visita, acompanhado de mais oito visitantes, foi tal o meu espanto, admiração e entusiasmo por esse concerto de música que me deixei ali ficar uma porção de tempo, e acabei por me perder do grupo. Mas foi um espectáculo sensacional, e único, que não dá para esquecer.

Voltei muita vez àquele país.

Em 1963, alguém da Cuca lembrou-se que a África do Sul devia ser um grande consumidor de cerveja (era) e que podíamos tentar exportar para lá.

Responsável pela área comercial da companhia, fui eu.

Em Johannesburg, o Cônsul Geral era casado com uma irmã do tio Zé Perestrelo que eu conhecia bem. Foi muito prestável e útil e arranjou-me um contacto que se revelou a chave do "cofre", e num domingo fui almoçar a casa deles. Muito simpáticos.

Segunda de manhã tinha um carrão à porta do hotel. Era do tal "big boss" dono de uma grande empresa, distribuidora dos charutos Ritmeester e algo mais, negócio grande, e estaria interessado em alargar o seu leque de produtos. Mandou o seu carrão para me buscar.

Pela maneira como lhe expus o problema ficou bastante interessado, gostou da minha apresentação e abriu-me as portas para os trinta e tantos representantes de vendas que tinha no país, Zâmbia e Rodésia do Sul. Parecia que logo de entrada eu dera um tiro na mosca. Veremos.

A seguir Durban onde o Cônsul, meu amigo de toda a vida também irmão do tio Zé Perestrelo e a mulher eu conhecia desde criança, extremamente simpática e activa auto nomeou-se minha ajudante, e motorista! Levava as duas filhas de manhã ao colégio, depois vinha buscar-me ao hotel e ia comigo fazer as necessárias visitas. Um encanto e uma boa disposição especial.

Segui para Cape Town, e para variar costumava ir falar com o Cônsul de Portugal para me orientar. Este eu não conhecia, mas no meio da conversa diz-me: "A minha mulher conhece-o bem!" Achei estranho e fiquei meio sem graça, mas perguntei quem era. Rosário Vaz. Tinha feito o curso de aeromoça da TAP com a tia Licas, com quem por vezes nos encontrámos. Coincidência simpática. Convidou-me para jantar com eles o que foi uma noite muito agradável.

Na véspera de ir embora tinha uma reunião com um dos representantes do tal "big boss". Era perto, fui a pé, e encontro na rua um homem a vender uns frutos que eu jamais tinha visto. Deu-me um a provar, achei uma delícia, e fui de cartuchinho de papel na mão para a "importante" reunião, o que os anfitriões até acharam graça.

À saída ainda lá estava o vendedor, já com pouca fruta. Comprei-a toda para levar para casa, onde chegaria dois dias depois.

Fizeram um sucesso. Lichias!!! Quem não gosta?

Voltei lá quando estava na 2M. Estive uns dois dias com a Coca-Cola, fui num caminhão de entregas ao Soweto, falámos com um cliente importante, um hotel de 3 estrelas, óptimo, mas... só para africanos (!!!), onde o patrão nos recebeu muito bem, fui também recebido pelo director geral da South African Breweries que me convidou para jantar em sua casa (uma honra que raros receberam!). E mais, recebi até um convite para gerir uma fábrica que eles iam abrir na Rodésia do Sul que, com um governo branco não parecia ter futuro, e não teve, o que me fez recusar o atractivo convite. Se tivesse aceite, hoje estaria, de certeza, muito melhor financeiramente! Enfim.

Fomos um dia, todos, pais e filhos a Nelspruit tratar dos dentes (onde o João rogou pragas ao dentista; saiu de lá com uma tromba...!), e como tínhamos comprado um carro americano e um atrelado com uma grande barraca de campanha, fomos depois acampar dois ou três dias no Kruger Park, um passeio magnífico.

Fui mais vezes a Johannesburg, não só com a 2M, como a seguir no Banco.

Não esqueço o dia em que estava no escritório do Banco lá em JB no 25º andar do Carlton Center, sentado num sofá em frente a uma larga janela, quando vi uma "coisa" passar, caindo, do lado de fora, e até fiz um comentário idiota: "Passou ali um sujeito que podia ter entrado e beber um copo connosco."

Estavam comigo o director do escritório e um director do Banco Real, do Brasil. Olharam para a janela, e como é de supor nada viram, continuámos a falar sobre o problema que ali me levara.

Quando saímos ainda o corpo do desgraçado estava estilhaçado no chão! Parece que bêbedo, pensou em descer agarrado aos cabos de aço que levavam o material de construção para os andares superiores que ainda estavam em acabamento. Queimou as mãos com o atrito e despencou aí do 30º. Um horror.

No dia seguinte fomos a Pretoria tratar do assunto com o Banco Central, para podermos administrar os salários dos trabalhadores moçambicanos, pagando juros enquanto não pudessem dispor do seu dinheiro o que só acontecia no final do contrato de trabalho, visto que o acordo em vigor, naquela altura, era feito entre o governo português o sul-africano, o que prejudicava, como é óbvio, o pobre.

A reunião correu muito bem, promessa de aceitarem a nossa proposta, mas... uma semana depois o 25/4 acabou com tudo.

Era um país espectacular, mas com aquele maldito apartheid, até eu fui insultado por isso.

Fui a uma livraria onde das vezes anteriores tinha encontrado livros bons e muito baratos. Costumava ir a pé porque era relativamente perto do hotel. Mas um dia ao sair um ônibus passava e mandei parar. O motorista parou, abriu a porta da frente e começou a insultar-me, sem eu compreender o que dizia porque falava ou africâner ou tsonga. Foi o atendente da livraria que me disse que eu não devia mandar parar um ónibus exclusivo Non Whites, e assim eles pensaram que eu os estaria a ofender!

E eu sabia lá disso, mas fiquei chocado, não pela "ofensa" mas pelo facto em si.

Namíbia (ex Sudoeste Africano)

Depois de Cape Town (e de ter comprado todas aquelas lichias) o meu regresso a casa passava por Windhoek, ainda o país sob administração da África do Sul, de que só se livrou em 1990, quando se tornou independente.

Foi aqui que o cachaceiro lula, que fez questão de andar a passear pelo mundo, imitando o seu compincha Bochechas ou Dom Mário I, rei de Portugal, ao fazer um pronunciamento oficial, ao lado do presidente da Namíbia teve esta brilhante frase: "Nunca pensei encontrar em África um país tão arrumado e limpo!" Uma besta.

Se naquela viagem, em todas as cidades tinha encontrado um Cônsul de Portugal que me era conhecido, e que me foram de grande utilidade, ali não conhecia ninguém.

Mas logo no primeiro dia, estava eu na sala de entrada do hotel entrou um pequeno grupo de duas ou três pessoas e uma delas se dirige a mim, sorriso aberto: "Ó! Sr. Amorim! O que o senhor faz aqui?"

O meu ar de espanto mostrou que não fazia ideia quem me estava a cumprimentar.

- Já não se lembra de mim? Há... (não sei já quanto tempo) visitei a Cuca e foi o senhor que me recebeu! E não esqueci.

Aí bateu o badalo do sino. Caiu a ficha e logo lembrei tudo.

Foi óptimo, conversámos um bom bocado, mas nada de especial haveria a fazer naquela terra.

Na altura nem sabia que existia lá um padrão, erigido em 1486 por Diogo Cão, e se soubesse também não teria sido fácil andar uns 400 kms para cada lado.

Mais um dia e regressei a Luanda, poucos dias antes do Natal de 1963... com as lichias!!!

E mais um mês nascia a Joana!


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