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LIUNA:

Onda laranja abate-se sobre Queen's Park

Por João Vicente
Sol Português

Caso não tivesse já ficado perfeitamente claro, a central sindical LIUNA está disposta a destronar o governo Liberal de Kathleen Wynne caso as estipulações previstas no apêndice 14 da proposta de lei 31, apresentadas juntamente com o orçamento provincial, não sejam retiradas o mais rapidamente possível.

Foi isso mesmo que o sindicato fez questão de demonstrar numa manifestação que na manhã de segunda-feira (23) juntou vários milhares de sócios frente à legislatura provincial, no Queen's Park, e durante a qual o vice-presidente internacional da LIUNA viria a rasgar publicamente o seu cartão de militante do Partido Liberal.

"Queremos justiça", "Wynne tem de sair" e "Na-na-na-na, Hey Hey, Goodbye" foram algumas das palavras de ordem que se ouviram durante esta manifestação, até que o candidato do Partido Conservador, Doug Ford, subiu ao atrelado que servia de palco e aí o refrão mudou para "Queremos Ford".

"Que acolhimento mais caloroso", agradeceu o líder Conservador ao dirigir-se à multidão, para afirmar: "LIUNA, estou convosco a 100 por cento e os dias das negociatas ocultas de Kathleen Wynne chegaram ao fim".

Doug Ford prometeu respeitar o sindicato e acrescentou que a ajuda vem a caminho e chega no dia 7 de Junho, data marcada para as eleições provinciais e nas quais incentivou todos a votarem.

Enquanto a multidão gritava "Douggie, Douggie..." e "Queremos Ford", o candidato caminhava no seu meio apertando as mãos que se estendiam para o cumprimentar.

Pouco depois, o administrador da filial Local 506, Carmen Principato, chamou ao palco o vice-presidente internacional e administrador regional da LIUNA, Joseph Mancinelli, que explicou a razão para esta manifestação.

"Estamos aqui para mostrar ao governo que o poder está aqui e não nos corredores da legislatura", afirmou o sindicalista, ao que a multidão respondeu com uma forte ovação e cânticos de "Feel the Power" (Sintam o Poder), slogan do sindicato.

"O governo vai sentir o poder da LIUNA dentro em breve", prometeu Joseph Mancinelli, acusando mais uma vez o governo de favoritismo e de tentar encobrir a alteração legislativa ao incluí-la no orçamento, ao que a multidão respondeu com gritos de "vergonha", "vergonha".

"A única coisa que precisamos do governo é que não meta o nariz nos nossos assuntos", continuou, dizendo que negoceiam com os empreiteiros e, em caso de conflito, este é resolvido na Junta Laboral do Ontário.

"O apêndice 14 nega aos nossos trabalhadores da cofragem no sector de ICI (construção industrial, comercial ou institucional) a jurisdição que foi conseguida ao longo de 40 anos", afirmou Joseph Mancinelli.

Claramente irritado, acusou o governo de "traição e estupidez" por ter "espetado uma faca nas costas dos trabalhadores, após décadas de apoio [em que o] sindicato indicou ao governo o que fazer pelos trabalhadores", ao mesmo tempo que renunciava o seu apoio aos Liberais e rasgava um cartão que indicou ser o de militante do partido.

O líder da LIUNA explicou que dias antes, a 19 de Abril, se encontrou com a primeira-ministra do Ontário, numa reunião em que participaram também o administrador da filial Local 183 e da OPDC - Conselho Distrital da LIUNA, Jack Oliveira, e o advogado do sindicato, altura em que apresentaram uma proposta de igualdade com o sindicato dos Carpinteiros e que esta recusou.

"Em Junho vai haver uma eleição provincial – vamos mostrar ao governo onde é que está o poder" reiterou o sindicalista, perante as fortes ovações dos milhares de trabalhadores ali reunidos, acrescentando que, se o governo não revogar a alteração proposta, "precisa de ser esmagado".

Também Jack Oliveira se pronunciou sobre a polémica proposta de lei do governo, agradecendo aos sócios do sindicato pelo papel que desempenharam no crescimento da filial 183.

"Não precisamos de favores, precisamos é que estas pessoas aqui [no Parlamento] façam o seu trabalho", afirmou o sindicalista luso-canadiano, o que deu azo à palavra a cânticos de "Façam o vosso trabalho" por parte da massa de trabalhadores.

Quando a multidão deixou finalmente de clamar "Jack, Jack", teve a palavra o deputado do Partido da Nova Democracia (NDP) eleito por Essex e membro do sindicato LIUNA 625, de Windsor, Taras Natyshak, que surgiu acompanhado de um contingente de deputados, incluindo Wayne Gates (Niagara Falls), Catherine Fife (Kitchener-Waterloo) e Peggy Sattler (London), e dos candidatos Faisal Hassan (York South-Weston), Kathy Alexander (Sarnia-Lambton) e Marit Stiles (Davenport).

"Kathleen Wynne cometeu dois erros", afirmou Taras Natyshak, enumerando: "primeiro, introduziu a legislação mais draconiana que já alguma vez se testemunhou nesta legislatura, e depois meteu-se com o sindicato errado".

Após afirmar que tinha posto uma questão ao ministro do Trabalho na legislatura e que este não tinha respondido, Natyshak afirmou: "vamos votar contra este orçamento, mas vou dar-lhe mais uma hipótese – a primeira falha (strike) é quando não respondem às nossas perguntas, a segunda vai ser quando eu propuser uma emenda para remover [o apêndice 14] desta lei laboral – que antevejo que vão votar contra – e à terceira, irmãos e irmãs, já sabem o que acontece... são eliminados".

Dito isto, a palavra de ordem na multidão passou a ser "NDP, NDP".

Também Jim MacKinnon, líder da sindical Local 1059, de London, que será afectada pelas alterações propostas pelos Liberais, se dirigiu à assistência, vindo mais tarde a prestar declarações ao jornal Sol Português.

"Tenho cerca de 650 trabalhadores em London que passam metade do seu tempo a fazer exactamente o tipo de trabalho que foi afectado por este governo ao eliminar-lhes o acordo colectivo", disse MacKinnon, explicando que os trabalhadores vão onde quer que estejam os contratos firmados pelos patrões – "isto são equipas de cofragem que se movem sem problemas por toda a província", ou pelo menos moviam-se, pois considera que caso esta alteração à lei laboral entre em vigor, deixam de o poder fazer.

Jim MacKinnon calcula que os membros vão preferir continuar com a LIUNA, mudando de especialidade para uma companhia que tenha trabalho noutro sector da construção que não seja afectado, como por exemplo pontes, residências, passeios de cimento e outros, em vez de deixarem de poder usufruir das suas contribuições para os benefícios, seguro e reforma da LIUNA.

"Eles sabem que se forem para outro sindicato que não tenha trabalho [suficiente] ou que não represente os trabalhadores de pontes, arranha-céus ou esgotos e condutas de água, a "maçã" deles fica num cestinho pequeno, ao passo que com a LIUNA a maçã está num enorme cesto de oportunidades", elucidou o dirigente da sindical 1059.

O último orador a dirigir-se à multidão foi Michael Tibollo, candidato Conservador pelo círculo eleitoral de Vaughan, actualmente ocupado pelo ministro do Trabalho, Steven Del Duca, que afirmou o seu apoio às reivindicações do sindicato.

Em declarações à imprensa, Joseph Mancinelli indicou que na proposta de lei "o que eles [governo] dizem é que estão a dar tratamento especial ao sindicato dos Carpinteiros – se ler o apêndice 14 diz lá mesmo `tratamento especial'", afirmou.

Na realidade, o texto refere-se a "regras especiais", pelo que a diferença poderá ser apenas semântica, mas Mancinelli afirma que é esse o efeito na prática.

Jack Oliveira, por seu turno, destacou mais uma vez o facto desta emenda à lei laboral ter sido "enterrada" no orçamento como algo "preocupante" e expressou o seu receio com relação a efeitos futuros, nomeadamente a possibilidade de maior instabilidade sindical e laboral uma vez estabelecido este precedente.

Com os Liberais em situação de desvantagem, segundo sondagens de opinião recentes, e com a LIUNA a movimentar aproximadamente 120 mil membros nesta província – cerca de metade desse número na Área da Grande Toronto – é possível que os abraços e mostras de apoio por parte do candidato conservador Doug Ford e dos deputados neo-democratas venham a surtir efeito no governo.

Caso contrário, a Direcção da LIUNA diz que será nas mesas de voto que irá dar a conhecer o quanto está descontente com esta medida.


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